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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Na cabeceira estava D. Paulina, a mulher do comendador Soares, senhora de estatura regular, e bastante nutrida. Tinha na fisionomia um ar de bondade e singeleza que lhe conciliava a simpatia geral. Seus gestos eram acanhados; via-se que não estava a cômodo, nem se ocupava em desempenhar o seu papel de dona-de-casa. Esta senhora, que nascera para uma vida modesta, sentia-se acabrunhada ela riqueza e opressa por esse luxo de ostentação que a envolvia e se apoderara até de sua pessoa. Seu vestido feito no rigor da moda era uma túnica de Nessus para aquele gênio pachorrento. 

Na extremidade oposta, ou na outra cabeceira, estava o comendador Soares, homem de cinqüenta e cinco anos, de mediana estatura e talhe franzino, mas vivo e ágil, respirando saúde e alegria no rosto prazenteiro e no gesto animado. 

Trazia a barba raspada e o cabelo cortado à escovinha. 

- Dr. Nogueira, não quer um pouco deste lombinho? Diz aqui o Bastos que não está mau.

- Está magnífico. 

A pessoa a que se dirigira o Soares, era um homem de trinta e seis anos e parece distinto.

- Obrigado, comendador! Nada mais. 

- Pois eu vou a ele. Quem me acompanha? Aposto que o Guimarães?  

- Está dito! 

- O Sr. Guimarães deve ter bom apetite. Fez um grande passeio a cavalo. 

- É verdade! 

- Onde foram? perguntou Soares. 

- Íamos à Pedra Bonita; mas não chegamos até lá. D. Guida quis voltar... 

- Já era tão tarde! 

- E perdemos muito tempo com a tal flor. 

- Ai, que lá se vai o segredo. 

- Que segredo? 

- Ora; eu lhe conto, papai, disse a Guida. Queria apanhar uma flor, mas “Edgard”, que é um poltrão, teve medo de descer... 

- Sim; mas que ladeira! quase direita! 

- Ora. O outro cavalo não desceu? 

- Com que risco! 

- No fim de contas “Edgard”, zangado, ia-se atirando da montanha abaixo, quando um moço que passava, conhecido do Sr. Guimarães, agarrou-o pelo freio, e desceu para apanhar a flor! 

- Se não fosse ele, quem sabe o que sucederia. 

- O Sr. Guimarães deve apresentar-nos o seu amigo, não acha, papai? 

- Decerto! 

- Terei muito prazer. Encontrando-me com ele... ia respondendo o Guimarães. Atalhou porém o Dr. Nogueira: 

- A flor é naturalmente essa que a senhora tem no seio? 

- Sim, senhor, é esta mesmo. Veja papai, como é linda! 

- Muito! Quase que podias trazê-la como pingentes. 

- Boa idéia, papai! Vou mandar fazer uns brincos deste feitio. 

- Ficarão magníficos. 

- E há de ser moda! 

- Sr. Bastos, o senhor me há de fazer o favor?... disse a moça. 

- Com muito gosto, D. Guida! 

A flor corria de mão em mão; e teria se desfolhado afinal se a dona não reclamasse com instância para restituí-la à sua posição. 

- Guida anda apaixonada por essa flor, disse D. Clarinha. Há mais de um mês que me fala nela. 

- Será pela flor? Perguntou o Dr. Nogueira com um sorriso malicioso. 

Guida lançou-lhe um olhar, que era um alfinete embebido em aljôfar: 

- Não é pela flor, não. É pelo senhor. Pois não sabia? 

- Ah! se fosse, D. Guida, eu seria o homem o mais feliz do mundo, acredite! 

- Bravo, bravo! E então, D. Paulina? 

- Guida sempre foi muito apaixonada de flores, respondeu a senhora, aturdida por aqueles constantes diálogos que se cruzavam. 

A moça respondera à fineza do Dr. Nogueira, inclinando altivamente a fronte, e soltando um irônico – “obrigada!” Quando aplacou-se o rumor das risadas e exclamações provocadas pela declaração amorosa que, a título de fineza, lançara o Dr. Nogueira tão à queima-roupa, o Soares, ocupado em despachar conscienciosamente o lombinho de porco, pôde introduzir uma observação que lhe acudira. 

- Ande lá, Dr. Nogueira, creio que não é o senhor o único. Há mais quem pense da mesma maneira! 

- Decerto, disseram quase ao mesmo tempo o Guimarães e o Bastos, um enrubescendo, o outro empalidecendo. Talvez que outras exclamações mais submissas viessem aos lábios, e outros rumores mais tímidos subissem às faces; mas não se animaram a aparecer. Perderam-se nos aplausos com que foi recebida a observação do dono da casa.

- Está bom, disse a Guida, a quem o tema da conversação não agradava; ninguém quer saber disto agora, papai; mudemos de assunto. 

- Pois muda tu, que nisso de mudar, as mulheres estão no seu elemento.

- O que não é muito lisonjeiro para os homens. 

- Conforme. 

- Mas escute, papai. Estou resolvida a vender “Edgard”. Depois do que me fez hoje, não posso mais suportá-lo. Quer comprá-lo? 

- Não; eu cá, não deixo a minha mula paulista. Esses cavalos da moda, que vocês apreciam por serem muito grandes e muito caros, não me servem.

- Então compre para mamãe. 

- Pois não! Que lembrança! acudiu D. Paulina. 

- Nada. Contigo não quero negócio, replicou o Soares. Dizem por aí que sou um espertalhão; mas ainda está para ser a primeira vez que não me logres. 

- Qual, papai! exclamou Guida sorrindo. É o senhor que se engana a si mesmo; o pai logra o capitalista! - Muito bem! 

- Será isso então! replicou o Soares rindo com prazer. 

Acabara o almoço. Guida, com uma cortesia geral, deu o exemplo levantando-se da mesa. 

Ela exercia esse direito por uma delegação tácita da mãe, incapaz de tomar por si tão grave resolução. O Soares, que podia adverti-la com um sinal, estava inibido de o fazer. Se nos dias de trabalho o capitalista almoçava a vapor, nos domingos tinha saudades da mesa e custava a separar-se dela. 

 

VIII 

(continua...)

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