Por José de Alencar (1870)
Ninguém fez reparo no recém-chegado. No campo, onde a morada do pobre, como do rico, está aberta sempre ao viajante, o hóspede não é um estranho. Além de que nesses momentos solenes a casa como que se transforma em templo, onde todos entram levados pela curiosidade do terrível mistério que a alma tenta perscrutar.
Outra razão especial ainda havia para demover de Manuel a atenção das pessoas reunidas no aposento do moribundo. Todos os olhos estavam fitos em uma velha curandeira que nesse momento examinava o Barreda. Depois de lhe ter virado as capelas dos olhos, torcido as asas do nariz, e beliscado as bochechas, a mulher estava agora ocupada em examinar os braços e o peito do enfermo.
Achou ela alguma coisa, porque segurando as cangalhas de chumbo no nariz adunco, e aproximando a candeia com a mão esquerda, esteve a examinar pausadamente o lugar, que esfregou com um pouco de aguardente.
Acabado o exame, deitou a candeia no gravato, e levantou-se espalmando as mãos nas cadeiras derreadas com o cansaço de estar tanto tempo curvada. Os olhares dois circunstantes fisgaram-se no semblante da velha como se quisessem arrancar-lhe dos lábios à força o segredo da ciência. Ela o compreendeu. Acenando com a cabeça de um e outro lado, para aproximar em círculo as pessoas presentes, resmungou à meia voz:
— Não tem que ver! Eu disse logo que me chegou o recado; não passa de bexigas. Lá está a primeira borbulha; mas não chega a sair, concluiu ela abanando a cabeça.
A palavra bexiga produziu soçobro nas pessoas presentes. A mulher redobrou de pranto; quanto aos mais, parentes e curiosos, foram-se esgueirando pela porta do quarto a pretexto de estar muito quente; e com pouco desapareceram, tremendo à suspeita de lá o contágio da terrível enfermidade.
Foi-se também a curandeira, porque não houve quem lhe oferecesse boa paga para ficar. A mulher do Barreda, essa não tinha acordo para cuidar de semelhante coisa.
A todo este movimento assistiu Manuel encostado ao umbral da porta, atônito e perplexo. Viera com um fim, e achava-se ali como suspenso, ante aquele espetáculo, que o impressionara profundamente. Não era a primeira vez que testemunhava o ato supremo do passamento de um homem. Vira peões esmagados embaixo de um cavalo rodado; outros estripados pelas pontas do touro bravo; o próprio pai caíra a seus olhos com o coração traspassado; mas essa agonia lenta e solene, nunca a tinha contemplado.
De repente o enfermo estortegou na cama; com a voz trôpega, cortada pelo soluço, murmurou:
— Água!
No aposento ninguém mais estava; Manuel circulou com os olhos os cantos e percebendo um cântaro de barro, encheu a caneca, e matou a sede ao moribundo. Para isso foi preciso passarlhe o braço pelas costas e erguer o busto.
XIV
O ENFERMEIRO
Repetidas vezes Barreda, devorado pela febre, pediu água. A mulher aproximava-se de momento a momento, receando ser chegado o transe supremo; depois ia de novo atirar-se a um canto, onde ficava como desfalecida.
Vendo Manuel o desamparo em que estava o enfermo, pelo desespero da mulher e medo que inspirava a outros o contágio da moléstia, não teve ânimo de retirar-se naquele instante. Custava, porém, à sua natureza enérgica assistir impassível ao sofrimento de uma criatura, sem tentar um esforço qualquer para salvá-la.
Veio-lhe de repente à lembrança um caso que ouvira a seu pai. Saiu fora, montou a cavalo, e pouco depois voltou com um novilho, que laçara e prendeu ao lado da casa, na estaca do curral ou mangueira.
O enfermo passara do torpor à excessiva inquietação.
— Tire a roupa de seu marido, que eu já volto. Vou buscar um remédio que há de fazerlhe bem.
Abatido o novilho com uma pancada na nuca, em um instante Manuel esfolou-o ainda meio vivo; e correndo à casa, envolveu o corpo do enfermo na pele tépida e sangrenta.
Feito o quê, esperou pelo resultado, assando na brasa um pedaço da carne do novilho para matar a fome.
Seu pai muitas vezes lhe contara que na campanha da Cisplatina, o capitão de uma companhia caíra doente com uma febre de cavalo. O cirurgião do regimento empregara em vão todos os meios para fazê-lo suar. Pela manhã quando se carneava uma rês, dissera ele a rir, vendo arregaçar o couro: “Que bom lençol! Se me tivesse lembrado, embrulharia em um desses o capitão. Não há febre que resista a semelhante cáustico”.
O que o cirurgião não pudera fazer, acabava o gaúcho de pôr em prática.
Ou fosse pela energia do remédio, ou pelo vigor da organização, operou-se na enfermidade uma crise salutar, manifestando-se durante a noite reação franca, anunciada por abundantes suores; de madrugada remitiu a febre, e Barreda caiu num sono profundo.
Manuel passou a noite, como o dia, fazendo o ofício de enfermeiro. Apenas deixava o aposento do doente para ir ver seus amigos, a baia e os outros animais a quem havia acomodado no potreiro, tendo o cuidado de fazer com um molho de trevo seco uma cama bem macia para o poldrinho.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.