Por José de Alencar (1857)
Quando acabou de ler aquela carta, que sempre lhe arrancava lágrimas, sentiu-se com forças de resistir aos impulsos do coração; sentiu-se quase santificada pela evocação daquele martírio; e, ainda inquieta, esperou.
Pouco depois a pêndula vibrou uma pancada.
Carolina assustou-se e levou os olhos ao mostrador. A agulha marcava onze e meia horas.
A moça fez um esforço, ergueu-se rapidamente, entrou na sala e desceu ao jardim, ligeira e sutil como uma sombra. A alguma distância havia um berço feito de cedros, onde a treva era mais densa. Ai sentou-se.
À meia-noite em ponto o vulto apareceu e, guiado pelo vestido branco de Carolina, aproximou-se dela e sentou-se no mesmo banco de relva. Seguiu-se um longo momento de silêncio; o desconhecido não falava; o pudor emudecia a menina cândida e inocente.
Mas não era possível que esse silêncio e essa imobilidade continuassem; o desconhecido tomou as mãos de Carolina e apertou-as; as suas estavam tão frias que a moça sentiu gelar-se-lhe o sangue ao seu contato.
— A senhora me ama?
A voz do moço pronunciando essas palavras se tornara tão surda que perdera o metal para tornar-se apenas um sopro. A menina não respondeu.
— É o meu destino que eu lhe pergunto! murmurou ele.
Carolina venceu a timidez.
— Não sabe a minha história? disse ela.
— Sei.
— Então compreende que não posso, que não devo amar a ninguém mais neste mundo!
A moça sentiu que seu amante lhe cerrava as mãos com uma emoção extraordinária; teve pena dele e conheceu que não teria forças para consumar o sacrifício.
— Não me pode... não me deve amar... E por que razão me deixou conhecer uma esperança vã?
— Por quê?... balbuciou a menina.
— Sim, por quê?... Zombava de mim!
— Oh! não! Não pensava no que fazia. Era mais forte do que a minha vontade!
— Mas então me ama? É verdade? perguntou o desconhecido, com ansiedade.
— Não sei.
— Para que negá-lo?
— Pois sim! É verdade! Mas é impossível!
— Não compreendo.
— Escute: não estranhe o que lhe vou dizer, não me crimine pelo passo que dei. Fiz mal em vir aqui, em esperá-lo; mas tenho eu culpa?... Faltou-me o ânimo de recusar-lhe o que me pedira... E vim somente para suplicar-lhe...
— Suplicar-me?... o quê?
— Que se esqueça de mim, que me abandone!
— Importuno-a com a minha afeição?...
— Não diga isso!
— Seja indiferente a ela.
— Se eu pudesse...
— Não pode?. Então dê-me a felicidade.
— Se estivesse em mim!. Porém já lhe confessei; é impossível.
— Por que motivo?
— Eu devo... eu sinto que amo a meu marido.
— Morto?... — Sim.
Houve uma pausa.
— Parece-lhe ridículo esse sentimento; não e assim? Mas foi o primeiro, cuidei que seria o último. Deus não permitiu!. E por isso às vezes julgo que cometo um crime, aceitando uma outra afeição... Devo ser fiel à sua memória!.. Quem me diz que esse remorso não envenenará a minha existência, que a imagem dele não virá, constantemente colocar-se entre mim e aquele que me amar ainda neste mundo? Seríamos ambos desgraçados!
Um beijo cortou a palavra nos lábios de Carolina.
Momentos depois duas sombras resvalaram-se por entre as moitas do jardim e perderam-se no interior da casa. Tudo entrou de novo no silêncio.
Na manhã seguinte, às 9 horas, D. Maria e o senhor Almeida conversavam amigavelmente na sala de jantar, onde acabavam de servir o almoço.
O velho negociante, depois da entrevista com o filho de seu amigo, não se cabia de contente e viera preparar a mãe e a filha para mais tarde receberem a noticia inesperada, que era ainda um segredo, só conhecido de duas pessoas.
O assunto era melindroso e a sua habilidade comercial nada adiantava em negócios de coração; não sabia por onde começar. Nisto, D. Maria chamou sua filha.
— Vem almoçar, Carolina.
— Já vou, mamãe, respondeu a menina, do seu quarto, estou à espera de Jorge.
A pobre mãe julgou que sua filha tinha enlouquecido e ergueu-se precipitadamente para correr a ela.
Mas a porta abriu-se e Carolina entrou pelo braço de seu marido.
Desmaio, espanto, surpresa e alegria, passo por tudo isto, que a senhora imagina melhor do que eu posso descrever.
Depois do almoço, Jorge e sua mulher, passeando no jardim, pararam junto ao lugar onde haviam estado na véspera.
— Aqui!... disse a menina, sorrindo entre o rubor.
— Foi o meu segundo berço! replicou Jorge.
— Por que dizes berço?
— Porque nasci aqui para esta vida nova. Oh! tu não sabes!... Depois que reabilitei o nome de meu pai e o meu, ainda me faltava uma condição para voltar ao mundo.
— Qual era?
— A tua felicidade, o teu desejo. Se tivesses esquecido teu marido para amar-me sem remorso e sem escrúpulo, eu estava resolvido... a fugir-te para sempre!
— Mau!... se eu te deixasse de amar, não era para amar-te ainda?. Ah! Não terias ânimo de fugir-me.
— Também creio.
Jorge e sua mulher são hoje nossos vizinhos; têm uma fazenda perfeitamente montada. Para evitar a curiosidade importuna e indiscreta, haviam imediatamente abandonado a corte.
A boa D.Maria já está bastante velha. O senhor Almeida partiu há seis meses para a Europa, tendo feito o seu testamento, em que instituiu herdeiros os filhos de Jorge.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.