Por José de Alencar (1860)
Carolina – No meio de todas as minhas extravagâncias, de todos os meus prazeres, eu sentia uma pequena parte de mim mesma que nunca ficava satisfeita; chamei a isto minha alma, tive pena dela, fechei-a dentro dessa caixa, e disse-lhe que esperasse até um dia em que seria feliz. (Helena volta com a caixa)
Araújo – Ah! E esta?
Meneses – E de que maneira pretendes dar-lhe a felicidade?
Carolina – Não sei; mas como o dinheiro é tudo, fiz uma coisa; dividi o que eu tinha e o que viesse a ter com a minha alma. Voltava de uma ceia onde tinha me divertido muito; metia dentro desta caixa todo o dinheiro que possuía, para que o espírito tivesse um igual divertimento. As minhas jóias, depois de usadas uma vez, se escondiam aqui dentro; enfim a cada prazer que eu gozava, correspondia uma esperança que guardava.
Meneses (apontando para a caixa) – E quanto valerá hoje a tua alma?
Carolina – Não sei; o que entra aqui dentro é sagrado, não lhe toco nem lhe olho; tenho medo da tentação. Só abro esta caixa à noite, quando me deito.
Meneses – Pois deixa dar-te um conselho: põe a tua alma a juro no banco, e esquece-te dela. Há de servir-te na velhice. Ou então diverte-te!...
Carolina – Não; vou dá-la.
Araújo – A quem?
Carolina – A um homem que não me ama; e por causa do qual jurei que havia de ver todos os homens a meus pés, para vingar-me neles do desprezo de um. E sabem se cumpri meu juramento!...
Meneses – É talvez isto, Carolina, que faz de tua vida um fenômeno, que eu estudo com toda a curiosidade. Tu és um destes flagelos, não faças caso da palavra... um desses flagelos que a Providência às vezes lança sobre a humanidade para puni-la dos seus erros. Começaste punindo teus pais que te instruíram e te prenderam, mas não se lembraram da tua educação moral; leste muito romance mas nunca leste o teu coração. Puniste depois o Ribeiro que te seduziu, e o Pinheiro que te acabou de perder; ao primeiro que te roubou à tua família, deixaste uma filha sem mãe; ao segundo, que te enriqueceu, empobreceste. Só me resta ver como castigarás a ti mesma; se não me engano, tu acabas de revelar-me. Espero pelo tempo. Vamos, Araújo.
Carolina – O senhor veio fazer-me ficar triste.
Araújo – Virá depois de nós quem o alegre.
Carolina – Escute!... Não!...
Araújo – Arrependeu-se?
Carolina – Como está Luís?
Araújo – Não sei.
Carolina – Não tem visto?
Araújo – Ainda ontem.
Carolina – Ele lhe fala às vezes em mim?
Araújo – Nunca.
CENA VI (Carolina e Helena)
Carolina – Nunca!...
Helena – Estás falando só?
Carolina – Estava pensando em uma coisa... Ele não virá, Helena!
Helena – Por que razão?
Carolina – Ainda perguntas?
Helena – Não creias. Estou quase apostando que não tarda aí.
Carolina – Tu não conheces Luís.
Helena – Ora é boa! Conheço os homens, Carolina; para eles uma mulher é uma mulher, sobretudo quando é bonita.
Carolina –Terá recebido a carta?
Helena – O Vieirinha entregou-a em mão própria.
Carolina – O Vieirinha?... Não tinhas outra pessoa por quem mandar?...
Helena – Que tem que fosse ele?...
Carolina – Nada: é que me aborrece esse homem. Desejo nem vê-lo...
Helena – Tu bem sabes...
Carolina – Sei, mas não estou para suportá-lo. Entra na minha casa como se fosse dono dela; ontem fui achá-lo naquela sala a remexer na minha cômoda.
Helena – E faltou-te alguma coisa?
Carolina – Não; mas para que isso não torne a acontecer, previno-te que se queres continuar a morar consigo, deves descartar-te dele.
Helena – Não me animo a dizer-lhe...
Carolina – É um homem sem caráter!
Helena – Gosto dele, Carolina!
Carolina – Tens um gosto bem extravagante!
Helena – Confesso! Se tu soubesses o que tenho sofrido!...
Carolina – Porque queres.
Helena – É verdade; mas não sei que poder tem sobre mim, que não posso resistirlhe! Conheço que é um homem capaz de tudo; e, entretanto, Carolina, se ele vier pedir-me, como já tem feito muitas vezes, que venda um traste meu para desempenhar o seu relógio... Tu vais te rir?... Pois eu não lhe negarei!
Carolina – Não me rio, não, helena; ao contrário, tive uma idéia bem triste.
Helena – Que idéia?
Carolina – Será esse o fim da nossa vida? A mulher que perverte seu coração estará condenada a amar um dia algum homem ainda mais baixo do que ela?
Helena – E quem nos pode amar senão esses, Carolina?
Carolina – Mas isso não é amor! (Luís aparece na porta do fundo)
CENA VII
(As mesmas e Luís)
Helena – Sr. Viana!...
Carolina – Ah!...
Luís – Creio que entra-se aqui pagando!... (Tira da carteira uma cédula que deita sobre o aparador)
Carolina – Luís!...
Luís – Por este nome só me tratam os meus amigos e as pessoas que estimo.
Carolina – Não é preciso recorrer a estes meios para mostrar-me o seu desprezo; eu o sinto mesmo de longe e agora vejo-o mais no seu olhar do que nas suas palavras.
Luís – Que quer
de mim?...
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.