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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A rica D. Maria do Sargento de Milícias andava de “ca deirinha”; já os personagens de O Moço Loiro andam de “ônibus”, democraticamente; e logo no início d’A Misteriosa vemos a Sílfide saltar de um “bonde” na rua Gonçalves Dias, ainda mais democraticamente. No tempo de A Moreninha, os sinos davam ainda o sinal de recolher às 10 horas da noite, coisa incompreensível no tempo de A Misteriosa, com a cidade iluminada a gás. Comparem-se as modas femininas; Macedo é sempre muito minucioso neste particular. Uma das moças que aparecem na A Moreninha quase nem podia sentar-se, tão atrapalhada se achava com a “coleção de saias, saiotes, vestidos de baixo, e enorme variedade de enchimentos”, que lhe cobriam o corpo. A jovem Honorina, de O Moço Loiro, comparece a um baile, e os seus requintes de elegância deslumbram o romancista, que a observa dos pés à cabeça: “dois largos bandós de lindos cabelos negros desciam até dois dedos abaixo das orelhas e para trás se voltavam, indo suas extremidades perder-se por entre longas tranças de perfeitíssimo trabalho, que se enroscavam terminando em cesta; uma grinalda de flores brancas salteadas de pequeninos botões de rosa se entretecia nesse belo tecido de madeixas; duas rosetas de brilhantes pendiam de suas orelhas; nenhum enfeite, nenhum adorno ousara cair sobre seu colo que, nu, alvejava, arredondado, virginal e puro; um vestido de finíssimo blonde, que deixava transparecer o branco cetim que cobria o corpinho todo talhado em estreitas pregas, que desenhavam elegantes formas, era debruado por uma longa fila de flores semelhantes às dos cabelos, as quais ainda se deixavam de novo ver formando uma cercadura em que acabavam as mangas curtas, justas, e singelas; esse vestido cruelmente comprido para esconder dois pequenos pés calçando sapatinhos de cetim, se terminava por uma simples barra bordada de branco; no braço esquerdo da moça fulgia um bracelete de riquíssimos brilhantes; e enfim suas mãos calçavam luvas de pelica branca, guarnecidas de arminho e com borlas de seda frouxa.” Legítima descrição de crônica... Agora, a desconhecida de A Misteriosa, em passeio pela cidade: “A Sílfide trazia à cabeça, pela frente, a quarta parte de um chapelinho azul claro do qual vinham quase beijar-lhe a fronte meia dúzia de margaridas, tão pendentes que pareciam estar dizendo ‘colhe-nos ou caímos!’ – e por detrás, uma enchente de anéis de ouro, uma cauda de fios de ouro encaraco lados, que lhe descia pelas espáduas brancas a fazer lembrar pó de arroz.” O vestido da misteriosa dama era muito complicado, afirma o romancista, e acrescenta: “tenho-o impresso na imaginação a perseguir-me como fantasma sinistro; mas não me é possível explicar de modo claro aquele labirinto ornamentoso, em que me perdi; sei que havia vestido de caxemira duplo, e cada qual de sua cor, e túnica ainda de outra cor, primeira saia com folhos e franzidos de canudos, segunda saia de apanhados com cordões e borlas, e além disso, vieses aqui, franjas ali, cabeças de passamanes acolá, o azul, o encarnado, o preto, a misturarem-se... e um maldito corpinho afogado e as mangas compridas a me esconderem o que eu desejava ver...” Remate do vestido: “cinto de fita grossa com fivela grande, de aço.” E é precisamente sobre a moda feminina reinante em 1871 que o novelista borda umas considerações moralizantes, em que aponta a “escola filosófica do sensualismo” como responsável pelos vestidos de saia arregaçada mostrando o pé, e prevê coisas muito piores, pois a exibição dos pés até o tornozelo é ainda uma incompleta vitória da filosofia sensualista, “que firmará o seu triunfo absoluto, quando as senhoras, obedecendo ao império de nova moda, se mostrarem com o rosto sem véu, e as pernas à mostra ao menos até à altura dos joelhos”. Vemos hoje que a negra revisão do romancista se realizou de maneira cabal, com o mais absoluto triunfo daquela escola filosófica.

(continua...)

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