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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

Feitas estas cerimonias afasta-se algum tanto dele e começa a lhe fazer uma fala a modo de pregação, dizendo-lhe que se mostre mui esforçado em defender sua pessoa, para que o não desonre, nem digam que matou um homem fraco, afeminado, e de pouco animo, e que se lembre que dos valentes é morrerem daquela maneira, em mãos de seus inimigos, e não em suas redes como mulheres fracas, que não foram nascidas para com suas mortes ganharem semelhantes honras. E se o padecente é homem animoso, e não está desmaiado naquele passo, como acontece a alguns, responde-lhe com muita soberba e ousadia que o mate muito embora, porque o mesmo tem ele feito a muitos seus parentes e amigos, porem que lhe lembre que assim como tomam de suas mortes vingança nele, que assim tão bem os seus o hão de vingar como valentes homens e haverem-se ainda com ele e com todo a sua geração daquela mesma maneira.

Ditas estas e outras palavras semelhantes que eles costumam arezoar nos tais tempos, remete o matador a ele com espada levantada nas mãos, em postura de o matar, e com ela o ameaça muitas vezes fingindo que lhe quer dar. O miserável padecente que sobre si vê a cruel espada entregue naquelas violentas e rigorosas mãos do capital inimigo com os olhos e sentidos prontos nela, em vão se defende quanto pode. E andando assim nestes cometimentos acontece algumas vezes virem a braços, e o padecente tratar mal ao matador com a mesma espada. Mas isto raramente, porque correm logo com muita presteza os circunstantes a livra-lo de suas mãos. E tanto que o matador vê tempo oportuno, tal pancada lhe dá na cabeça, que logo lha faz em pedaços. Está uma Índia velha preste com um cabaço grande na mão, e como ele cai acode muito depressa e mete-lho na cabeça para tomar nele os miolos e o sangue. E como desta maneira o acabam de matar fazemno em pedaços e cada principal que ai se acha leva seu quinhão para convidar a gente de sua aldêa. Tudo enfim assam e cozem, e não fica dele cousa que não comam todos quantos ha na terra, salvo aquele que o matou não come dele nada, e alem disso manda-se tarjar por todo o corpo, porque tem por certo que logo morrerá se não derramar de si aquele sangue tanto que acaba de fazer seu oficio.

Algum braço, ou perna, ou outro qualquer pedaço de carne costumam assar no fumo, e te-lo guardado alguns meses, para depois quando o quiserem comer, fazerem novas festas, e com as mesmas cerimonias tornarem a renovar outra vez o gosto desta vingança, como no dia em que o mataram, e depois que assim chegam a comer a carne de seus contrários, ficam os ódios confirmados perpetuamente, porque sentem muito esta injuria, e por isso andam sempre a vingar-se uns dos outros, como já tenho dito. E se a mulher que foi do cativo acerta de ficar prenhe, aquela criança que pare, depois de criada matam-na, e comem-na sem haver entre eles pessoa alguma que se compadeça de tão injusta morte. Antes seus próprios avós, a quem mais devia chegar esta mágoa, são aqueles que com maior gosto o ajudam a comer, e dizem que como filho de seu pai se vingam dele, tendo para si que em tal caso não toma esta criatura nada da mãe, nem crêem que aquela inimiga semente pode ter mistura com seu sangue. E por este respeito, somente lhe dão esta mulher com que converse: porque na verdade são eles tais, que não se haveriam de todo ainda por vingados do pai se no inocente filho não executassem esta crueldade. Mas porque a mãe sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes quando se sente prenhe mata-a dentro da barriga e faz com que não venha à luz. Também acontece algumas vezes afeiçoar-se tanto ao marido, que chega a fugir para sua terra pelo livrar da morte. E assim alguns Portugueses desta maneira escaparam que ainda hoje em dia vivem . Porem o que por esta via senão salva ou por outra qualquer manha oculta, será cousa impossível escapar de suas mãos com vida, porque não costumam da-na a nenhum cativo, nem desistirão da vingança que esperam tomar dele por nenhuma riqueza do mundo, quer seja macho, quer fêmea, salvo se o principal, ou outro qualquer da aldêa acerta de casar com alguma escrava sua contraria, como muitas vezes acontece, pelo mesmo caso fica libertada, e assentam em não pretenderem vingança dela, por comprazerem aquele que a tomou por mulher, mas tanto que morre de sua morte natural, por cumprirem as leis da sua crueldade, havendo que já nisto não ofendem ao marido costumam quebrarlhe a cabeça, ainda que isto raras vezes, porque se tem filhos não deixam chegar ninguém a ela, e estão guardando seu corpo até que o dêem á sepultura.

(continua...)

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