Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Reli agora A Moreninha. Não me lembra senão muito vagamente
a impressão que me deixou a sua primeira leitura, isto há mais de trinta anos;
desta vez, porém, a coisa foi bem difícil. Tentei reler também O Moço Loiro,
duas vezes e meia mais longo que A Moreninha: não pude ir além da metade do
primeiro volume. Tudo aquilo é oleogravura de qualidade bastante ruim; e então
os diálogos, e principalmente os diálogos de amor, emitidos em falsete, soam
falso demais. Certamente, não podemos esquecer que se trata das primeiras
tentativas não só do autor, como também do próprio romance brasileiro, e que
tanto A Moreninha quanto o O Moço Loiro representam já um pequeno progresso em
relação a tentativas anteriores – e até posteriores – de outros romancistas da
fase romântica. Mas não podemos tampouco esquecer que Joaquim Manuel de Macedo
pouco progrediu em relação a si mesmo. Os seus últimos romances e novelas foram
escritos passados cinco lustros depois de publicada A Moreninha – e os seus
méritos de romancista não ficaram muito acrescidos com eles. Por exemplo, duas
dessas novelas – Os Quatro Pontos Cardeais e A Misteriosa – que eu não conhecia
e li agora, começam menos mal, com certa desenvoltura e com o falsete dos
diálogos apreciavelmente reduzido; mas do meio para o fim a coisa desanda que
não tem mais medida: situações forçadas, arranjos de carpintaria,
mistificações, etc., etc. Ora, estas duas novelas foram escritas depois de
1870, muito depois das Memórias de um Sargento de Milícias e de alguns dos
principais romances de Alencar, e quando Machado de Assis já aparecia e se
firmava como grande prosador, quer no folhetim, quer no conto. A propósito,
recordo a opinião de Sílvio Romero, ao meu ver errônea, segundo a qual não
seria difícil encontrar algum reflexo do Macedo de a A Moreninha e de O Moço
Loiro no Machado de A Ressurreição e de A Mão e a Luva. Pelo contrário, creio
eu, é no Macedo dos últimos anos que poderemos vislumbrar um ou outro reflexo
do jeito e da intenção de Machado. Tal é, pelo menos, a impressão imediata que
me ficou de certas passagens da novela Os Quatro Pontos Cardeais, conforme se
pode ver na seguinte caracterização de Estanislau, o Alma-fechada: “Os mais
severos dizem dele: – É egoísta, mas homem de bem.” Ao que o romancista
acrescentou: “Esta apreciação tem o defeito de parecer um pouco contraditória;
nós, porém, vivemos no mundo das contradições.”
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.