Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
espera na rua... o lenço branco no rosto... salta para dentro do carro, logo que Dionísia embarcar, e o mais o cocheiro sabe.
DEMÉTRIO – Esta é mesmo de Quebra-louça.
CINCINATO – Vai, feliz substituto! dou-te dinheiro e amor.
DEMÉTRIO – Hás de ver o desempenho!... adeus. (Vai-se pelo fundo.)
CENA IX
CINCINATO e BRÁULIO
BRÁULIO – O Demétrio se retira cedo... parece que perdeu.
CINCINATO – Qual! ganhou: não faz idéia que perverso é ele! esta noite incomodou-me muito... digo-lhe que Demétrio e Dionísia se namoram... creio que os apanhei em segredinhos... e com certeza riram-se um para o outro com ar de inteligência!...
BRÁULIO – Dionísia é vaidosa e o senhor é ciumento: não faça caso disso. Ela está perdida pelo senhor; mas... é quase meia-noite: ultimemos a nossa transação particular.
CINCINATO – Os três contos de réis?... conte com eles à porta da rua, e quando Dionísia estiver dentro do carro. Sem o pássaro na gaiola não caio.
BRÁULIO – O senhor duvida da minha probidade? (Dá meia-noite.) Meianoite!
CINCINATO – Um minuto para Dionísia descer a escada... e corro...
BRÁULIO – E o meu dinheiro?...
CINCINATO – À porta da rua... venha comigo...
CENA X
CINCINATO, BRÁULIO e GERTRUDES
GERTRUDES – Dionísia foi-se...
CINCINATO – A pontualidade me enternece... vamos...
BRÁULIO – E o meu dinheiro?
CINCINATO – À porta da rua, (Roda um carro.) um carro que parte... oh!
vamos!... (Vão-se Cincinato e Bráulio correndo.)
CENA XI
GERTRUDES e ADRIANO
ADRIANO – Dionísia!...
GERTRUDES – Já desceu: sem dúvida o espera; mas...
ADRIANO – Oh! (Quer correr e Gertrudes o impede.)
GERTRUDES – Olhe que meu irmão correu a persegui-la... não se deite a perder.
ADRIANO – Deixe-me! ela me espera... (Partindo).
CENA XII
GERTRUDES, ADRIANO, CINCINATO e BRÁULIO
BRÁULIO – É uma infâmia!...
CINCINATO – Patifaria descomunal!... Dionísia fugiu com Demétrio! e o
senhor... o senhor... (Em simulado furor.)
ADRIANO – Dionísia! oh! Dionísia!... (Vai-se, correndo.)
CENA XIII
GERTRUDES, CINCINATO e BRÁULIO
GERTRUDES – Minha filha!... não entendo...
BRÁULIO – Entende! você é abelha mestra! você entrou nesta pouca vergonha!... (Gertrudes fica espantada) entrou!...
CINCINATO – E eu!... atraiçoado... ameaçado no meu dinheiro... ferido no coração... o golpe foi profundo... ingrata Dionísia!... fica declarado que ela... e os senhores... firma industrial, Dionísia & Cia me assassinam... fica declarado... Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha. (Cai, fingindo desmaiar) ah!...
BRÁULIO – E ainda em cima a zombaria!... foi uma conjuração... o senhor me há de pagar!... é um estelionato!...
CENA XIV
CINCINATO, GERTRUDES, BRÁULIO, CRIADO apressado.
CRIADO – Com urgência... com urgência... (Dá uma carta a Bráulio.)
BRÁULIO (A um lado e Gertrudes lendo pelo ombro de Bráulio.) – “Por amor da bela Dionísia: dentro de meia hora a polícia cercará a sua casa; há denúncia de que aí está jogando um caixeiro que falsificou a firma do amo em letras que descontou na praça. Previna-se: queime este bilhete.” Inda mais esta!... a polícia!... (Corre para a direita.)
GERTRUDES – Misericórdia!...
CINCINATO (Levantando-se.) – Dionísia foi presa?...
GERTRUDES – Não... não... é a polícia que vem cercar-nos a casa!...
CINCINATO – A polícia?... em casa de jogo?... a velha dormente?... oh! enquanto ela pinta os cabelos, põe as anquinhas, e calça as botinas, eu toco a retirada em passo ordinário sem receio de encontro perseguidor. (Vai-se: ansiedade de Gertrudes.)
CENA XV
GERTRUDES, BRÁULIO, FÁBIO E JOGADORES todos em susto e desordem, falando precipitados e quase a um tempo.
VOZES – A polícia! a polícia!...
GERTRUDES – A casa já está cercada!
VOZES – Tranque-se a porta! (Trancam-se as portas.) VOZES – O asilo do cidadão é inviolável.
GERTRUDES – Ouço passos na escada.
UM VELHO – Sou oficial da Ordem da Rosa e tenho honras de coronel... hão de respeitá-las...
UM JOVEM – É meu pai! é meu pai!...
UMA VOZ – Oh! que desgraça!...
VOZES – Que foi? ...
A MESMA VOZ – Um moço atirou-se da janela abaixo!...
VOZES – Infeliz!... é o caixeiro!...
OUTRAS VOZES – Fujamos pelos fundos da casa!...
BRÁULIO – Senhores!... a casa ainda não está cercada...
GRITO GERAL – Fujamos!... (Corrida geral.)
FIM DO QUARTO ATO
ATO V
A mesma decoração do terceiro ato.
CENA I
CLARIMUNDO, JOSÉ que entra, e logo CINCINATO
CLARIMUNDO (Vendo José.) – Enfim!
JOSÉ – O sr. Doutor já não estava em casa: deixei a carta.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.