Por Bernardo Guimarães (1872)
A velha retirou-se, e Eduardo, que nunca nem mesmo nas mais insignificantes coisas desobedecera a sua mãe, deixou-se ficar em casa.
Capítulo VIII
Lucinda e Paulina
O leitor por certo pensará, que vai ter lugar um terrível duelo; que Eduardo ardendo em cólera e ciúmes desatende às ordens de sua mãe, espera que esta esteja adormecida, salta pela janela, e com uma pistola na mão e um punhal no seio introduz-se misteriosamente na sala, onde se festejam as bodas da formosa Lucinda, como o cavalheiro negro da Noite do Castelo, e aí prega uma bala na cabeça do feliz rival, ou pelo menos o esbofeteia em pleno baile, arranca da cabeça da noiva a grinalda nupcial e a calca aos pés rugindo. Depois de ter feito tudo isto, sem que os assistentes, imóveis de assombro, ousassem opor-lhe o menor embaraço, desaparece, esvai-se como um fantasma. Isto seria por certo mais dramático, e talvez mesmo sublime. Mas eu conto uma história, e não invento um conto; quero portanto narrar os fatos com aquela fidelidade, que permite-me a minha memória, tais quais mos contaram há bastantes anos.
É verdade que o nosso herói era valente e coraçudo, tinha muito pundonor e era dotado de nobres e altivos sentimentos; mas o certo é que só nos primeiros dias pensou em vingança. As palavras de sua mãe tinham deixado profunda impressão em seu espírito, e talvez também que algum sentimento íntimo ainda muito em gérmen e adormecido nas dobras do coração, contribuísse para acalmar o seu justo ressentimento.
Doeu-lhe cruelmente a desfeita de que fora vítima, e não pôde por muitos dias disfarçar o despeito e rancor, de que se achava possuído. Mas uma imagem sedutora começava a aparecer a miúdo em seu espírito, e com seu aspecto angélico e sereno dissipava-lhe os negrumes e tormentos do coração. Era como uma fada branca e vaporosa, que vinha varrendo a bruma espessa dos horizontes, e fazia coar uma réstia de luz meiga no fundo daquela alma ulcerada. Era a imagem suave e melancólica de Paulina, que surgia por detrás da sombra de Lucinda, que se esvaecia; era o tipo nobre e delicado da filha do fazendeiro, que apagava na tela da imaginação as formas voluptuosas da rósea e faceira paulista.
Paulina, ainda que Eduardo disso não tivesse consciência, tinha-lhe ficado para sempre gravada no coração em profundos e indeléveis caracteres. Não havia nele ainda uma paixão, porque havia um obstáculo, outra paixão; o coração humano não pode conter a um tempo duas paixões; na tela, onde existe um retrato, não se pode estampar outro sem apagar o primeiro.
Não havia ainda paixão, mas existia o gérmen dela, gérmen que só esperava a ocasião e o terreno livre para desenvolver-se com todo o viço e energia. Assim acontece por vezes, que debaixo do chão ocupado por uma planta robusta existe oculta a semente de outra planta. Se o ardor do sol ou a geada cresta, e faz definhar a primeira, esta cresce e rebenta com tal viço e força, que sufoca e mata a primeira, e toma como conta do terreno.
Eduardo confrontara no espírito as graças tão naturais, o porte modesto, e o sorriso tão meigo de Paulina com os ademanes faceiros e pretensiosos e a garridice de Lucinda, a cândida inocência de uma com a maliciosa vivacidade de outra, e compreendia que, se tivesse tido a dita de tê-las visto ambas a um tempo com o coração livre e espírito desprevenido, nem um momento teria hesitado na escolha. Lucinda com seu gentil donaire um pouco desenvolto, seu rosto sempre corado e risonho, com o voluptuoso meneio das esbeltas e bem torneadas formas fascinava os olhos, abrasava a imaginação, e era capaz de fazer arder em febre de sensualismo o mais estóico e frio temperamento. Paulina com a suave e angélica figura inspirava respeito, amor e adoração, insinuava-se no coração como um meigo raio da lua no seio de um lago dormente, e aí ficava para sempre estampada.
As qualidades de Lucinda, Eduardo as pesava e exagerava no espírito a ponto de convertê-las em abomináveis defeitos, enquanto Paulina lhe aparecia rodeada de uma auréola cada vez mais prestigiosa de candura e beleza. Seu pensamento volvia-se de contínuo com a mais viva saudade para a fazenda de Joaquim Ribeiro, recordava traço por traço as feições de Paulina, seus gestos, suas palavras, e admirava-se de ver como tudo lhe ficara tão intimamente gravado na memória; eram como caracteres apagados, que um reativo faz subitamente reaparecer vivos e distintos.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.