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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Gonçalo, graças ao acertado curativo do sábio e experiente Andiara, e à desvelada solicitude com que o tratava a filha de Oriçanga, foi mais depressa do que se podia esperar sarando de suas feridas e contusões, e readquirindo seu antigo vigor. Para seu pronto restabelecimento sem dúvida mais que tudo contribuiu a amável e interessante enfermeira que o assistia. Guaraciaba, que em língua chavante significa – raio de luz – era com efeito a mais gentil e graciosa dentre as filhas da floresta.

E não se pense que entre esses selvagens não se encontram senão rostos grosseiros e estúpidos, instintos selváticos e ferozes; não é muito raro ver-se entre eles, principalmente entre certas tribos privilegiadas, feições bem modeladas, regulares e expressivas, e nobres e generosos impulsos do coração; encontramse por vezes entre eles criaturas em que a obra de Deus faz lembrar ainda a perfeição de sua celeste origem. Guaraciaba era o tipo da beleza indígena no mais alto apuro de sua perfeição. Filha mimosa de um poderoso cacique, criada com carinho à sombra da taba paterna, sua tez não se crestara aos ardores do sol tropical, nem se lacerara nos espinhos das selvas enredadas, e tinha em todo o seu frescor e pureza a delicada cor de jambo. Seus cabelos negros, compridos e corridos ocultavam-lhe quase completamente os ombros, e algumas madeixas desgarradas desciam ondulando a beijar os puros contornos dos seios virginais. Seus olhos pretos e oblongos ora eram meigos e serenos como a superfície de um lago dormente em noite de luar, ora cheios de vivacidade cintilavam como o carbúnculo. Seu porte, seus ademanes tinham a flexibilidade e a graça da cecém, que ao sopro das brisas matinais embala-se à beira da torrente. Ela se comprazia muitas vezes com a turba de suas companheiras em banhar os mimosos membros nas águas do seu pátrio rio, que ela fendia com a destreza e rapidez da lontra. Também empunhava com graça e garbo senhoril um arco trabalhado de primorosas esculturas, e um carcás trançado de palhas de coqueiro imitando a pele escamosa e matizada de uma serpente e bem provido de setas, com que fazia crua guerra às avezinhas, cujas penas cobiçava para seus enfeites.

Guaraciaba e Andiara não poupavam desvelos e cuidados para que Gonçalo recuperasse forças e saúde. Ela mesma trazia em vasos de concha de tartaruga, ou de madeira esculpida, os selváticos manjares preparados por suas próprias mãos. Ora o regalava com os mais saborosos peixes e a caça a mais delicada, ora com os tenros palmitos ou a alva mandioca embebida no delicioso mel de jataí, com ovos de tartaruga, com frutos silvestres, e o suave licor extraído do tronco do buriti; e Gonçalo como que ressurgia do túmulo vivificado pela mão de um anjo.

Entretanto os Chavantes em diversos grupos se dispersavam pelas imensas florestas que bordam as margens do Tocantins, em excursões mais ou menos longínquas de caçadas e pescarias, ou em busca dos ingredientes de que fabricam o precioso guaraná, de cuja composição até hoje se ignora o segredo, ou em correrias pelas fazendas dos brancos, onde iam exercer violências e rapinas.

Quanto a Inimá, profundamente ofendido com as cruéis palavras com que Oriçanga o havia humilhado em presença de Guaraciaba e de grande número de guerreiros, se embrenhava à testa de alguns dos seus pelas florestas vizinhas para ocultar seu amargo despeito, e disposto a não aparecer senão para lavar sua afronta no sangue do atrevido forasteiro que dela fora a causa. Nas tabas pois com Oriçanga e sua filha ficara apenas uma pequena parte da tribo, pela maior parte velhos, mulheres e crianças, e uma escolta de guerreiros escolhidos eram como uma guarda do velho cacique.

Logo que Gonçalo se achou fora de perigo e algum tanto restabelecido de suas forças, foi conduzido pela gentil Guaraciaba à presença do velho chefe, para narrar-lhe suas aventuras. Junto à margem do rio, à sombra de uma colossal figueira silvestre, achava-se sentado o velho cacique rodeado de alguns guerreiros veteranos, com os quais se comprazia em rememorar as façanhas das eras de outrora, e com essas lembranças do passado sua alma se expandia como o velho e carcomido tronco da floresta já sem seiva nem folhagem, cujo calvo tope se enrama de viçosas parasitas e floridas trepadeiras. Gonçalo se assentou no meio deles; servia-lhe de assento a saliência de uma das enormes raízes do tronco. A mimosa filha de Oriçanga apresentou a cada um dos circunstantes um vaso de cauim, e um cachimbo aceso, que circulou de boca em boca, em sinal de paz e boa amizade. Assentada sobre a relva a alguns passos em frente de Gonçalo, com os pés encruzados, o braço pousado sobre os joelhos e a face sobre a mão, Guaraciaba, que nesse momento oferecia à estatuária o mais original e gracioso modelo, estava pronta a escutar com a maior atenção e infantil curiosidade.

— Estrangeiro, diz Oriçanga, quem quer que tu sejas, ou descendas do sangue maldito do imboaba, ou tenhas nascido neste país que Tupá abençoou, já que o céu te fez cair em nosso poder, és nosso escravo, e faremos de ti o que nos aprouver. Mas diz alguém que não pertences à raça detestada de nossos perseguidores, e que as tuas tristes aventuras obrigam-te a vaguear pelas selvas foragido sem taba e sem manitós. Conta-nos pois com espírito de verdade a história de teus infortúnios, e à vista dela veremos qual a sorte que mereces.

(continua...)

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