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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- E a vida é coisa que não se venda? Aí estão comprando-a todos os dias e até roubando. A minha, não a queriam, quando me recrutaram? Foi preciso barganhar por outra, senão lá ia acabar em alguma enxovia. 

- Assim não te causa a menor repugnância derramar o sangue de teus semelhantes em troca de alguns vinténs? 

- Sangue de gente, ou sangue de onça, todo é um; tem a mesma cor, e a mesma maldade. Já estou acostumado com ele. Sente-se a fumaça do churrasco. Eu gosto! 

Disse o sicário dilatando as narinas, como se esquisito aroma lhe prurisse o olfato. 

- Tu és um monstro! disse Berta afinal com uma explosão de horror. Quando te pintavam como um assassino, autor dos maiores crimes e capaz de cometer toda a espécie de atrocidade, eu não queria crer; porque duvidava que um homem pudesse transformar-se em um tigre carniceiro; e também porque tantas vezes te vi tão sossegado e cuidados comigo, e eu não podia imaginar que se pudesse ter esse rosto bom e tranqüilo, tendo-se dentro do coração uma caninana. 

  A estas últimas palavras, em que a voz da menina sombreara-se com uma entonação afetuosa, o corpo robusto do capanga oscilou com íntima e rija vibração, como o prócero ibiratã quando a seiva exuberante irrompe lascando-lhe o tronco. Na expansão violenta de sua alma, arrojava-se ele aos pés de Berta e ia cair-lhe de joelhos, quando um olhar embaciado e glacial o reteve ofegante e esmagado: 

- Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar de mais horrível. Que assassines por paga a quem não te fez mal, que por vingança pratiques crueldades que espantam, eu concebo; és como a suçuarana, que às vezes mata para estancar a sede, e outras por desfastio entra na mangueira e estraçalha tudo. Mas que te vendas para assassinar o filho de teu benfeitor, daquele em cuja casa foste criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o que não se compreende; porque até as feras lembram-se do benefício que se lhes fez, e tem um faro para conhecerem o amigo que as salvou. 

- Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei me sacrificar por aqueles que me querem. Não me torno, porém, escravo de um homem, que nasceu rico, por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro. Não foi por mim que ele fez isso; mas para mostrar ou por vergonha de enxotar de sua casa a um pobre diabo. A terra nos dá de comer a todos e ninguém se morre por ela. 

- Para ti, portanto, não há gratidão? 

- Não sei o que é; demais, Galvão já pôs-me quites dessa dívida da farinha que lhe comi. Estamos de contas justas! Acrescentou Jão Fera com um suspiro profundo. 

Assim não era por ele que eu o queria poupar; mas por outra pessoa. 

  O capanga quis fitar na menina a pupila ardente; mas não teve forças de erguer o olhar, que pesava-lhe como uma trave e abatia-se no chão: 

- Foi por mecê, disse a voz submissa. 

- Por mim? Por mim; e entretanto estavas aqui; e ias matá-lo? 

- Quando ajustei, não sabia e gastei o dinheiro. Agora não tenho para restituir... 

- Pois eu não quero, ouves, não quero que lhe toques! 

  Jão Fera estremeceu: 

- Empenhei minha palavra! disse o capanga inflexível como a fatalidade. 

- Desempenha! 

- Se pudesse! exclamou Jão com o acento do desespero, e concluiu sucumbido:  

- Não tenho quarenta mil réis! 

  Um riso estridente de cólera escarninha agitou o lábio de Berta. 

- Dinheiro? Por que não o roubas? Tens vexame? Um assassino que farta-se de sangue, com o escrúpulo de meter a mão na bolsa alheia. Ah! Ah! Ah!... 

  A tortura que sofria Jão Fera não se descreve. Foi com a voz estrangulada por dores cruentas que ele balbuciou: 

- Jão Bugre é um homem de honra! 

- Ah! és um homem de honra! Pois então vai, corre! Aquele que escapaste de assassinar te dará de esmola o preço por que ajustaste sua morte, como te deu outrora o pão com que matavas a fome! 

  Ante este último e pungente sarcasmo o capanga sucumbiu, desfigurando-se horrivelmente. Nas crispações do rosto, como nos espasmos das pupilas, sentiam-se as vascas da convulsão que laborava aquela alma. 

- Jura que o respeitarás! 

- Não posso! murmurou o capanga com um arranco. 

- Jura! 

- Minha palavra!... 

  Era tal a angústia dessa voz soluçante, arquejada por uma ânsia do coração, e tamanha desolação cobria aquela organização possante e indômita, agora esmagada sob a mão frágil de uma criança, que Berta comoveu-se profundamente. 

- Toma, vende e desempenha a tua palavra! 

  E estendeu-lhe a mão com o cordão de outro que tirara do pescoço e ao qual estava preso o amuleto e a cruz. 

- O que! disse Jão abaixando a cabeça para distinguir o objeto, tão cedo estava da agonia daquele transe. 

- O relicário de minha mãe! 

  Estalou com um grito horrível e bravio o peito de Jão Fera, que arremessando-se longe, desapareceu nas brenhas. 

  Foi o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano, que veio cair estrebuchando aos pés da menina, com a gorja a estertorar e os dentes a ranger. 

(continua...)

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