Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Silvia Pode ficar descansado.
Peregr.
Com certeza d. Corina não recebeu hoje carta, nem recado?...
Silvia Nem recado, nem carta.
Peregr.
Vai para a janela. (vai-se Silvia)
Firmino (saindo) Paga bem a essa criada: é o único meio de impedir que ela venda iguais serviços a outro.
Peregr.
Não terá tempo: amanhã será o dia afortunado, se minha madrasta não se opuser à partida de Corina.
Firmino Teodora abateu-se, coitada: parece castigar-se pela injusta difamação de Corina: já lhe perdoei; perdoa-lhe também: foi devaneio de mãe.
Peregr.
Aprova ela a retirada da sua pupila para a chácara de Andaraí?
Firmino Tanto ela como Corina concordaram nisso desde que souberam que a tia Suzana vai também para a chácara.
Peregr.
Eis o essencial: o mais é simples.
Firmino Peregrino, nós nos expomos a um grande opróbrio; que ao menos o resultado compense o escândalo.
Peregr.
Agora o meu empenho é salvar meu pai da mais leve suspeita de conivência comigo. Amanhã de manhã vossa mercê escreverá ao dr. André, marcando-lhe dia e hora para tratar do seu casamento com a sua pupila, a quem dará a agradável notícia; a retirada para a chácara explica-se pela conveniência de separar Corina de mim e de Carlos que pretendíamos a sua mão.
Firmino E que mais, Peregrino?...
Peregr.
Amanhã vossa mercê procurará o juiz dos órfãos que, sem dúvida, tomará todas as suas resoluções e principalmente aquela que fará distanciar de seus filhos a noiva do dr. André.
Firmino E à tarde levarei Corina e a tia Suzana para a chácara...
Peregr.
E Silvia e Roberto as acompanharão, ficando lá a seu serviço e em sua guarda...
Firmino E tu?...
Peregr.
A chácara é solitária, meu pai; as noites de junho são longas, e as que estão correndo agora, escuras e propícias aos ladrões e aos amantes: Silvia e Roberto me estão dedicados; o seu feitor é criatura minha, e tarde, bem tarde, vossa mercê saberá que um filho ingrato lhe roubou a pupila.
Firmino Peregrino!
Peregr.
Tenho tudo pronto, meu pai: o clorofórmio para o lenço que sufocará os gritos de Corina, e a tornará por minutos... insensível... a carruagem para fugir; o abrigo ermo e seguro para ocultarme por alguns dias...
Firmino Mas se ela morresse... se involuntariamente a matasses com a perigosa aplicação de clorofórmio...
Peregr.
Que receio inconseqüente!... Não vê que eu tenho necessidade de Corina viva?... Sei o que vou fazer.
Firmino Tu nem calculas com a desesperada resistência da vítima!...
Peregr.
Meu pai... amanhã à noite eu me despedirei, ressentido de vossa mercê, recusando o seu desamor e revoltando-me contra a sua autoridade: naturalmente o sr. Teófilo estará aqui, e será testemunha da minha desobediência e ingratidão: um filho tão mau... um filho que desacata seu pai...
Firmino Que queres dizer?...
Peregr.
Digo que tudo está calculado por mim, e que vossa mercê deve poupar-me às explicações. Eu vou ser opressor... algoz durante alguns dias para ser feliz, rico e esposo estremecido toda minha vida.
Firmino Oh, meu filho... deveras que planejamos um crime... sim... o mundo, porém, aí está erigindo altares ao ouro... a sociedade aí está honrando, purificando a riqueza ainda mesmo provinda de fontes turvas e lodosas... e escarnecendo da pobreza ou pelo menos, aviltando-a como o desvalimento do homem de honra que é pobre... Peregrino, o teu casamento lavará a nódoa... vou... não hesito mais... vai... mas lembra-te bem: nestes casos extremos há só um crime que é imperdoável...
Peregr.
Qual?
Firmino O malograr-se o atentado.
Peregr.
Posso contar com meu pai?...
Firmino Farei tudo por ti.
Peregr.
Corina será sua nora. (beija a mão de Firmino)
Firmino Julgas que desde hoje devo mostrar-me favorável ao dr. André?
Peregr.
Não, meu pai; só amanhã: é preciso não dar tempo nem aos assomos da esperança. (Silvia chega à frente e faz-se sentar, tossindo) Ah, chega minha madrasta: sairei sem que ela me veja. (vai-se)
Firmino Silvia! (aparece Silvia) A senhora já entrou?...
Silvia Entraram todos pelo jardim, onde passeiam.
Firmino Todos quem?
Silvia A senhora e seus filhos e o sr. Teófilo.
Firmino Ah!... Teófilo... vou encontrá-lo...
Cena 2ª
Silvia; Suzana e Corina
Suzana Já chegaram?... eu ouvi a voz de Júlia...
Silvia Estão no jardim.
Suzana Queres descer ao jardim, Corina?...
Corina Para que, tia Suzana?... Esperemo-los aqui...
Cena 3ª
Suzana: Corina: Teodora: Silvia que se retira
Teodora Tia Suzana! Adeus Corina: (tirando o chapéu e a manta) você guarda [sic] isto (a Silvia que vaise), passei pelo seu quarto, tia Suzana... (ansiosa)
Suzana Saímos dele agora mesmo...
Teod.
Escutam: tia Suzana, eu imponho segredo: se falar, me fará mal: Corina será discreta: é de seu interesse.
Corina Meu Deus! Teod. Resistam, oponham-se à partida para a chácara do Andaraí... não vão... resistam...
Suzana
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.