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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Era um pedido de casamento, no qual Hermano manifestava o desejo de obter pessoalmente de Amália o seu consentimento.

— Pode vir? perguntou o pai à filha depois que esta acabou de ler a carta.

— Ainda não, respondeu Amália agitada.

— Quando? disse D Felícia.

— Quero pensar, mamãe.

A senhora, para quem Hermano agora era o homem mais sensato do mundo, fez à filha mui judiciosas observações acerca da conveniência de apressar a decisão; e não se esqueceu de citar em seu abono o conhecido anexim que dá por transtornado o casamento adiado.

Amália persistiu não obstante; e com uma razão que desarmou a mãe.

— Se é preciso que responda imediatamente, mamãe, recuso. É porque desejo aceitar, que peço a liberdade de refletir. Para dispor de minha vida inteira, não são muitos alguns dias.

— Pois bem, Amália, pensa à tua vontade; mas lembra-te de que a viagem está próxima. É verdade que pode-se adiar, até mesmo porque o tempo não anda bom; tem havido tantos temporais. Que diz, Sr. Veiga?

O capitalista, que lia os jornais, levantou os óculos para observar:

— Mas o câmbio é ótimo. A ir não devemos perder esta ocasião.

Amália hesitou durante alguns dias. Ela tinha naquela carta, lida tantas vezes, e guardada consigo, a prova cabal, além de muitas outras, do amor que Hermano lhe consagrava. Mas podia ela confiar a sua sorte desse amor?

Hermano era uma alma nobre, um caráter leal, incapaz de iludí-la Não duvidava dele; mas duvidava de si. Receava não ter força para dominar e possuir esse coração generoso, arrancá-lo ao passado em que se havia sepultado, e ressuscitá-lo à felicidade.

Ela acreditava que o marido de Julieta ainda amava a primeira mulher e vivia de sua lembrança

Mas esse afeto de além-túmulo não podia encher-lhe a existência; e por isso aquela alma rica de paixão e mocidade se desprendia da sua idolatria para buscar no mundo uma expansão, um sentimento de que se nutrisse.

Nesse impulso, Hermano se lançara na realidade, fascinado pela beleza da desconhecida; mas, em breve a ilusão desvanecera-se. O homem regenerado pelo amor casto de Julieta não podia corromper-se numa lição impura. Passada a alucinação, tornara ao seu culto.

“ — Foi então que ele, despertado pela recordação da mulher, e crendo em mim outra Julieta, começou a amar-me, pensava Amália; e talvez esse amor o tenha salvado, dando-lhe forças para reabilitar-se. Sem ele, sem um afeto que o obrigue e o ampare, não se deixará dominar ainda pela beleza fatal daquela mulher, ou de outra como ela? E poderá reerguer-se da nova queda?”

A moça decidiu então na generosidade de seu amor votar-se à guarda e arrimo desse homem infeliz pela exuberância de sua alma.

“— Mas, se o amor que inspirei, e que ele sinceramente acredita sentir por mim, não for mais do que um capricho efêmero, um reflexo apenas da paixão que tem por Julieta? Quando dissipar-se o encanto, me perdoará ele ter profanado o culto da esposa e rompido para sempre o elo que o prendia à primeira e única mulher amada? Não terei eu sacrificado a minha vida, não para dar-lhe a felicidade, mas para fazer a sua desgraça?”

Era esse o grande problema do seu destino. Amália bem o compreendia; e sem deliberação para resolver por si, deixava isso ao tempo, esperando uma inspiração do céu. Entretanto passavam os dias; aproximava-se a época da viagem; e talvez fosse esta o melhor e o único desenlace.

Toda essa hesitação, bastou um olhar para dissipá-la. Amália, indo com a mãe à cidade, encontrou Hermano e não pôde resistir ao gesto de doce resignação com que ele a saudou.

“ — É o meu destino, pensou a moça. O meu e o seu.”

Respondeu ao cumprimento, parando para falar-lhe; e na despedida, ao apertar-lhe a mão disse:

— Até à noite.

Ao escurecer, quando Hermano chegou, Amália o esperava no jardim. Antes que ele proferisse qualquer palavra, a moça, espontaneamente e como se continuasse um diálogo não interrompido, entregou-lhe a mão dizendo:

— Com uma condição.

— Qual?

— Se até o último instante eu perceber o menor sinal de arrependimento ou mesmo de hesitação, fica-me o direito de restituir-lhe a liberdade.

— Duvida de meu amor, Amália? Depois de ter-lhe dado a maior prova? tornou Hermano magoado. Que conceito lhe mereço então?

— Não! acudiu a moça vivamente. Não duvido; nem do seu amor nem da sua lealdade, Hermano. É o interesse pela sua felicidade que me inquieta.

À noite as visitas receberam com a notícia do malogro da viagem à Europa a participação ainda confidencial do próximo casamento de Amália com Hermano.

A certeza dessa união, esperada pelas pessoas que freqüentavam a família Veiga, foi bem recebida; todos felicitaram cordialmente os noivos. O Borges, porém, embora se mostrasse dos mais pressurosos em aplaudir, ia pelos vários grupos de convidados insinuando um veremos significativo.

(continua...)

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