Por José de Alencar (1857)
Decorreram muitas noites sem que o desconhecido aparecesse. Foi então que Carolina reconheceu a força desse amor misterioso. Recostada à janela, ansiosa, esperava pela hora da entrevista e, muitas vezes, a estrela d'alva, luzindo no horizonte, achou-a na mesma posição. O primeiro raio da manhã apagava-lhe o último raio de esperança.
Partilhada entre a idéia de que seu amante a houvesse esquecido, ou de que lhe tivesse sucedido alguma desgraça, sentia todas essas inquietações que requintam a força da paixão.
Enfim o vulto apareceu de novo. Foi na véspera.
Carolina não pôde reprimir um grito do coração; mas o desconhecido, insensível à sua demonstração, contemplou-a por muito tempo; e beijando-lhe a mão como na primeira vez deixou-lhe a flor envolta na carta.
Sentiu ele ou não a doce pressão da mão da moça? O que sei é que voltou sem proferir uma palavra.
Abrindo a carta, Carolina viu pela primeira vez algumas frases escritas, que seus olhos devoraram com avidez.
Dizia:
"Amanhã à meia-noite no jardim. É ca primeira ou a última prece de um imenso amor."
Mais nada; nem data, nem assinatura.
O que pensou Carolina durante as vinte e quatro horas que sucederam à leitura dessa carta, não o posso exprimir, minha prima; adivinhe. A luta renasceu no seu espírito entre o respeito profundo pela memória de seu marido e o amor que a dominava.
Essa luta violenta durava ainda no momento em que a encontramos; depois do combate renhido, o coração tinha transigido com a razão, o amor cedera ao dever. Carolina resolvera que a entrevista pedida seria a primeira, mas também a última. Quebraria o fio dourado dessa afeição, para não entrelaçá-lo à teia negra do seu passado.
Cumpriria o seu voto?...
Ela mesma não o sabia; tinha medo que lhe faltassem as forças; e para ganhar coragem relia nesse momento a carta em que seu marido, na mesma noite do casamento, se despedira dela para sempre.
Não transcrevo aqui essa longa carta para não entristecê-la, D..., porque nunca li coisa que me cortasse tanto o coração. Jorge explicava à sua mulher a fatalidade que o obrigava, ele, votado à morte, a consumar esse casamento, que a devia fazer desgraçada, mas que ao menos a deixava pura e sem mácula.
Pela primeira vez, depois de cinco anos, Carolina trajava de branco; mas as fitas dos laços, as pulseiras, o colar, eram pretos ainda. Até no seu vestuário se revelava a luta que se passava em sua alma: o branco era a aspiração, o sonho do futuro; o preto era a saudade do passado.
Quando acabou de ler aquela carta, que sempre lhe arrancava lágrimas, sentiu-se com forças de resistir aos impulsos do coração; sentiu-se quase santificada pela evocação daquele martírio; e, ainda inquieta, esperou.
Pouco depois a pêndula vibrou uma pancada.
Carolina assustou-se e levou os olhos ao mostrador. A agulha marcava onze e meia horas.
A moça fez um esforço, ergueu-se rapidamente, entrou na sala e desceu ao jardim, ligeira e sutil como uma sombra. A alguma distância havia um berço feito de cedros, onde a treva era mais densa. Ai sentou-se.
À meia-noite em ponto o vulto apareceu e, guiado pelo vestido branco de Carolina, aproximou-se dela e sentou-se no mesmo banco de relva. Seguiu-se um longo momento de silêncio; o desconhecido não falava; o pudor emudecia a menina cândida e inocente.
Mas não era possível que esse silêncio e essa imobilidade continuassem; o desconhecido tomou as mãos de Carolina e apertou-as; as suas estavam tão frias que a moça sentiu gelar-se-lhe o sangue ao seu contato.
— A senhora me ama?
A voz do moço pronunciando essas palavras se tornara tão surda que perdera o metal para tornar-se apenas um sopro. A menina não respondeu.
— É o meu destino que eu lhe pergunto! murmurou ele.
Carolina venceu a timidez.
— Não sabe a minha história? disse ela.
— Sei.
— Então compreende que não posso, que não devo amar a ninguém mais neste mundo!
A moça sentiu que seu amante lhe cerrava as mãos com uma emoção extraordinária; teve pena dele e conheceu que não teria forças para consumar o sacrifício.
— Não me pode... não me deve amar... E por que razão me deixou conhecer uma esperança vã?
— Por quê?... balbuciou a menina.
— Sim, por quê?... Zombava de mim!
— Oh! não! Não pensava no que fazia. Era mais forte do que a minha vontade!
— Mas então me ama? É verdade? perguntou o desconhecido, com ansiedade.
— Não sei.
— Para que negá-lo?
— Pois sim! É verdade! Mas é impossível!
— Não compreendo.
— Escute: não estranhe o que lhe vou dizer, não me crimine pelo passo que dei. Fiz mal em vir aqui, em esperá-lo; mas tenho eu culpa?... Faltou-me o ânimo de recusar-lhe o que me pedira... E vim somente para suplicar-lhe...
— Suplicar-me?... o quê?
— Que se esqueça de mim, que me abandone!
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.