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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Irritou-se entretanto o Manuel com o oferecimento do chileno. Pareceu-lhe aquilo uma afronta igual à de pôr a preço uma pessoa de sua família, uma irmã. 

— Se lhe pesam seus patacos, pinche-os, que não faltará quem os apanhe, respondeu com tom ríspido. 

— Por pouco se escandaliza o amigo! disse o chileno sempre calmo e polido. 

— Até ver, senhor. 

Por volta da noite, chegou o gaúcho à pousada, de onde saíra havia quatro dias. O Perez já não o esperava mais, cuidando lá consigo que o homem levara a breca, arrebentado com a égua aí sobre algum barranco. 

Depois de bem agasalhada a Morena e o poldrinho, trouxeram um bom assado de couro com escaldado, que o Manuel comeu, escanchado na ponta do banco que lhe servia de mesa. 

Aí contou Canho ao Perez os incidentes de sua jornada pelo deserto, tais como eu fielmente os reproduzi. O que porventura parecer estranho, corre por conta do gaúcho, em cuja existência, aliás, havia muitas coisas, que não se compreendiam. 

— Caramba! exclamou Perez. Por uma noiva, e pelo pequerrucho que lhe ela desse, você não fazia mais do que pela égua e seu poldrinho. 

O Canho ficou no semblante do entrerriano os olhos surpresos. Estranho sorriso perpassou-lhe nos lábios. 

— Por uma mulher, nada! 

— Ai, que você está mordido, Canho! Alguma lhe fizeram. Essas raparigas são assim mesmo: gostam de moer a gente, como pimenta em almofariz. 

— A mim, não, que não lhes dou este gostinho. 

— Ora! 

— Acredite, se quiser; mas digo-lhe que nunca até hoje me bateu o coração por mulher; e desejo morrer assim. Não pode haver maior desgraça para um homem!

— Também isso é demais. 

— Eu as conheço. Gostam de todos, mas não podem viver para um só: se morre aquele a quem pertenciam, já não se lembram dele; e começam a querer bem a outro. Mas é só pelo gosto de terem um companheiro; não que elas sejam capazes de sacrificar-lhe tudo.

— Muitas são assim, não há dúvida. 

— Todas, Perez. Onde acha você uma rapariga capaz de fazer o mesmo que a baia? Porque eu salvei-lhe o filho, tornou-se cativa; e para me acompanhar e me servir deixou sua terra, suas amigas e sua liberdade. 

— Lá nesse ponto, também nós homens não nos podemos gabar. 

— Nem eu digo o contrário. Todos os amigos juntos não valem o Morzelo que foi de meu pai; mas os homens, ao menos, não enganam tanto! 

O Perez deu boa-noite ao Canho; e foram ambos se acomodar. O gaúcho, porém, não pôde pregar olho, durante muitas horas; o vôo sussurrante de um morcego, que adejava no pátio, o sobressaltou. 

Ergueu-se por vezes; foi ao pasto ver se a égua dormia, e se o poldrinho desprotegido era vítima do vampiro. Fazia um frio intenso; acendeu um pequeno fogo de ossos, porque não havia no campo outra lenha; mas só descansou quando pôde com a haste da lança abater o morcego. 

 

XIII 

A MALIGNA 

 

No dia seguinte o gaúcho estava de pé ao primeiro vislumbre da madrugada. Encilhou o Ruão e despedindo-se de Perez, se pôs a caminho.  

Três horas andadas, avistou uma casa sobre a esplanada da coxilha. Seu coração bateu com alvoroto. Ali morava o assassino de seu pai. Chegara enfim o dia, o momento da vingança esperada pacientemente. 

Quando o Canho, parada um instante, olhava a casa, passaram por ele duas pessoas a cavalo; um frade e um peão de cor preta. 

— Parece que o homem não escapa mesmo, padre. 

— Com o favor de Deus tudo é possível, filho; mas ele está muito mal. 

— Uma coisa tão de repente. Não há uma semana que fizemos juntos o rodeio.  

Canho sentiu-se inquieto. Pelo caminho que seguiam, os dois cavaleiros decerto vinham da casa. Seria o dono a pessoa, de cuja enfermidade eles falavam? 

Desceu o gaúcho o lançante da colina e aproximou-se vagarosamente da casa, espreitando-lhe a aparência, com receio de confirmar suas apreensões. No terreiro que havia em frente, brincava uma criança de 8 anos, cavando um buraco na terra com a cana partida de um velho freio.  

— Menino, o Barreda está em casa? 

— Meu pai?... Está sim. 

— Eu queria falar-lhe. 

— Mas ele está doente! 

— Ah! está doente! De quê? 

— De doença!... A gente tem chorado muito porque ele não escapa. Agora mesmo saiu o frade que veio para a confissão. 

Manuel pensativo não escutava a tagarelice do menino. 

— Diga-me; quando a gente morre, enterra-se numa cova assim, não é? tornou o menino apontando para o buraco aberto no chão. Mas este ainda está pequeno para o pai; é preciso cavar mais. Depois bota-se uma cruz, não é? 

— Pode-se ver seu pai? 

— Entre! 

A sala estava deserta; mas em um aposento contíguo, ouviam-se gemidos, prantos sufocados, e vozes abafadas. Era o quarto do enfermo. Chegando-se à porta, o gaúcho pôde ver o Barreda prostrado na cama e sucumbido a uma febre violentíssima. 

(continua...)

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