Por Franklin Távora (1878)
- Se és homem, disse ele, em atitude de quem estava mete não mete o facão no rapaz – repete as palavras que há pouco disseste.
- Você então quer brigar comigo deverás? Ora deixe-se disso. O que passou está passado.
O que passou comigo não está passado, não, negro mofino e sem vergonha. Eu só sinto não encontrar também aqui os outros dois tições – teu pai e tua mãe – para dar a vocês todos um ensino de mestre com a folha deste facão. Mas não há de faltar ocasião.
Benedicto, que não era bom, encarou novamente com Lourenço, como quem sentia voltar-lhe o animo que fugira um momento. Tinha-lhe lembrado um recurso, que ele passou imediatamente a pôr em pratica.
- Você diz tudo isto porque tem ai um facão na mão; se não fosse ele, não tinha barbas para o dizer. Mas ainda estando com esse ferro e não tendo eu arma nenhuma, não faço conta de você, quanto mais meu pai e minha mãe. E para que fique sabendo, de uma vez por todas, que eu não me lembro de suas valentias, vou dizer-lhe uma coisa: se tiver o atrevimento de passar outra vez de noite por junto do poleiro, tenha certeza de que lhe hei de pôr os cachorros, como fiz da outra vez.
Ainda bem não tinha Benedicto finalizado esta inocente ameaça, quando Lourenço atirava para longe o facão. - Para te quebrar os beiços, negro, eu não preciso de arma.
Era o que Benedicto queria; seu adversário estava desarmado. Então investiu contra ele como fera. Aparentemente, Benedicto representava ser mais forte do que Lourenço. As ceroulas azuis arregaçadas até aos joelhos, deixavam á mostra pernas musculosas, que acusavam grande força física. O negro mesmo tinha consciência de sua robustez; do seu tope nenhum morador de quatro léguas em redondo lhe era superior. Por isso, tendo lá para se que podia com Lourenço, atirou-se sobre ele no pressuposto de o derrubar e pôr debaixo dos pés logo ao primeiro ímpeto.
Nunca porém uma falsa crença teve mais pronta e estrondosa desilusão. Agarrar-se com Lourenço foi o mesmo que se agarrar com um touro bravo. Mal sabia ele que, além da imensa força física, de que nunca supôs possuidor, tinha Lourenço meneios, jeitos e passos que o habilitavam a dar em terra com o mais corpulento animal. Em um instante o trêfego rapaz atirou o negro, não sobre a areia, mas dentro da cova próxima, onde havia um abismo de fogo, parte ainda em chamas, parte já em carvões, mas ainda vivos e ardentes.
E esta operação, rápida como passar de faisca elétrica, seguiu-se um grito nu de agonia, que atroou os ares. Benedicto, que estava nu da cintura para cima, sentira no corpo, nas mãos, nos pés as dores trazidas pelo fogo.
Esse grito medonho e a vista que inesperadamente se apresentou aos olhos de Lourenço, produziram nele súbita comoção. O impulso de fera, que o levara a atirar na cova o adversário, foi instintivo, inevitável, fatal: não lhe deu tempo a refletir; tinha passado tão rápido como o pensamento, e em seu lugar estava agora a razão.
Lourenço correu a uma tora meio queimada que se via a um lado sobre a areia, e, pegando dele, e metendo-o imediatamente na cova, como se o fizera em um poço para impedir que se afogasse aquele que aliás estava nadando em puro fogo, gritou da beira da cova a Benedicto, com voz comovida:
- Pegue-se neste pau e suba por ele para não se queimar. Eu nem pensei no fogo que havia ai dentro.
Era ainda cedo e o casal de pretos, inquilinos da palhoça, o qual tinha ido á Goiana, a serviço do engenho, só poderia estar de volta sobre a tarde ou talvez no dia seguinte.
Quando Benedicto disse isto a Lourenço, sentiu este ainda maior abalo. A situação afigurou-se-lhe então mais difícil e penosa do que ao principio lhe parecera. Quem trataria do negro, que se revolvia, em gritos, já salvo do fogo, mas preso das extensas queimaduras, sobre folhas secas á sombra de um cajueiro próximo? Era possível que ele ficasse assim desamparado por todo esse tempo? E os gritos de dor que cada vez aumentavam mais, e o terror da situação que se tornava mais pungente e cruel, como resistir a eles sem tratar de os remediar?
Lourenço ficou abatido um momento, mas logo tornou em se e disse á vitima dos seus maus instintos:
- Não grites, não chores, que vou chamar minha mãe para tratar de ti.
Esta inspiração, que transluziu como reflexo de prazer intimo, em seu semblante, pouco tempo antes anuviado pela sombra do desgosto, rápida se desvaneceu, deixando em seu lugar no espirito do rapaz um sem numero de interrogações, cada qual mais acerba e atroz.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.