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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Anastácio — Hortênsia, a felicidade que ostentas é a tua máscara; porque o medo te oprime, e o remorso te despedaça o coração. Também não te devias chamar Hortênsia, o nome que te assenta, é a — Vaidade!

Maurício — Senhor!...

Anastácio — Leonina, és a única que não trazes máscara; porque o teu pranto e a tua aflição estão a todos dizendo que és uma vítima.

Pereira — Que pretendes significar com isso, senhor dominó?...

Anastácio — Comendador Pereira, a tua nobreza é uma máscara; porque tens tu mesmo consciência da tua nulidade. Também não te devias chamar Pereira, o nome que mereces é a — Fatuidade.

Pereira — É...é uma insolência!...

Frederico — Qual! É sublime!

Anastácio — Coronel Reinaldo...

Reinaldo — Dispenso...dispenso, absolutamente; eu e minha filha queremos guardar o incógnito...Anda, Lúcia...este dominó traz o diabo no corpo. (Vai-se com

Lúcia).

Filipa — Pois eu não o dispenso.

Anastácio — Pobre moça! Também a tua leviandade é uma máscara; porque sofres tormentos incessantes; não te devias chamar Filipa, o nome que te compete; é a — Inveja.

Fabiana — É demais!...

Anastácio — Frederico, esse alegre estouvamento que ostentas é uma máscara; porque a tua alma está enregelada pelo egoísmo, e o teu coração ressecado pela prática dos vícios. Não te devias chamar Frederico, o nome que te assenta é a — Libertinagem!

Frederico — Ah! Ah! Ah ! é incomparável, palavra de honra!...

Anastácio — E o teu agrado, a tua afabilidade, a tua lhaneza são uma tríplice máscara, Fabiana! Porque no teu espírito refervem negras idéias; não devias chamar Fabiana; o nome, que te define, é a — Traição!

Fabiana — Miserável!

Pereira — E deixaremos assim impunes tantos insultos...

Maurício (Avançando um passo) — Protegido pela máscara e pelo indulto da hospitalidade, acabasse de injuriar a todos nós; perdeste portanto os teus direitos, e me impuseste o dever de arrancar-te essa máscara, e de mostrar o teu rosto aos olhos...(Quer arrancar-lhe a máscara e Anastácio suspende-lhe o braço).

Anastácio (A Maurício) — Amanhã, ao meio-dia, Maurício!...

Maurício — Oh!...(Deixa cair o braço)

Hortênsia — Este homem é um atrevido, e como tal deve ser expulso da nossa casa...(Anastácio leva Maurício para um lado).

Anastácio (A Maurício) — Nós vamos entrar de novo na sala do baile, e tua mulher aceitará sem dúvida o meu braço...

Maurício (Aterrado) — Senhores...é um amigo...zombou de todos nós...mas não houve ofensa...é um amigo...tornemos ao baile...

Fabiana — Como?...depois dos insultos que nos dirigiu...

Maurício — É um amigo...já disse...respondo por ele...e a prova é, que Hortênsia vai tomar-lhe o braço...

Hortênsia — Eu?...nunca!...

Maurício (À Hortênsia tremendo) — Toma-lhe o braço, Hortênsia!...

Hortênsia (Tomando o braço de Anastácio) — Meu Deus!... (Vão-se retirando).

Frederico (Dando o braço a Fabiana) — Hora e meia!...

Fabiana — Vamos. (Vão-se)

CENA XIII

Filipa e logo Henrique.

Filipa (Olhando em torno) — Hora e meia!...e alguém me falta...

Henrique (Aparecendo) — Hora e meia!...Estou pronto.

Filipa — O momento terrível se aproxima, um leve descuido poderia ser-nos fatal; cuidado!

Henrique — Eu velo.

Filipa (À parte, apertando-lhe a mão) — E eu triunfo! (Vão-se)

CENA XIV

Reinaldo e Lúcia.

Lúcia — Mas, meu paizinho, isto é intolerável! É revoltante!...

Reinaldo — Que queres, minha filha?...o primeiro dever do soldado é a obediência, e principalmente agora que, segundo corre, estamos em vésperas de promoção. O negócio é necessariamente muito grave; a carta é do oficial de gabinete do ministro, e tão atrapalhado escreveu que quase lhe desconheci a letra...

Lúcia — Ah, meu paizinho, tomara eu que caia este ministério.

Reinaldo — Olha, ele está por teias de aranhas...e ao primeiro vento, vai-se como um passarinho; mas enquanto se demora no poleiro, é preciso não faltar-lhe com as continências devidas. Às duas horas devo estar em casa do ministro...tenho apenas tempo de deixar-te em casa e de ir apresentar-me à Sua Excelência...Há negócio grave...há negócios grave...anda...vamos...

Lúcia — Ai! Cá para mim não há ministro que valha um baile.

Reinaldo (Saindo com a filha) — Não digo o contrário...porém que remédio!

Vamos...e...adeus, minhas contradanças!...

Lúcia — Adeus, minhas boas valsas!...(Vão-se)

CENA XV

Frederico, só — De máscara e com uma capa no braço.

Lá se foi o coronel, e ao menos durante o resto da noite carregará com a responsabilidade do rapto de Leonina. É chegada a hora; cumpre abrir o portão para facilitar a retirada. (Faz o que diz) Oh, que doce peso vou carregar sobre os meus ombros! Que moça encantadora,q eu noite de embriaguez e que bela herança a esperar! Se Dona Fabiana se lembrasse de dar a comer uma boa dose de pastilhas ao tio e padrinho da minha noiva!...Mas... é tempo de esconder-me...É célebre! Parece-me que a despeito de todo este meu entusiasmo, estou começando a recear as conseqüências deste passo...que puerilidade...avante!...vou ocultar-me entre jasmins para roubar uma rosa. (Oculta-se por trás do caramanchão)

CENA XVI Frederico, oculto; Fabiana e Leonina.

Fabiana — Venha...o ar da noite e o aroma das flores hão de fazer-lhe bem.

(continua...)

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