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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Inconquistável; todos o afirmaram, menos eu.

– Menos o senhor?!

– Sim, minha senhora; eu declarei que não havia mulher de quem algum homem se não pudesse fazer amado.

– E disse bem, porque eu amo meu marido.

– Perdoe-me; é que eu me não referia ao marido de V. Exa.

– Ah! senhor!... isso agora...

– Minha proposição foi geralmente combatida.

– Fizeram-me justiça.

– Mas eu fui por diante; sustentei quanto havia dito e jurei demonstrá-lo.

– E como, senhor?...

– Fazendo-me amado de V. Exa.

A senhora morena olhou espantada para o insolente que assim lhe falava e encontrou fitos em seu rosto dois olhares frios, mas impassíveis.

– Senhor!... disse ela com voz alterada.

– Jurei, prosseguiu o mancebo, que conseguiria isso hoje mesmo.

– É incrível tanta ousadia!...

– E que em sinal de minha vitória levaria no meu peito o cravo que está aí ornando o de V. Exa.

– Eu tenho pena do senhor, porque realmente me parece um pobre louco.

– Pena tenho eu de V. Exa., disse o mancebo apertando o braço da senhora. Porque eu hei de daqui a pouco aparecer com esse cravo no meu peito; e daqui a pouco V. Exa. há de na sala que deixamos, pelo menos, fingir-se dócil a meus cumprimentos e grata a meus extremos.

– Cometi uma imprudência em aceitar o braço de um fátuo que não conhecia, respondeu com nobre altivez a senhora; mas o senhor vai já levar-me a meu lugar, se não quiser ver retirar-me só, e dizer em voz alta que qualidade de homem se atreveu a oferecer-me o braço.

– Tanta fereza!...

– Senhor... tornemos à sala... aliás...

– Pois bem... V. Exa. ouvirá primeiro duas palavras, e depois... veremos.

----------------------------------------------------------------------------------- No fim de meia hora os dois entraram na primeira sala.

O cravo que ornava o peito da senhora, tinha passado para o do mancebo. Ele estava radiante; ela muito pálida.

Henrique quando viu o cravo rajado no peito do atrevido moço, deixou-se cair em uma cadeira, como fulminado por um raio.

Depois, passada uma hora, ergueu-se, e Carlos chegou-se a ele.

– Então, Henrique, pretendes ainda bater-te amanhã?...

– Não Carlos; mas parto para França no primeiro navio que der à vela.

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Esta cena ocorrera no meado do ano de 1843.

----------------------------------------------------------------------------------- A senhora morena que se havia tornado pálida, chamava-se Mariana. O nome do mancebo fátuo que se fizera radiante, era Salustiano.

CAPÍTULO VIII

O POBRE ENTRE RICOS

EM CONSEQÜÊNCIA das relações que com seus vizinhos entabulara inesperadamente, Cândido teve de modificar esse correr de vida a que se havia condenado. Se o emprego de seus dias era ainda como dantes todo votado ao trabalho, parte de algumas de suas noites já ele passava fora do velho sótão.

O convite de Anacleto não fora simples fórmula de civilidade. Duas noites depois da tarde em que os moradores do “Purgatório-trigueiro” fizeram sua visita de agradecimento à “Bela Órfã”, Cândido recebeu um bilhete de Mariana, no qual, da parte de seu pai, o convidava para passar algumas horas no “Céu cor-de-rosa”.

De então por diante, força foi repetir a miúdo essas noites de serão, porque, ou novos convites de Anacleto vinham lembrar-lhe e chamá-lo para esse gozo, ou Irias o instigava a ir procurar a sociedade de tão bons vizinhos, mais que tudo porque contava que assim se poderia melhor destruir aquela acerba melancolia de seu filho adotivo.

E Cândido, que parecia abandonar-se a uma como que obediência passiva; que sempre mostrava corresponder de má vontade aos convites de Anacleto; que nunca deixava de resistir às instigações da velha Irias; que quando transpunha o alpendre do “Céu cor-de-rosa”, parecendo querer desculpar-se ante sua própria consciência, dizia entre si “não é voluntariamente, é só por condescendência que aqui venho”; Cândido, se não tivesse até então receio de estudar a fundo o estado de seu coração, sentiria o como lhe palpitava açodado, ao ele subir a escadinha da habitação da “Bela Órfã”.

Cândido estava na situação daqueles que, tendo o espírito mergulhado na dúvida e o coração nadando na verdade, mentem a si mesmos sem querer... sem sentir.

E todavia os serões do “Céu cor-de-rosa” deviam agradar ao jovem melancólico. Ali não o podia turvar nem o peso de uma multidão ruidosa, nem o cansaço de uma vigília prolongada. Os convidados eram poucos, escolhidos, e sempre os mesmos; e à meia-noite todos se retiravam. Até à meia-noite conversavase, jogava-se, e quase sempre o domínio dos serões era exercido pela dança e pela música.

O papel de Cândido era contudo muito limitado nos serões do “Céu cor-derosa”. Ele nunca jogava; dançara à força uma ou outra vez, conversava quase sempre com Anacleto, e a respeito de música se desculpara como pouco entendedor da matéria.

(continua...)

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