Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
“Minha prima, que também aí estava, e parecia nada compreender do que se passava, compreenda agora que há no mundo uma serpente venenosa, que morde na honra do homem! é a calúnia, foi ela quem me mordeu.
“Lúcia chorava porque sabia que eu não era capaz de cometer uma ação infame; não se arrependa de ter chorado; ela me fazia justiça; e depois de minha mãe, foi o único coração que tive, onde a minha inocência achasse abrigo.
“Mas eu vejo que tenho abusado da paciência de meu tio; esta carta já vai sendo por demais extensa. Meu tio fica por ela sabendo as minhas inabaláveis resoluções, e, portanto, termino-a aqui. A bênção de minha avó e a amizade de meu tio, outrora as pedi inutilmente; agora só por outra maneira as pretendo conseguir: consegui-las-ei. Há, porém, alguma coisa que me não envergonho de mandar, é uma saudade à minha pobre Lúcia.
“Cidade da Bahia... junho de 1844.
Lauro.”
— Então, minha mãe, exclamou Hugo, o rapaz está louco ou não?... Vão agora arrancá-lo de lá.
— Faz bem em não vir, disse Ema; porque me esconderia para não ser obrigada a ver-lhe o rosto.
— Mas, minha mãe, ele escreve de tal modo, que custa muito a não pensar que o caluniaram!
— Também tu, Hugo?
— Minha mãe, é que há uma força tal nas palavras deste pobre Lauro!
— Palavras!... disse Ema, e não é este tempo de escândalo, de irreligião e de liberdade, o tempo das palavras?... todos vós falais bem, falais assim; mas em outrora um só cabelo da barba de um homem valia mais do que valem os vossos mais sagrados juramentos!
— Eis aí minha mãe mortificando-se sem razão.
— Pois não é assim?... tantas leis, tantas constituições, tantas câmaras, e para quê? para desmoralizar o povo, para perverter a mocidade, como se perverteu aquele rapaz até chegar a roubar um objeto sagrado!
— Porém, minha avó, se fosse uma calúnia como ele jura que é?...
— Até tu, Honorina?... até tu, quando foi a ti mesma que ele roubou?...
— A mim, minha avô?... mas como eu não me lembro...
— Oh! era preciso que não falássemos nisso, como não falamos, para ocultar no silêncio a nossa vergonha: lembrar que um nosso filho cometeu tal crime é aprofundar ainda mais uma chaga, que nunca pode sarar; mas enfim... eu quero contar-te, e ainda mais que por direito te pertencia o objeto sagrado. Escuta.
Honorina chegou-se para sua avó com viva demonstração de curiosidade.
VI
A herança paterna
— Honorina, disse a velha Ema depois de empregar alguns instantes em coordenar as suas idéias, foi há muito tempo, talvez há seis séculos passados, que sucedeu o que te vou contar.
Nas imediações da cidade de Lisboa havia uma família que se compunha de marido e mulher, cujos nomes não puderam chegar até nós, e de uma moça que era filha deles, que se chamava Arabela; pobre, mas temente a Deus, essa família passava os seus dias sossegada e felizmente.
Arabela, porém, era o que dizia a terminação de seu nome: tão encantadora e engraçada, que, quando passava por alguma rua, os que estavam à janela gritavam para dentro das casas — lá vem ela —, e todos corriam para vê-la, porque já sabiam que quem vinha era Arabela, tão carinhosa e humana que não havia no seu bairro quem, pela ventura de Arabela, não rezasse algumas orações.
Também nunca em tão fresca idade, pois que bem moça era, se vira unidos a tanta inocência, caráter tão firme, prudência tão consumada, e tão seguro e são juízo; por isso todos a tinham em grande respeito e estima. Os seus próprios pais com ela se aconselhavam nas conjunturas difíceis, em que às vezes se achavam; as palavras de Arabela eram para eles oráculos infalíveis; a sua vontade como uma ordem santa, a que com prazer à risca se cumpre.
Apesar da sua pobreza, Arabela mostrava-se tão formosa, que era conhecida de todos pelo nome de Rosa do Tejo, porque o rubor das suas faces semelhava o aspecto, e a virtude da sua alma o perfume da flor.
Arabela tinha feito dezoito anos, e via-se cercada de apaixonados requestadores, que à porfia se extremavam em dar-lhe mais altas provas do amor que os consumia, e que, surda ou insensível achando-a, corriam dela para os pais, a pedir-lhes a filha.
Os pais de Arabela, porém, sabendo o quanto era a moça prudente e recatada, jamais fizeram por dirigir-lhe a vontade para aquilo de que ela parecia querer fugir.
Entretanto, apareceu entre os pretendentes de Arabela um rico e jovem fidalgo, que, levado dos lindos olhos e perfeições da pobre moça, se esqueceu de que alta era a sua linhagem, elevados os seus teres e, descendo do seu brilhante palácio a uma rasteira casinha, veio pôr o seu coração de grande senhor aos pés de uma humilde aldeã.
Debalde o seu muito ostentar de galas e louçainhas, debalde o seu alto despender de agrados e extremos, o grande senhor passava por baixo dos olhos da pobre aldeã com o seu amor tão mal-atendido como os outros: ainda não era a D. Rui Vaz que devia pertencer a alma de Arabela.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.