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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Nessa noite, porém, obrigado a afastar-se da moça, com quem estavam rôtas suas relações, ele não sabia o que fizessem e pensava em retirar-se aterrado com a idéia de tornar-se o ludíbrio daquela mulher fatal, quando ouviu uma voz que o agitou. 

Ao voltar-se tinha diante de si Aurélia pelo braço de Torquato Ribeiro; e Adelaide conduzida por Alfredo Moreira. Seixas quis retirar-se; mas estava em uma estreita saleta, e um grupo de senhoras impedia-lhe a passagem. 

- Proponho-lhe uma troca, D. Adelaide. 

- Qual é, D. Aurélia? 

- Troquemos os pares. Aceita? 

Adelaide corou observando timidamente:  

- Podem ofender-se. - Não tenha susto. 

Aurélia deixou o braço de Torquato e tomou o do Moreira que exultou como se imagina. 

- Esta troca é paga da outra que fizemos, ou que fizeram por nós; ouviu, D. 

Adelaide? 

Soltando estas palavras com um riso argentino, Aurélia perpassou pelo semblante de Seixas o olhar sarcástico e imperioso. 

Fernando saiu desesperado. Compreendera que Aurélia escarnecia da repulsa que ele sofrera, e triunfara com seu infortúnio. Esta irrisão depois dos transtornos econômicos fezlhe o efeito de um cautério aplicado ao talho. 

Lembrou-se da moça dos cem mil cruzeiros, que lhe haviam proposto na véspera. Para ostentar sua riqueza nos salões, diante dessa mulher enfatuada de seu ouro, valia a pena casar-se, ainda mesmo com uma sujeita feia e talvez roceira. A roça é o viveiro de noivas ricas onde se provê a mocidade elegante da corte; daí vinha a suposição de Seixas. 

No outro dia, depois de uma insônia atribulada, Fernando recapitulando as contrariedades com que o recebera a sua corte predileta, depois de uma ausência prolongada, chegou a esta dolorosa conclusão: que estava arruinado. Pobre, desacreditado, reduzido ã vida de expedientes, com a sua carreira cortada, que futuro era o seu? Não lhe restava senão resignar-se à vegetação de emprego público com a ridícula esperança de alforria lá para os cinqüenta anos, sob a forma de mesquinha aposentadoria. 

Esta perspectiva o horrorizava. Entretanto sua posição nada tinha de assustadora. Com um pouco de resolução para confessar à mãe as suas faltas, e algumas perseveranças em repará-las, podia ao cabo de dois anos de uma vida modesta e poupada restabelecer a antiga abastança. 

Mas esta coragem é que não tinha Seixas. Deixar de freqüentar a sociedade; não fazer figura entre a gente do tom; não Ter mais por alfaiate o Raunier, por sapateiro o Campas, por camiseira a Cretten, por perfumista o Bernardo? Não ser de todos os divertimentos? Não andar no rigor da moda? 

Eis o que ele não concebia. Sentia-se com ânimo para matar-se, mas para tal degradação reconhecia-se pusilânime. 

Este pânico da pobreza apoderou-se de Seixas, e depois de trabalhá-lo o dia inteiro, levou-o na manhã seguinte à casa de Lemos, onde efetuou-se a transação, que ele próprio havia qualificado, não pensando que tão cedo havia de tornar-se réu dessa indignidade. 

A uma justiça, porém, tem ele direito. Se previsse os transes por que ia durante a realização do mercado, e especialmente no ato de assinar o recibo, talvez se arrependesse. 

Mas arrastado de concessão em concessão, a dignidade abatida já não podia reagir. 

Três dias depois daquele em que recebera os vinte mil cruzeiros, achou Seixas ao recolher-se um recado do tal Ramos nestes termos: 

"Prepare-se, que amanhã às 7 da noite vou buscá-lo para a apresentação." 

No dia seguinte, à hora marcada, com pontualidade mercantil, parava à porta do sobradinho da rua do Hospício um carro, no qual poucos momentos depois seguia o Lemos a caminho das Laranjeiras com o noivo que ele havia negociado para sua pupila. 

Durante rápido trajeto, o velho divertiu-se em meter sustos no rapaz acerca da noiva, a quem sorrateiramente ia emprestando certos senões, a pretexto de os desculpar. Ora dava a entender que a moça tinha um olho de vidro; ora inculcava que era uma perfeita roceira, a qual o marido devia depois do casamento mandar para o colégio. 

Tão depressa intentava o negociante suas pilhérias, como as destruía com o comando repique de riso, batendo três palmadinhas na perna de seu companheiro. 

- Ficou passado, hein, managão!... Qual roceira! Esteja descansado! Não precisa de colégio; se ela já é uma academia! Tome meu conselho; trate de estudar, senão o senhor faz má figura! Eh! Eh! Eh!... 

Seixas não prestava atenção às fecécias do velho, seu espírito estava nesse momento oprimido pela dolorosa convicção que tinha, do abatimento e vergonha de sua posição. 

Agora sobretudo, ao começar a realização do mercado que ele havia feito de sua pessoa, quando ia encontrar-se com a mulher a quem se alienara sem a conhecer, e em troca de um dote; agora é que toda a humilhação desse procedimento se lhe desenhava com as cores mais carregadas. 

(continua...)

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