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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

O pequeno número de baixas que tivemos, as perdas consideráveis dos paraguaios, sua inferioridade no combate em relação a nós, demonstrada pelos fatos, restabeleceram a calma, incutindo ao espírito do Coronel uma apreciação mais exata das circunstâncias e das coisas. “Estes selvagens, exclamou, que a tanta gente assassinaram e tanto assolaram esta região, quando indefesa, não mais dirão que os tememos. Sabem que dentro do próprio território, podemos obrigá-los a pagar o mal que nos fizeram. Vamos à fronteira aguardar algumas probabilidades de nos abastecer e gozar de pequeno repouso que me não poderá ser exprobrado".

CAPÍTULO X

Retrocesso sobre o Apa-Mi. Escaramuças e combates com a cavalaria inimiga que envolve completamente a coluna.

Íamos, apesar de tudo, encetar a retirada. Sabia o inimigo que os movimentos de nossa coluna, fosse qual fosse o sentido tomado, tinham motivos a que era alheia a sua superioridade militar sobre nós. O combate que nos entregara o seu acampamento abatera-lhe a presunção, elevando ao mesmo tempo a confiança de nossa gente, em si própria, à altura das provações que o futuro nos reservava, assim como das que já experimentáramos.

Era indispensável a vantagem obtida sobre os paraguaios para que a realidade de nossa situação se fizesse, sem murmuração, aceita dos nossos soldados, distraindo-os da imprevidência causadora de tão premente momento. Fácil sem dúvida achar pretextos para a falta de víveres, tendo as informações dos refugiados podido iludir-nos acerca dos recursos da região, mas a insuficiência de munições, logo em começo de campanha, não podia deixar de constituir motivo de injustificável censura pelo fato de que tudo de antemão devera estar calculado pelos nossos chefes, muito embora os exaltassem o entusiasmo, a paixão da glória e o amor da Pátria.

Quando, no dia seguinte, 8, o Sol se levantou lera um dia dos mais serenos) já estávamos em ordem de marcha com as mulas carregadas, os bois de carro nas cangas, e tudo quanto restava de gado encostado ao flanco dos batalhões, de modo a seguir todos os movimentos da coluna.

As sete da manhã, o corpo de caçadores desmontados, a quem competia o turno da vanguarda, abriu a marcha, tendo a seguir bagagens e carretas, circunstância que nos impediu de transpor facilmente um riacho avolumado pelas chuvas dos dias antecedentes. Caindo um de nossos canhões à água só o tiramos com grande dispêndio de tempo e esforços. Nesta ocasião os ímpetos de sofreguidão do coronel Camisão ameaçaram reproduzir-se. Conseguiu, contudo, refreá-los; e desde ai jamais lhe notamos vestígios sequer da antiga agitação; e sim, unicamente, uma solicitude sempre devotada à salvação comum.

Avançávamos em boa ordem quando subitamente viva fuzilaria se fez ouvir: era a nossa vanguarda que renteando um capão de mato fora atacada por uma partida de infantaria, ali emboscada. Tinham algumas balas vindo cair por cima das fileiras num grupo de mulheres que marchavam tranqüilamente ao lado dos soldados; tal algazarra provocaram que não sabíamos o que poderia ter sucedido. Pouco durou este terrível tumulto; investindo resolutamente com o inimigo, nossa gente o desalojou impelindo-o até o primeiro declive do planalto, onde estava a fazenda da Laguna. Mas ali formaram-se os paraguaios novamente, resistindo algum tempo, achegando-se logo depois, passo a passo, dos cavalos; afinal, enquanto alguns, já montados, disparavam, a todo dar de rédeas, outros fingiam resistir para proteger os camaradas que fugiam a bom fugir, inteiramente derrotados.

Continuando a simular esta desordem aparente, pela qual procuravam separar-nos uns dos outros, o mais que pudessem, vimo-los, pouco a pouco, estacar com mais freqüência, sempre mais numerosos, à medida que os reforços lhes chegavam. Ao mesmo tempo o nosso corpo de caçadores, contra eles lançado, cada vez mais se isolava do resto da coluna. Redobrou, então, de intensidade a fuzilaria.

O capitão Pedro José Rufino, que à testa dos caçadores atravessara o ribeirão, depois da bagagem, e se encontrava mais perto da vanguarda, embora ainda bastante longe, percebeu logo o estado de coisas. Depois de expedir um oficial para pedir socorros, deu voz de avançar; e ele próprio atirou-se, sem atentar a quem o acompanhava, ao ponto do mais renhido entrevero. Chegou no momento em que os paraguaios, após todas as suas evoluções de cavalaria, simulando a fuga para depois ganharem terreno, subitamente voltaram, carregando furiosamente. A principio surpresos, e algum tanto perturbados, mas logo confiantes à voz de Rufino, formaram os nossos quadrado em torno dos oficiais, segundo a ordem recebida; e destes grupos, fora dos quais só havia morrer miseravelmente, sob o sabre e a lança, despejaram-se descargas acompanhadas de aclamações estrepitosas.

Enfim, cerrando fileiras, retomaram os caçadores movimento para a frente no meio deste turbilhão de homens e cavalos, para se encostar aos capões de mato aqui e acolá, se viam pelo campo. Encarniçada onde, de ambos os lados, muitos mortos e feridos.

(continua...)

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