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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

Não sei, continuou Augusto, que teve o amor comigo. para entender que todas as moças deviam rir-se de mim e zombar de meus afetos! Pensa que brinco, minha senhora?... Pois foi isso mesmo que me sucedeu no decurso de minhas paixões. Eu resumo algumas.

A primeira moça que amei era uma bela moreninha, de dezesseis anos de idade. Fiz-lhe a minha declaração na carta mais patética que um pateta poderia conceber, no fim de três dias recebi uma resposta abrasadora e cheia de protestos de gratidão e ternura; meu coração se entusiasmou com isso... Na primeira reunião de estudantes contei a minha vitória, li a minha carta e a resposta que havia recebido. Fui vivamente aplaudido; porém, oito dias depois, os mesmos estudantes quase me quebraram a cabeça com cacholetas e gargalhadas, porque oito dias, bem contadinhos, depois dessa resposta, a minha terna amada casou-se com um velho de sessenta anos. Jurei não amar moça nenhuma que tivesse a cor morena.

Apaixonei-me logo e fui, desgraçadamente, correspondido por uma interessante jovem tão coradinha, que parecia mesmo uma rosa francesa, Nós nos encontrávamos nas noites dos sábados em certa casa, onde se dava todas as semanas uma partida; era a mais agradável sabatina que podia ter um estudante; porém o meu novo amor chegava a ser tocante demais, e a minha querida levava o ciúme até um ponto que me atormentava prodigiosamente: se passava algum dia em que não a visse e lhe não mandasse uma flor, aparecia-me depois chorosa e abatida; se na tal partida eu me atrevia a dançar com alguma outra moça bonita, era contar com um desmaio certo, e desmaio de que não acordava sem que eu mesmo lhe chegasse ao nariz o seu vidrinho de essência de rosas; tudo mais era por este teor e forma. Este amor já estava um pouco velho, certamente, tinha três meses de idade. Um sábado mandei-lhe prevenir que faltaria à partida; mas tendo terminado cedo meus trabalhos, não pude resistir ao desejo de vê-la e fui à reunião; eram onze horas da noite quando entrei na sala, procurei-a com os olhos e certo moço, com quem me dava, que me entendeu, apontou para um gabinete vizinho. Voei para ele.

Ela estava sentada junto de um mancebo e com as costas voltadas para a porta; tomavam sorvetes. Cheguei-me de manso: conversavam os dois, sem vergonha nenhuma, em seus amores!

Fiquei espantado e tanto mais que, pelo que ouvi, eles já se correspondiam há muito tempo; mas o meu espanto se tornou em fúria quando ouvi o machacaz falar no meu nome, fingindo-se zeloso, e receber em resposta as seguintes palavras: — Augustozinho?... Lamente-o antes, coitado! É um pobre menino com quem me divirto nas horas vagas! ... Soltei um surdo gemido; a traidora olhou para mim e, voltando-se depois para o seu querido, disse com o maior sangue frio: — Ora, aí tem! Perdi por sua causa este divertimento.

Jurei não amar moça nenhuma de cor rosada. Sem emendar-me, ainda tornei-me cego amante de uma jovem pálida, e, como das outras vezes, fui correspondido com ardor; mas desta tive eu provas de afeto muito sérias. Antes de ver-me, ela amava um primo e até escrevia-lhe a miúdo; eu exigi que a minha terceira amada continuasse a receber cartas dele e que as respondesse; consentiu nisso, com a condição de lhe redigir eu as respostas. Belo! disse eu comigo: vou também divertir-me por minha vez à custa de um amante infeliz!

E o negócio ficou assentado.

Infelizmente eu não conhecia o primo da minha amada, mas essa era a infelicidade mais tolerável possível.

Um dia tratamos de encontrar-nos em certa igreja, onde tinha de haver esplêndida festa; cheguei cedo, mas logo depois de minha chegada rebentou uma tempestade e choveu prodigiosamente. Pouco durou o mau tempo, porém as ruas deveriam ter ficado alagadas e a bela esperada não podia vir; apesar disso eu olhava a todos os momentos para a porta e, coisa notável, sempre encontrava os olhos de um outro moço, que se dirigiam também para lá; acabada a festa, ambos nos aproximamos.

— Nós devemos ser amigos, disse ele.

— Eu penso do mesmo modo, respondi.

E apertamos as mãos.

— Sou capaz de jurar que adivinho a razão por que o senhor olhava tanto para aquela porta, continuou ele.

— E eu também.

Convenho: esperávamos ambos nossas amadas e a chuva mangaram conosco.

— Exatamente.

— Mas nós vamos, sem dúvida, vingar-nos, indo agora vê-las à janela.

— Eu queria propor a mesma vingança.

Bravo! ... Iremos juntos... Onde mora a sua?...

— Na rua de...

— Ainda melhor... a minha é na mesma rua.

Saímos da igreja, embraçamo-nos e fomos. A minha amada morava perto, eu avistei-a debruçada na janela, talvez me esperando, pois olhava para o lado donde eu vinha; abri a boca para dizer ao meu novo amigo: é aquela!... Quando ele me pronunciou com indizível prazer: é aquela!

Julgue, minha senhora, da minha exasperação! Pela terceira vez eu era a boneca de uma menina!...

Não sei por que ainda tive ânimo de tirar o meu chapéu à tal pálida, que ao menos dessa vez se fez cor-de-rosa, talvez por ver-me de braço com o novo amigo.

Passando a maldita casa, Jorge, que assim se chamava o moço, disse-me com fogo:

— Aquela jovem adora-me!

— Está certo disso, meu amigo?

— Tenho provas.

— Acredita muito nelas?



(continua...)

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