Por José de Alencar (1872)
A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto dela; e que todo seu impetuoso afã não lhe servira senão para ser testemunha de uma atrocidade infame: o assistir aos últimos arrancos do fazendeiro, a quem viera salvar.
Nisto soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava nas lôbregas socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo à entrada do despenhadeiro. Era Luís Galvão, não podia ser outro.
Cega, desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direção para fazer parar o viajante e impedir-lhe que passasse. Mas diante dela abria-se um barranco profundo. Lançando olhos ansiados em torno, lobrigou entre a folhagem um vulto negro; e ficou hirta. Reconhecera a camisa de baetão preto que trazia naquela manhã Jão Fera; e a um movimento de cabeça vira o colo musculoso distender-se como serpente.
Era, com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais, espreitava, com a faca apunhada, o momento de arrojar-se à frente.
Como dissera Luís Galvão ao almoço, o bugre não feria de emboscada; lutava de rosto, e corpo a corpo, barateando a vida. O bacamarte descansava encostado ao tronco; e o chapéu caído ao chão, deixava em pleno ar a cabeça revolta, que fervia-lhe com o jorro de sangue arremessado pela sanha a subverter-lhe o coração.
Aproximava-se Luís Galvão; e Berta presa de um espasmo de horror, que lhe sufocara a voz e crispara o corpo, não podia soltar um grito, nem dar um passo para preveni-lo.
Chegara o fatal momento.
Colhendo o lombo como o tigre para distender o salto, Jão Fera arrancou. A nuca, porém, lhe vergara contra os ombros, ao impulso de mão invisível que lhe travara os cabelos. Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido uma palavra soturna, mas carregada de cólera e desprezo:
- Malvado!...
O capanga voltou-se rápido e feroz como o tigre picado pela vespa. Estava em face de Berta.
XV
O relicário
Era medonha a catadura de Jão Fera quando voltou-se.
A fauce hiante do tigre, sedento de sangue, ou a língua bífida da cascavel, a silvar, não respirava a sanha e ferocidade que desprendia-se daquela fisionomia intumescida pela fúria.
Berta, ao primeiro relance, sentiu-se transida de horror; e o impulso foi precipitar-se, fugir, escapar a essa visão que a espavoria. Reagiu, porém, a altivez de sua alma e a fé que a inspirava.
Travando as mãos ambas um galho que encontraram acaso atrás da cintura, e crispados os braços como duas molas de aço brandidas, conseguiu manter-se com o talhe ereto e a fronte sobranceira, arrostando em face aquela rábia formidável, que terrificaria ao mais bravo.
Jão Fera, reconhecendo a menina através da nuvem de sangue que lhe inflamava o olhar, e vendo-a afrontar-lhe os ímpetos, não abateu logo de todo o fero senho, mas foi-se aplacando a pouco e pouco. A ira que se arrojava do seu aspecto, retraiu-se e de novo afundou pelas rugas do semblante, como a pantera que recolhe à jaula, rangendo os dentes.
Sua alma se impregnava do fluido luminoso dos olhos de Berta, e ele sentia-se trespassado pelo desprezo que vertia no sorriso acerbo esse coração nobre e puro, sublevado pela indignação. De repente começaram a tremer-lhe os músculos da face, como os ramos do pinheiro percutidos pela borrasca; e as pálpebras caíram-lhe, vendando-lhe a pupila ardente e rúbida.
- Estavas aqui para matar alguém? perguntou a menina com um timbre de voz, semelhante ao ringir do vidro.
Respondeu o capanga com uma palavra, que em vez de sair-lhe dos lábios, aprofundou-se pelo vasto peito a rugir como se penetrasse em um antro.
- Estava.
- Que mal te fez essa pessoa?
- Nenhum.
- E ias assassiná-la?
- Pagaram-me.
- Então, matas por dinheiro? perguntou Berta com a veêmencia do horror, que lhe causava essa torpe exploração do crime.
- É meu ofício! disse Jão Fera com uma voz calma, ainda que grave e triste.
- E não te envergonhas?
Com um assomo de soberba indignação foram proferidas estas palavras pela menina cujo olhar vibrante flagelava as faces do sicário. Este erguera a fronte num ímpeto de revolta, pungidos os brios pela humilhação:
- Envergonhar-me de que? Não feri, nunca feri homem algum de emboscada, às ocultas, a meu salvo. Ataco de frente, a peito descoberto. Se mato é porque sou mais valente e mais forte; mas arrisco minha vida, e umas quantas vezes, bem mais do que esses a quem despacho, pois sou um só contra muitos.
- Que importa isso? A miséria está em venderes a vida de teu semelhante, se acaso és tu homem e não fera como te chamam.
Um riso de ironia feroz arregaçou o lábio do capanga.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.