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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

e ainda assim... Oh! basta o primeiro passo na ladeira escorregadia das paixões!... imprudente, o homem conta demais consigo... cedendo a capricho insensato, ousa uma vez levar aos lábios a taça do vício... e a embriaguez lhe anula a vontade... deprava-lhe os sentidos... e o escravo do demônio, embalde o clamor da consciência, vai de rojo caminho de opróbrio e de condenação!

FÁBIO – Eu conheço mais de cinqüenta maridos que rir-se-iam muito da tua ingenuidade!

ADRIANO – Fábio!

FÁBIO – Tua paixão por Dionísia é talvez um favor da Providência, porque te arrancará ao frenesi do jogo que te arruinou. Trabalharás, e, com o concurso da minha amizade, hás de reerguer o teu crédito abalado no comércio. Não torna a jogar: tens muito que despender com Dionísia...

ADRIANO – Tens razão; mas jogarei esta noite pela última vez, Meu Deus!... se

eu ganhasse muito hoje!

FÁBIO – Adriano, cuidado! (Sussurro dentro.)

ADRIANO – Pesa-me sobre o coração o depósito de seis contos de réis que amanhã não poderei restituir.

FÁBIO – Pela terceira vez te asseguro que o usurário me prometeu a espera de um mês... é negócio concluído...

ADRIANO – Meu amigo, tu me salvas... e nem pensas do que me salvas.

FÁBIO – Vou jogar... se absolutamente queres também fazê-lo, vem.

ADRIANO – Vamos... até a meia-noite... ah! se eu ganhasse muito!... (Vão-se.)

UMA VOZ (Dentro.) – Eu jogo com as cartas viradas... cem mil réis na dama!

CINCINATO (Dentro.) – O dote é provocador; mas eu prefiro ficar solteiro.

CENA VI

DIONÍSIA e GERTRUDES

DIONÍSIA – Coitado! adora-me, como um cãozinho à sua dona! se o outro fosse bonito assim!... o Cincinato é feio que espanta; mas tem a carteira tão cheia que faz gosto ver!

GERTRUDES – E além da carteira tem quarenta casas de sobrado de dois andares para cima...

DIONÍSIA – Diabo do feio! Hei de ser um incêndio que lhe queimará em quarenta dias os quarenta sobrados. Há de me pagar caro o sacrifício do belo Adriano.

GERTRUDES – Esse é que é bom rapaz; já é porém um crivo de dívidas, é uma esteira velha de pobreza.

DIONÍSIA – Pois olhe mamãe, por mim não foi, comigo pouco despendeu:

cinco vestidos de seda, um colar de pérolas e outro de brilhantes, dois pares de brincos, e uma flor das mesmas pedras, duas pulseiras, este relógio de ouro, um toilette completo de veludo carmesim, um leque de madrepérola, e este pince-nez... creio que não passou daí... eu o amo tanto que trago de memória os seus presentes...

UMA VOZ (Dentro.) – Cinqüenta mil réis.

CINCINATO (Dentro.) – Agora sim; eu sou dez.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Cincinato joga por fora para pescar de caniço.

CINCINATO (Dentro.) – O pior é que muitas vezes vocês me comem a isca.

GERTRUDES – Cuidado com o Quebra-louça, Dionísia. Vê como ele é ladino...

DIONÍSIA – Está destinado a viver num inferno... começarei por obrigá-lo a convidar Adriano para cear conosco três ou quatro vezes por semana...

CENA VII

DIONÍSIA, GERTRUDES e BRÁULIO

BRÁULIO – A hora se aproxima... os dois carros já estão à porta. Dionísia, não nos deixes por mais de um mês... eu irei fazer as pazes contigo... tu voltarás.

DIONÍSIA – Desta vez com toda a certeza; porque vou-me com um homem tão feio, que é mesmo de obrigação reduzi-lo em pouco tempo a cambista de teatro.

BRÁULIO – Sangue frio e rapidez na execução da fuga: Fábio não nos atrapalha, porque conta com o negócio, mas Adriano está com os olhos no relógio...

DIONÍSIA – Coitadinho!

BRÁULIO – Dois minutos antes da meia-noite foge; acharás à porta da rua dois carros, sobe para aquele que é puxado por cavalos... olha, não te enganes.

DIONÍSIA – Bem: e depois?

BRÁULIO – O Cincinato, levando o rosto coberto com um lenço branco que é o sinal ajustado, subirá a assentar-se a teu lado... o carro partirá, e... adeus pombinhos!

feliz viagem, e boa noite.

DIONÍSIA – Com o diabo do feio!...

BRÁULIO – Que parvoíce! vai cantar, se quiseres: aposto! vamos.

GERTRUDES – Anda, afortunada rapariga! (Vai-se Bráulio para a esquerda.)

DIONÍSIA (Indo-se e cantando.) Batendo a linda plumagem

O amante passarinho

Exala ternos queixumes

Com saudades do seu ninho. (Vão-se pelo fundo.)

CENA VIII

CINCINATO e DEMÉTRIO – CINCINATO olha em torno cuidadoso.

DEMÉTRIO – Ora! quando o vento me soprava!... ganhei só trezentos e vinte mil réis.

CINCINATO – Tens, pois, quinhentos e vinte, e dou-te mais trezentos mil réis; levas dinheiro para oito dias de pagode rasgado: esta noite hotel ainda à minha custa, e amanhã sem falta segue com Dionísia para Petrópolis.

DEMÉTRIO – E se ela não quiser? ...

CINCINATO – Mostra-lhe a carteira e verás como ela aplaude o caso. Vai:

(continua...)

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