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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

E tirou do bolso e entregou a Agostinho uma carta.

O amante ciumento leu alto com admiração e ainda com maior surpresa:

"Feitiço: - Quero que venhas cear comigo em boa companhia; como porém não me é possível ir buscar-te, entendi-me com o meu amigo Belo Senhor, que vai receber-te às oito e meia horas da noite, levando cadeirinha para te conduzir. Podes confiar-te a ele, e vem sem falta; eu o exijo: é questão de honra! até logo, Feitiço. - Teu Gostinho." - E então? perguntou a atriz da casa da ópera.

- O mesmo tratamento que me dás, e que te dou!... e a minha letra!... porque é a minha letra... aminha assinatura.. é, juro que é; mas juro também que não escrevi esta carta! exclamou Agostinho Fuas.

- Oh! ceemos, Agostinho Fuas! disse o Belo Senhor.

Sentaram-se todos; mas imediatamente Manoel Gago chegou-se a Antônio Pereira, e entregoulhe a conta da ceia.

- Que diabo é isso?... que tenho eu com o rol e com a conta da ceia? disse Antônio Pereira.

Manoel Gago nem pode falar; mas, correndo a taberna, tirou da gaveta um papel e veio apresentá-lo a Antônio Pereira.

O papel dizia assim:

"Sr. Manoel Gago, a 20 de julho de 1783 quero que às 9 horas da noite precisas tenha pronta e servida à mesa para 20 pessoas ceia constante dos pratos e vinhos seguintes... (estendia-se o rol): não olhe as despesas; quero, porém, que, logo ao começar a ceia, me apresente a conta diante de todos, é caso de aposta. - Seu freguês, Antônio Pereira."

O papel correu pela mão de todos, e todos deram testemunho de que a letra e a assinatura eram de Antônio Pereira, que puxou pela bolsa e pagou a ceia a rir alegremente, dizendo aos amigos:

- Tal e qual como Agostinho Fuas!... reconheço por minhas a letra e assinatura... não há questão... mas leve-me o demo, se eu escrevi e assinei isso!...

O Belo Senhor ceava gulosamente e sem falar.

Mas antes das dez horas entraram na saleta um alfaiate e um ourives, que, desfazendo-se em desculpas, e protestando que se mostravam ali só por obediência às ordens escritas e positivas, entregaram o primeiro a Domingos Lopo a conta de uma casaca do mais fino pano e o segundo a Afonso Martinho a de primorosas fivelas de ouro, que também por ordem escrita e assinada um tinha feito e o outro entregado ao Belo Senhor; sob a condição de cobrança realizada naquela noite e àquela hora na taberna de Manoel Gago, e durante a ceia que ali se daria.

O ourives e o alfaiate, fregueses dos dois ricos tafuis, tinham obedecido ao extravagante capricho de mancebos notáveis por devaneios e originalidades travessas de juventude, e, além disso, seus fregueses de maiores despesas e do mais pronto pagamento.

Afonso Martinho e Domingos Lopo riram-se ainda mais do que Antônio Pereira, e todos com eles verificaram, depois de acurado exame, que era impossível negar a letra das ordens e as assinaturas dos dois pagantes da casaca de pano fino e das fivelas de ouro do Belo Senhor.

E Domingos Lopo e Afonso Martinho pagaram ao som dos aplausos da companhia ao alfaiate e ao ourives.

Tanto eles como Antônio Pereira podiam negar-se aos pagamentos que fizeram; eram porém cavalheiros amigos do Belo Senhor, e julgaram de bom-gosto dar-se por vencidos pela habilidade caligráfica daquele, a quem aliás tinham provocado com as suas zombarias.

O Belo Senhor foi o herói da ceia que se prolongou até a meia-noite.

A essa hora, e ao dissolver-se a reunião, o Belo Senhor ainda zombeteiro perguntou a Agostinho Fuas:

- Queres que eu me encarregue de acompanhar a tua bela Rosa ao seu jardim?...

Rosinha Feitiço fez um momo a indicar negativa.

- Não, respondeu Agostinho Fuas, quero porém que saiamos juntos.

E saíram.

A pequena distância da taberna de Manoel Gago, e vendo-se livre de ouvidos indiscretos, Agostinho Fuas deixou o braço de Rosinha, a quem conduzia, e, afastando-se dela alguns passos com o Belo Senhor; apertou as mãos deste e disse-lhe em voz muito baixa:

- Belo Senhor! gosto de ti e vou dar-te boa prova disso.

- Que é?...

- Lembra-te sempre do conselho de Fuas, na Rua do Ouvidor!...

- Mas... enfim!.. falas tão sério!...

- Desdenha e perde a tua admirável e extraordinária perfeição imitativa da escrita e daassinatura alheias.

- Ah!... o que fiz hoje...

- O que fizeste hoje foi simples, mas lamentável brinquedo com amigos, e mais tarde o quepoderás fazer será crime. Lembra-te!

E Agostinho Fuas voltou a tomar o braço da bonita atriz da casa da ópera.

O Belo Senhor ficou parado e quase triste.

E mais tarde lembrou-se muito, e lembrou-se em dias sinistros - do conselho de Fuas na Rua do Ouvidor.

Provavelmente hei de ter ocasião de lembrar também a sabedoria do conselho de Agostinho Fuas, dando, embora de passagem, notícia de lamentável crime, e de adversa fortuna à que a maravilhosa habilidade caligráfica levou o Belo Senhor, já infelizmente corrompido.

CAPÍTULO 7

(continua...)

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