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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O mancebo não desanimou: o seu desejo era santo, e para realizá-lo foi pedir algumas braças de terra à sesmeira.

Bateu à porta da cabana da triste viúva, e mandaram-no entrar.

Estremeceu, ouvindo a voz que lhe falara. Mas entrou na cabana.

Uma mulher, formosa sempre, mas pálida, aflita e abatida, mostrou-se a seus olhos. Era ela: era a sua antiga amante, que, ao vê-lo, soltou um grito de espanto.

O mancebo parecia um velho sexagenário. Sua barba era longa, e assim como os seus cabelos, tinha embranquecido toda.

Reconheceram-se ambos. Nenhum dos dois, porém, falou de amor, nem sonhou com os gozos do mundo. Uma sepultura e um arrependimento, dois abismos onde as lembranças do passado aparecem sempre negras, separavam os amantes de outrora.

O mancebo de cabelos brancos disse ao que vinha.

A viúva, pálida e aflita, deu-lhe sem hesitar a licença pedida para a construção da ermida nas suas terras.

– Adeus! – disseram ambos a um tempo. E levantaram para o céu os olhos.

Com os lábios, diziam-se o último adeus na Terra, com os olhos emprazavam-se para se encontrarem no Céu.

Em pouco tempo, a ermida de Nossa Senhora do Ó foi erguida a poucas braças do mar e defronte da praia que por alguns anos conservou o nome de Praia da Senhora do Ó.

O mancebo de cabelos brancos fez-se ermitão. Viveu ainda alguns anos. Nunca mais, porém, tornou a ver a bela viúva que com tanta paixão idolatrara.

Aquele – adeus – que a um só tempo um e outro se tinham dito fora, com efeito, a sua despedida no mundo. Ambos, porém, aproximaram-se enlaçados pela morte, pois que morreram no mesmo dia e à mesma hora, e foram enterrados na mesma ermida de Nossa Senhora do Ó.

E assim foi que teve princípio a ermida de Nossa Senhora do Ó.

A tradição popular, conservada e transmitida pelo padre velho de que falei, termina aqui.

Filha somente e toda ela da imaginação ou pela imaginação exagerada e desnaturada, esta tradição assenta ao menos sobre dois fatos incontestáveis.

A ermida de Nossa Senhora do Ó data daquela época, a mais antiga da cidade do Rio de Janeiro.

A existência do ermitão que a fundara está marcada em memórias desse tempo.

Em 1589, chegaram ao Rio de Janeiro os primeiros monges beneditinos, e por ordem de Salvador Correia de Sá (o velho), foram acolhidos na ermida de Nossa Senhora do Ó. Mas logo no ano seguinte transferiram a sua residência para o monte, onde levantaram depois o seu mosteiro, e que ficou sendo chamado o morro de São Bento.

Bom foi que tão depressa tivessem mudado de residência; porque no mesmo ano de 1590 entraram a barra do Rio de Janeiro alguns carmelitas, e desembarcando na praia da Senhora do Ó, foram acolher-se à ermida que os beneditinos acabavam de deixar.

Pelo que se vê, na cidade do Rio de Janeiro e em outras, os frades têm muita predileção pelos sítios elevados ou pelas montanhas. Dir-se-ia que muito aborrecidos das coisas da terra, procuram assim colocar-se mais afastados dos homens, entre o mundo e o céu. Se esta explicação não serve, não posso acertar outra melhor.

Os carmelitas, porém, fizeram uma exceção àquela regra e preferiram o vale às alturas.

O ermitão que para eles tinha pedido e alcançado o monte, a que por isso chamara do Carmo, perdeu o seu tempo e os seus cuidados.

Os carmelitas acharam tão bonita e tão cômoda a situação da ermida de Nossa Senhora do Ó, que por ela desprezaram o monte do Carmo, e para logo trataram de construir ali mesmo uma casa mais espaçosa.

Ganharam com essa resolução principalmente os frades menores da ordem de São Francisco, que em 1607 tomaram para si o monte, que, mudando de donos, mudou também de nome e começou a chamar-se morro de S. Antônio.

Mas a ermida de Nossa Senhora do Ó, apesar das obras com que fora aumentada, estava ainda longe de oferecer as proporções de um convento. Em regra geral, os frades gostam muito do seu cômodo, e os carmelitas parecem-se nesse ponto com todos os outros das diversas ordens.

Assim, pois, determinaram os frades do Carmo construir um edifício digno deles, e em pouco tempo, e com insignificante dispêndio, viu-se olhando para o mar uma espaçosa casa com dois andares de dormitórios, tendo cada um deles treze janelas rasgadas.

Os bons frades tiveram, ou de graça ou por módico preço, quanto lhes era preciso para tão grande obra. A madeira sobrava, a pedra nada custou, porque os carmelitas a mandaram tirar das Enxadas, cuja pedreira lhes fora doada. A mão-de-obra era para alguns sobejamente paga com uma bênção daqueles religiosos, e para os outros um serviço que por um fraco estipêndio se prestava então; e além de todas estas facilidades, vinha ainda o recurso das esmolas e dos donativos dos fiéis, que não importava menos.

A obra concluiu-se. Mas, ou porque na execução dela se abalassem as paredes da ermida contígua, ou porque construída esta em terreno pouco sólido, não pudesse ter longa duração, certo é que não muito depois sobreveio uma horrível catástrofe, que teve conseqüências funestas.

(continua...)

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