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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Os dois jovens amaram-se e souberam que eram amados. Sorria-lhes o futuro, quando, na cidade do Salvador, um cavalheiro de nobre estirpe, colono português considerado, pediu a donzela em casamento. O pai mandou, a filha chorou, mas teve de obedecer. O amante pensou morrer. Viveu, porém, ainda para amar com o mesmo ardor a mulher que pertencia já a outro.

O marido teve conhecimento daquele amor que era já um desvario; mas conteve-se, porque não podia duvidar da virtude da esposa.

No fim do ano de 1566, Mem de Sá chamou os bravos a pelejar contra os franceses do Rio de Janeiro.

O marido da bela moça alistou-se entre os guerreiros e fez-se acompanhar de sua mulher. Tinha a idéia de ficar na nova colônia que se ia fundar e de assim ver-se livre do importuno apaixonado de sua esposa. Quando, porém, o navio em que ia levantou a âncora, o mancebo apareceu a seus olhos.

O marido turvou-se. Guardou, porém, silêncio.

A expedição chegou ao seu destino, e no dia 20 de janeiro de 1567 travou-se a peleja entre os portugueses e os franceses.

No momento de avançarem os portugueses para atacar a praça do Uruçumirim, o marido voltou-se de repente para trás e viu que sua esposa olhava antes para o antigo amante do que para ele. Corou e tremeu: corara de vergonha e tremera de raiva.

Ao travar-se o combate o marido chegou-se ao amante de sua mulher, bateu-lhe no ombro e disse-lhe:

– Quero ver se sabes ser valente como queres parecer apaixonado.

O amante olhou para o feliz rival com surpresa e furor, e imediatamente atirou-se na peleja como um leão.

O marido tivera um mau pensamento, excitando o amante a procurar a morte dos bravos; ao vê-lo, porém, batendo-se com arrojo sublime, arrependeu-se, teve pejo, imitou-o, foi um segundo leão.

E marido e amante caíram cobertos de feridas.

A vitória coroou o esforço dos portugueses.

Dias depois, na rude povoação que havia perto do Pão de Açúcar, e que ficou sendo chamada Vila Velha, estavam em duas cabanas diversas dois moribundos prestes a exalar o derradeiro suspiro.

À cabeceira de um deles velava uma mulher, uma mulher que durante um mês inteiro, sem descansar, sem dormir, cuidou do marido e rezou por ele. Não lhe valeram cuidados nem orações: ficou viúva, e aborrecida do mundo e da vida que até então vivera, resolveu-se a ficar na solidão do Rio de Janeiro, pedindo e obtendo uma sesmaria no vale junto ao morro do Castelo, onde se fundara a nova cidade.

Na outra cabana, a luta entre a vida e a morte mais longa tinha sido ainda: um pobre mancebo sem mãe, sem esposa, sem irmã que olhasse por ele, esteve suspenso entre a eternidade e o mundo, sem consciência do que sofria, delirante ou sem voz, e enfim abandonado pelo próprio prático que alguns remédios lhe aplicava. A seu lado ficou somente um padre que rezava de joelhos diante de uma imagem sagrada.

Ao amanhecer o dia em que se contava que expirasse o mancebo, abriu ele os olhos e falou.

Não delirava. Tinha passado a febre. Estava salvo.

– Obrigado, meu padre! – disse com voz sumida.

– Agradecei a quem vos salvou – respondeu o padre, mos-trando a imagem.

O mancebo olhou e viu: era uma imagem de Nossa Senhora do Ó.

Seguiu-se uma convalescença de alguns meses. No fim deles o mancebo agradeceu ao padre os cuidados que lhe devia, e pediu-lhe que lhe desse a imagem de Nossa Senhora do Ó.

O padre hesitava.

– Ouvi-me em confissão, meu padre – disse o mancebo.

E então de joelhos aos pés do ministro do Senhor, abriu-lhe o seu coração e patenteou-lhe todos os seus segredos, todos os seus erros e um profundo arrependimento.

O padre absolveu-o, abençoou-o, e fazendo-o levantar-se, perguntou-lhe:

– E que pretendeis fazer agora, meu filho?

– Tocando a beira da sepultura, devorado pela febre, exaltadopelo delírio, eu escutava incessantemente uma voz terrível repetir a meus ouvidos as palavras do frade carmelita: “Trocas a mãe de Deus pela filha do homem: não serás feliz! Um dia lembrar-te-ás do Monte Carmelo.” Eu me sentia condenado e desejava a morte, quando uma noite, no meio de violenta agitação, voltando os olhos, eu vos vi, meu padre, ajoelhado a rezar diante daquela imagem sagrada. Contemplei-a também em êxtase, pareceu-me ver em seus olhos o anúncio da minha salvação: tive fé, esperei e fui salvo.

– E então, agora?

– Meu padre, fiz votos de erguer nesta terra inculta uma ermida a Nossa Senhora do Ó, que me arrancou das garras da morte, e de provar o arrependimento que me acompanha da ingratidão com que fugi do tranqüilo e sagrado asilo do Carmo, procurando alcançar na nova cidade que se está fundando um terreno espaçoso que guardarei para os carmelitas, que não deixarão de vir estabelecer-se no Brasil.

O padre tomou a imagem da Senhora do Ó nos braços, beijou-a fervorosamente nos pés, e depois entregou-a ao mancebo.

Passados apenas dois dias o mancebo tinha já escolhido o sítio onde queria levantar a ermida. Soube, porém, que o lugar estava compreendido na sesmaria concedida à viúva de um nobre português que morrera das feridas que recebera no combate do dia 20 de janeiro.

(continua...)

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