Por José de Alencar (1875)
— Quem lhe contou?
— Ninguém. Eu vi.
O Moirão escancarou os olhos espantado e benzeu-se outra vez. Não era êle dos mais supersticiosos, porém os modos estranhos do sertanejo naquela manhã despertavam em seu espírito as abusões da época.
IX – Puxão de orelha
Enquanto o Moirão esconjurava o espírito maligno, que via diante de si, na figura do rapaz, Arnaldo recolheu-se um instante.
Depois de curta reflexão tornou ao camarada com uma expressão afetuosa, que disfarçava a severidade do olhar:
— A gratidão?… repetiu Moirão com surpresa inquiridora.
— Antes de vir para Oiticica, você era agregado do coronel Fragoso na fazenda das Araras. Um dia o velho frenético deu-lhe dois berros; você assuou e respondeu rijo. Acode a gente, e lá ia o meu Aleixo Vargas para a golilha, quando felizmente apareceu o moço, filho do coronel, que o pediu por seu agregado e livrou-o da gargantilha de ferro e do resto. Mas o velho era emperrado e não consentiu que ficasse mais um instante em suas terras o atrevido que levantara a voz diante dele. Foi então que você apareceu na Oiticica sem dizer donde vinha, e entrou no serviço do capitão-mór.
— De quem soube isto, Arnaldo? perguntou o colono cuja surpresa aumentava.
— Amigo Aleixo, nascí e criei-me nestes gerais: as árvores das serras e das várzeas são minhas irmãs de leite; o que eu não vejo, elas me contam. Sei tudo quanto se passa embaixo dêste céu até onde chega o casco de meu campeão.
O sertanejo observou a impressão que deixavam suas palavras no semblante de Moirão, que não opôs a mínima denegação ou dúvida à estranha asseveração. Ao contrário, pareceu afirmar com uma inclinação da cabeça a crença em que estava de achar-se conversando com o diabo em pessoa.
Arnaldo prosseguiu:
— No Recife, oito dias depois de chegado, seguia você pelo atêrro dos Afogados, quando tomou-lhe o caminho um luzido cavalheiro. Era o capitão Marcos Fragoso, filho do velho coronel, o mesmo que tinha livrado da golilha a seu antigo acostado. Vinha êle de passar na Rua Nova pela casa do capitão-mór, onde vira ao balcão da janela D. Flor, cuja beleza o cativara. Sabendo que Aleixo era da casa, encomendou-lhe que nessa mesma tarde fosse ao Carmo, onde êle morava, para levar à donzela uma prenda com seus recados de amor.
Os olhos de Moirão, não tendo mais que abrir, começaram a esbugalhar.
— Que podia recusar Aleixo ao homem que o livrara da infâmia e talvez da morte?
— Da infâmia, atalhou Moirão vivamente, que a morte é uma topada: trás-zás e está numa pessoa descansada.
— Quanto era seu, Aleixo Vargas, podia e devia dá-lo ao capitão Marcos Fragoso, se o exigisse; mas não aquilo que não lhe pertencia. Era assoldadado do capitão-mór Campelo; seus serviços pertenciam a êle, e só a êle, que lhe pagava. Não tinha licença de empregar-se às ordens de outro e para faltar com o respeito à filha donzela de seu patrão.
Moirão ficou um momento aturdido com estas palavras e acabou fincando um murro conciencioso no meio da testa.
— Pascácio!
— Foi seu bom coração que o arrastou; mas arrependeu-se a tempo e quis salvá-lo. Você procurou o capitão Fragoso em sua morada e recebeu dele a prenda com o recado. Em chegando à casa faltou-lhe o ânimo; e não se admire que eu o atirasse ao chão, quando uma fraca menina o fazia tremer de maleita, a você, Aleixo, a quem chamam Moirão, e que nunca pestanejou na bôca de um bacamarte.
— Isso de mulher, não sei o que tem que dá arrepios na gente.
— Enquanto o capitão-mór se demorou no Recife, por mais que lhe pedisse o Fragoso e que você prometesse, não se animou. Tenho certeza, porque não o perdí de vista. Nunca reparou num grilo que o acompanhava para toda a parte? Era eu.
Proferiu o sertanejo estas palavras com um riso sarcástico, apontando para a árvore, junto da qual se achava o companheiro:
— Ei-lo aí!
Voltando-se, o minhoto deu um salto prodigioso para fugir do grilo, que saltara de seu lado. Uma avantesma, que lhe surgisse alí, diante dos olhos, envôlta em sua mortalha e com a competente cara de caveira, não lhe incutiria tão profundo terror.
Um tanto corrido do seu pânico, o Aleixo, vendo o grilo sumir-se entre a folhagem, disse ao sertanejo:
— Acabe de uma vez!
— No meio do caminho apertou-lhe a tentação, e daí veio a mofina que o aflige. Lembrese, porém, que você a procurou por suas mãos.
— Conte como foi! disse Moirão, com arrebatamento.
— Já não se recorda? perguntou Arnaldo estudando-lhe a fisionomia.
— Quero ouvir!
— É melhor esquecer.
— Não: diga o que sabe. Também viu?
— Tudo.
— Pois então repita, disse Moirão com a pertinácia de um mulo.
Os caracteres vingativos, quando sofrem alguma ofensa, em vez de afastarem o pensamento dessa recordação dolorosa, ao contrário revolvem-se nela e saturam-se de fel, como para exacerbar a própria ira e prelibar o prazer da vingança.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.