Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
“Vendo pela minha educação, e por essa fraca instrução que eu tinha adquirido, que só um grande infortúnio me poderia ter obrigado a fazer-me soldado, perguntou pela minha família e pelo meu passado. Eu abaixei os olhos e guardei silêncio; o pai de Emília respeitou o meu segredo e deu-me a sua estima.
“Emília era bela, e eu sensível: nós nos amamos; a gratidão da sua família alimentou o nosso amor.
“Ao tempo coube fazer o resto.
“Em janeiro de 1842 já estava casado com Emília; pareceu-me que a fortuna começava a sorrir-se para mim...
“Era ilusão! a fortuna tinha apenas preparado um novo golpe para ferir-me no coração...
“Há dezoito meses que sou viúvo.
“Por conseqüência, meu tio, agora estou livre; podia voltar ao Rio de Janeiro; mas há alguma outra prisão, que não posso quebrar; é essa cena, que teve lugar na última hora que passei na casa de meus pais. Meu tio, a minha resolução é irrevogável.
“Por falta de um nome ilustre, na carência de tradições de antigos parentes, condes, marqueses, duques, ou elevados fidalgos, a nossa família, meu tio, alimenta o seu orgulho com a lembrança de certas qualidades, com a memória dum caráter forte e talvez extravagante, com que sempre se tem apresentado todos os que têm o sobrenome que eu tive.
“Quando algum dos meus antigos parentes se comprometia a alguma coisa, cumpria a promessa por força, quaisquer que fossem os sacrifícios a que devesse sujeitar-se.
“Um dos meus velhos avós, porque uma vez, em Lisboa, não viu o rei, que passava, e um soldado fez-lhe tirar o chapéu, tratando-o vilmente, jurou que nunca mais traria chapéu na cabeça, viveu ainda cinqüenta anos, e cumpriu à risca o juramento.
“Um outro, sendo levado à Inquisição para ser obrigado a descobrir um segredo que jurara guardar, cortou a língua com os dentes, temendo que as torturas o pudessem nalgum momento fazer esquecer a sua palavra.
“Uma das nossas antepassadas, porque seu filho mais velho se havia portado sem valor num encontro com os infiéis, tomada de vergonha, protestou que nunca mais sairia do seu quarto; só dez anos depois saiu pela primeira vez... num esquife para enterrar-se.
“Meu avô e meu pai deram exemplos da mesma vontade forte, da mesma força de caráter. “Porém, eles diziam que a árvore já de velha começava a perder o antigo viço; que em Vossa Mercê começara ela a definhar; e que eu não era mais que um fruto degenerado.
“Mas eu quero mostrar que, se não sigo em tudo os passos daqueles que me repeliram, acompanho-os, todavia, em alguma coisa; que se não tenho as velhas idéias, os velhos costumes, os velhos prejuízos que eles trouxeram do século passado e queriam fazer vigorar no século presente, herdei deles a mesma fortaleza de coração e firmeza de vontade.
“No meio de todas as extravagâncias, de que eu próprio acuso o meu gênio, sei tornar-me inabalável naquilo a que uma vez determino.
“Meu tio, eu jurei a mim próprio, e aqui o declaro a Vossa Mercê para o fazer presente à minha avó, à minha prima e à pobre Lúcia, declaro, digo, que cumprirei as ordens que recebi dos meus maiores, executarei as suas vontades, modificando-as apenas em um ponto para obedecer também a minha mãe.
“Assim meu avô disse: ‘Vai-te para sempre de meus olhos e’ se tens piedade de nós, muda teu nome, eu cumpri e cumprirei o que ele quis, pois nunca mais lhe apareci; e, se não mudei o meu nome, pelo menos até agora ainda ninguém me viu assinar o sobrenome que eu tinha de família.
“Minha avó disse: Torne-se em pedra o pão que comprares com o dinheiro pelo qual vendeste os brilhantes da cruz da família. O ladrão não me faça corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim... O meu pão não se tem tornado em pedra, porque o dinheiro com que o compro é ganho com o suor do meu rosto; mas cumprirei também a vontade de minha avó; enquanto ela não se convencer que eu fui vilmente caluniado, não terá, eu o juro, não terá de envergonhar-se, vendo-me diante dos seus olhos.
“Meu pai disse: Consuma o fogo todas as minhas riquezas, antes que tu possas tocar numa só moeda dos meus cofres. Não quero, portanto, um ceitil da herança que me deve tocar pela desgraçada morte de meu avô e de meu pai; cedo todos esses bens para dote de minha prima, e se Vossa Mercê os não quiser aceitar, divida-os com a minha boa Lúcia e os pobres. Quanto a mim, respeitarei a vontade de meu pai, não querendo nada das suas riquezas.
“E minha mãe disse: Vai, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar a tua inocência. Eis aqui enfim a ordem de minha mãe, que eu ainda não cumpri, mas espero cumpri-la toda inteira, sim, minha mãe! para ir, beijando a sepultura em que descansas, dizer às tuas cinzas — já tenho o rosto descoberto! já provei a minha inocência!
“Mas, enquanto a vontade de minha mãe não for executada à risca, não, nenhum daqueles que injustamente me condenaram me tornará a ver.
“Vossa Mercê, meu tio, que nessa hora de maldições estava também na sala, e não praguejou contra mim; porque hesitava... não hesitei, e creia que me caluniaram.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.