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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Ah ! uma moça defronte do toucador, quando não tem um theatro, um passeio, um baile que a espere, e que com suaves e carinhosas mãos principia a brincar, a anellar, a alisar, a festejar seus cabellos, que sabe que são bellos, é a mais esquecida e também a mais occupada e feliz das creaturas.

É portanto excusado dizer que Clemência meditou até depois do meio-dia, e quando concluio o seu penteado estava animada, risonha, e com um ar de malícia que tinha alguma cousa de sinistro para a velha tia, ou pelo menos para os tres calculistas.

Quinze dias correrão depois d'aquella noite de baile em que tanto soffrêra a vaidade de Clemência.

Violante havia escripto no fim de umo semana á sobrinha, communicando-lhe que a triplice paixão que a sua fortuna inspirava, ia em muito bom caminho : que em breve contava receber tres pedidos de casamento, e que portanto cumpria que Clemência se dispuzesse a entrar com a maior brevidade para o convento da Ajuda, conforme a condição da aposta feita entre ellas.

A moça não mais se admirou das faceis conquistas realisadas por sua tia, mas também não se incommodou com a noticia : tinha concebido um plano que lhe parecia seguro para não perder, ou pelo menos para não deixar Violante ganhar a aposta, e assim limitou-se a responder a Violante, pedindo-lhe que a prevenisse do dia em que tinhão de effectuar-se os pedidos de casamento.

No fim dos quinze dias cujo correr mencionamos, Clemência recebeu de sua velha tia um bilhete contendo estas unicas palavras :

« Vem jantar comigo amanhã, sem falta. » É portanto amanhã, disse comsigo Clemência.

E é desnecessário accrescentar que não faltou ao convite.

— Então, minha tia, é hoje o dia feliz do seu triplice e completo trimpho ?...

Sim ; hoje receberei os meus tres pretendentes, que cada um por sua vez, ou todos ao mesmo tempo, me hão de pedir em casamento.

— E n'estes ultimos quinze dias...

— Tenho sido cantada em prosa e verso; já recebi um soneto aos meus oculos, uma ode á minha touca e um discurso em que se demonstra o poder dos meus encantos.

— E gostou ?

— Do discurso principalmente; achei-lhe no entanto um unico defeito: em lugar de encantos, o autor do discurso devia ter escripto em contos. Se assim o fizesse, eu o preferiria aos seus dous rivaes pelo merecimento da sinceridade e da franqueza.

— Espera por conseqüência os seus tres pretendentes hoje...

— Sim, os teus tres namorados...

— ... e para abater-me ainda mais, quiz fazerme testemunha da sua brilhante victoria, e para isso mandou-me convidar...

— Pois não mandaste pedir que o fizesse ?...

— Não, minha tia; eu somente pedi que me previnisse do dia marcado para sua dita: não me queixo porém do que praticou comigo, e antes lhe agradeço.

— Ainda bem.

— E então, casa-se, minha tia ?... casa-se deveras ?...

— Não sei; tu que dizes ?...

— Sou ruim conselheira ; mas, em todo o caso, pretende tomar hoje mesmo uma resolução definitiva ?

— Resolve tu por mim.

— Qualquer que seja a sua decisão, se ella hoje fosse dada, estaria decidida a nossa aposta, e teria de entrar para o convento...

— Assim o penso.

— ..... porque, ainda quando se não qui-zesse casar, nem por isso teria menos roubado os meus tres namorados...

— Exactamente.

— Pois bem : eu não resolvo cousa alguma por isso mesmo, mas vou fazer-lhe um pedido.

— Qual?...

— O de uma dilação...

— Como ?...

— Peço-lhe que hoje receba os pedidos de casamento que lhe vêm fazer os seus tres namorados, mas adie por oito dias a resposta que lhes deve dar.

E com que fim me pedes isso ?...

— Espero por minha vez roubar-lhe os tres noivos nos oito dias que vão passar.

— Louca ! vaidosa !...

— Peço-lhe oito dias...

— Não, oito dias é muito; dou-te por misericordia tres dias.

— Aceito.

— E contas ?. .

— Não entrar para o convento.

— Porque ?

— Porque no fim de tres dias terei a meus pés os tres noivos da minha tia.

N'esse momento as duas senhoras sorrirão, ouvindo o rodar de três carruagens que entrarão na chacara.

O ruido que Violante e Clemência acabavão de ouvir, era com effeito o das carruagens que trazião os tres apaixonados da fortuna da velha.

O Sr Antônio, o Dr. Ambrosio e Claudiano ficarão sorprehendidos ao encontrar-se na mesma casa e a mesma hora, e cada um por sua vez olhou curioso e desconfiado para os outros, procurando adivinhar o motivo que alli os reunia, e bem depressa a sorpresa se transformou em vexame, achando-se todo tres em frente da formosa moça de quem se tinhão fingido namorados.

A sorpresa era facil de explicar.

Emquanto rendião finezas e falsos juramentos de amor a Clementia, os tres calculistas tinhão vivido em perfeita solidariedade ; não havia entre elles ciume possivel, e de accordo commum namoravão a bella moça, como bons amigos que se divertião em sociedade; desde porém que ouvirão a noticia dos trezentos contos da velha, esbarrarão diante da realidade, e cada qual quiz para si a interessante noiva dos 61 annos : Violante foi para elles o pomo da discordia, e cada um tratou de enganar os companheiros, manejando o seu negocio com o mais profundo segredo.

(continua...)

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