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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Henrique — Salve-nos, meu tio! Quem nos reconciliou, quem nos animou com suaves esperanças, deve salvar-nos.

Anastácio — E hei de salvá-los. Não saí de Minas para assistir ao casamento de minha sobrinha com o comendador Pereira.

Leonina — Que hei de fazer...ensine-me?...

Anastácio — Resiste.

Leonina — Mas eu já dei o meu consentimento à minha mãe...

Anastácio — Resiste.

Henrique — Ainda é tempo, vá retirar a sua palavra.

Leonina — É tarde!...ei-los aí...(Anastácio e Henrique põem as máscaras).

Henrique — Lembre-se do nosso amor, minha prima.

Leonina — Oh! e meu pai?...e meu pai?

Anastácio — Resiste. (Vão-se Anastácio e Henrique)

CENA XI

Leonina, Maurício, Hortênsia, Pereira, Fabiana, Frederico, Filipa, Reinaldo e Lúcia.

Reinaldo — Festa sublime e inimitável! Mas foi o diabo; apesar do meu disfarce conheceram-me logo pelo arreganho militar.

Pereira (À parte) — Se eu fosse ministro da guerra havia de reformar este coronel em cabo de esquadra; tenho-lhe um ódio!

Lúcia — Só o senhor Maurício e a Dona Hortênsia sabem dar bailes com tanta riqueza e tão apurado gosto.

Leonina (À parte) — Como meu pai está sofrendo!...o meu pobre pai!...

Hortênsia — O esplendor da nossa festa é todo devido ao brilhante concurso que nos veio honrar...

Pereira — E eu sou o mais ditoso entre todos os que vieram a ela.

Fabiana — Bem o merece, se o é; porém Dona Hortênsia chamou-nos ao jardim com um ar de mistério que me vai dando que pensar.

Hortênsia — Escolhi os nossos mais diletos amigos, para que fossem eles os primeiros a quem eu tivesse o prazer de participar que o senhor comendador Pereira fez-nos a honra de pedir Leonina em casamento, e que esta correspondeu como devia a tão notável distinção, aceitando ufanosa a felicidade que o céu lhe destinou.

Vozes Parabéns! Parabéns!

Pereira — Falta-me só receber a confirmação da minha dita da própria boca da formosa noiva...

Maurício — Um momento...devo dizer ainda uma palavra a Leonina; perdão...é o último conselho de um pai. (Leva Leonina para um lado; Hortênsia toma o outro lado da filha, ficando um pouco para trás). Minha filha, eu corri há pouco para impedir uma promessa fatal, e cheguei tarde; agora, porém, o momento é supremo; o teu sacrifício não impediria o meu infortúnio...

Hortênsia (À Leonina) — O comendador jurou-me que salvaria teu pai, Leonina!

Maurício (À Leonina) — No meio das maiores desgraças, a tua felicidade seria para mim a única e a mais doce consolação...

Hortênsia (À Leonina) — E amanhã a vergonha e a desonra...

Maurício (À Leonina) — Consentir neste sacrifício fora um verdadeiro crime; minha filha...não ousas falar...falo eu...

Hortênsia (Suspendendo Maurício) — E o estelionato, Maurício!...Salva teu pai, Leonina!

Leonina (À parte) — Oh!oh!...é muito! Eu não posso mais; meu Deus! Eu cumprirei o meu dever. (A Pereira) Senhor...comendador...serei...sua...ah! (Desmaia).

Maurício — Minha filha!

Hortênsia — Leonina...Ela torna a si...foi a emoção...o excesso de prazer...

Reinaldo (À parte) — Aquela conversa e este desmaio não podem ser de bom agouro para o noivo.

Pereira — Minha senhora, eu vou dever-lhe a felicidade da minha vida...

Leonina — Senhor...

Maurício (À parte) — Sou eu que sacrifico a pobre vítima!

Fabiana — Poupemos o pudor da noiva; é uma impiedade martirizá-la assim. (A

Frederico) Vai tudo às mil maravilhas para nós.

Frederico (À Fabiana) — Só um estúpido como o comendador deixaria de compreender o que se está passando.

Filipa — Não esqueçamos o baile: senhor comendador, Dona Leonina ainda não é sua; pertence-nos durante esta noite; voltemos ao baile; eu estou louca por encontrar de novo o dominó preto; já viram o famoso dominó preto?...

Pereira — Dizem-me que tem intrigado a todos; mas eu ainda não o vi, nem ouvi.

Lúcia — Nem eu, e ardo em desejos...

CENA XII

Os precedentes e Anastácio.

Anastácio — Pois ei-lo aqui, senhores!

Vozes — Oh! ainda bem! Ainda bem!...

Frederico — Todos estamos sem máscara; tira também a tua.

Anastácio — Ainda me assiste o direito de conservá-la no rosto.

Hortênsia — Sem dúvida,e pelo menos até a hora da ceia.

Frederico — Desse modo é fácil exercer uma certa superioridade; porque conheces a nós todos, e ninguém ainda pôde descobrir quem sejas.

Anastácio — Tanto melhor para mim; mas quem vos disse que vos achais sem máscaras?...engano, senhores, todos estais mascarados!... Reinaldo — Excelente! Excelente!

Pereira — Pois tira-nos as máscaras, dominó pretensioso.

Anastácio — Vós o quereis?...

Vozes — Sim! Sim!...

Filipa — É um máscara singular! Quando todos falam em falsete, ele conversa em baixo profundo!

Anastácio — Então aí vai: Maurício, a placidez do teu rosto é uma máscara; tu tens na alma o desespero. Também não te devias chamar Maurício, porque o nome que te cabe é a — Fraqueza.

Maurício — Oh!...

Vozes Impagável! Impagável!

(continua...)

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