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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

E depois de o terem desta maneira mui regalado um ano, ou o tempo que querem, determinam de o matar, e aqueles últimos dias antes de sua morte, per festejarem a execução desta vingança, aparelham muita louça nova, e fazem muitos vinhos do sumo de uma planta que se chama aipim de que atras fiz menção. Neste mesmo tempo lhe ordenam uma casa nova onde o metem. E o dia que ha de padecer pela manhã muito cedo antes que o sol saia, o tiram dela, e com grandes cantares e folias o levam a banhar a uma ribeira. E tanto que o tornam a trazer, vãose com ele a um terreiro que está no meio da aldêa e ali lhe mudam aquela corda do pescoço á cinta passando-lhe uma ponta para traz outra para diante; e em cada uma delas pegadas dous, tres Índios. As mãos lhe deixam soltas porque folgam de o ver defender com elas e ali lhe chegam uns pomos duros que tem entre si á maneira de laranjas com que possa tirar e ofender a quem quiser. E aquele que está deputado para o matar é um dos mais valentes e honrados da terra, a quem por favor e preeminência de honra concedem este oficio. O qual se empena primeiro per todo o corpo com pena de papagaios e de outras aves de varias cores. E assim sai desta maneira com um Índio que lhe traz a espada sobre um alguidar, a qual é de um pau mui duro e pesado feito á maneira de uma maça, ainda que na ponta tem alguma de pá; e chegando ao padecente a toma nas mãos e lhe passa por baixo das pernas e dos braços meneando-a de uma parte para outra.

Feitas estas cerimonias afasta-se algum tanto dele e começa a lhe fazer uma fala a modo de pregação, dizendo-lhe que se mostre mui esforçado em defender sua pessoa, para que o não desonre, nem digam que matou um homem fraco, afeminado, e de pouco animo, e que se lembre que dos valentes é morrerem daquela maneira, em mãos de seus inimigos, e não em suas redes como mulheres fracas, que não foram nascidas para com suas mortes ganharem semelhantes honras. E se o padecente é homem animoso, e não está desmaiado naquele passo, como acontece a alguns, responde-lhe com muita soberba e ousadia que o mate muito embora, porque o mesmo tem ele feito a muitos seus parentes e amigos, porem que lhe lembre que assim como tomam de suas mortes vingança nele, que assim tão bem os seus o hão de vingar como valentes homens e haverem-se ainda com ele e com todo a sua geração daquela mesma maneira.

Ditas estas e outras palavras semelhantes que eles costumam arezoar nos tais tempos, remete o matador a ele com espada levantada nas mãos, em postura de o matar, e com ela o ameaça muitas vezes fingindo que lhe quer dar. O miserável padecente que sobre si vê a cruel espada entregue naquelas violentas e rigorosas mãos do capital inimigo com os olhos e sentidos prontos nela, em vão se defende quanto pode. E andando assim nestes cometimentos acontece algumas vezes virem a braços, e o padecente tratar mal ao matador com a mesma espada. Mas isto raramente, porque correm logo com muita presteza os circunstantes a livra-lo de suas mãos. E tanto que o matador vê tempo oportuno, tal pancada lhe dá na cabeça, que logo lha faz em pedaços. Está uma Índia velha preste com um cabaço grande na mão, e como ele cai acode muito depressa e mete-lho na cabeça para tomar nele os miolos e o sangue. E como desta maneira o acabam de matar fazemno em pedaços e cada principal que ai se acha leva seu quinhão para convidar a gente de sua aldêa. Tudo enfim assam e cozem, e não fica dele cousa que não comam todos quantos ha na terra, salvo aquele que o matou não come dele nada, e alem disso manda-se tarjar por todo o corpo, porque tem por certo que logo morrerá se não derramar de si aquele sangue tanto que acaba de fazer seu oficio.

(continua...)

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