Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
— Eles mandarão procurar, sem dúvida...
— E, não o achando, esquecer-se-ão disso.
— E os breves?... Nós os guardaremos?...
— O velho disse que sim. Para que será isto?...
— Disse que é para nos casarmos quando formos grandes.
— Pois então nós os guardaremos.
— Oh! Eu o prometo.
— Eu o juro.
Neste momento soou ave-maria.
— Tão tarde! exclamou a menina…minha mãe ralhará comigo!
E, dizendo isto, correu, esquecendo-se até de despedir-se de mim. Esse fatal descuido acabava de entristecer-me, quando ela, já de longe, voltou-se para onde eu estava e, mostrando-me o breve branco, gritou:
— Eu o guardarei!
Pela minha parte entendi dever dar-lhe igual resposta, e, pois, mostrei-lhe o meu breve verde e gritei-lhe também:
— Eu o guardarei!
Aqui parou Augusto para respirar, tão cansado estava com a longa narração; porém ergueu-se logo, ouvindo à entrada da gruta.
— Alguém nos escuta! disse ele.
— Foi talvez uma ilusão! respondeu a digna hóspeda.
— Não, minha senhora; eu ouvi distintamente a bulha que faz uma pessoa que corre, tornou Augusto dirigindo-se à entrada da gruta e observando em derredor dela.
— Então?... perguntou a sra. d. Ana.
— Enganei-me, na verdade.
— Mas vê alguma pessoa?...
— Apenas lá vejo sua bela neta, a sra. d. Carolina, pensativa e recostada à Efígie da Esperança.
CAPÍTULO VIII
Augusto prosseguindo
A avó de Filipe quis tomar, por sua vez, a palavra; porém o estudante lhe fez ver que ainda muito faltava para o fim de suas histórias, e voltando de novo ao seu lugar, continuou:
— O acontecimento que acabo de relatar, minha senhora, produziu vivíssima impressão no meu espírito; ajudado por minha memória de menino de treze anos, apenas entrei em casa escrevi, palavra por palavra, quanto me havia acontecido. isto me tirou o trabalho de mentir, porque adormecendo sobre o papel que acabava de escrever, meu pai o leu à sua vontade e soube o destino do camafeu, sem precisar que eu lhe dissesse. Ele ainda estava junto de mim quando despertei, exclamando: o meu breve!… o velho!... minha mulher!...
Anda, doidinho, disse-me meu pai com bondade; eu te perdôo as novas loucuras, em louvor da ação que praticaste, socorrendo um velho enfermo; agora, guarda, eu to peço, e mesmo to mando, guarda melhor esse breve do que guardaste o camafeu.
E isto dizendo, deixou-me.
Não se falou mais neste acontecimento; soube que o velho morrera no dia seguinte e que no momento da agonia abençoara de novo a minha camarada e a mim.
Meu pai fez todas as despesas do enterro do velho e socorreu a sua desgraçada família.
Eu nunca mais vi, nem tive notícia alguma da minha interessante camarada, mas nem por isso a esqueci, minha senhora... porque, ou seja que meu coração a tivesse amado deveras, ou que esse breve tivesse alguma coisa de encantador, o certo é que eu ainda hoje me lembro com saudades dessa criança tão travessa, porém tão bela. Sem saber seu nome, pois nem lho perguntei, nem ela mo disse, quando quero falar a seu respeito, digo sempre: a minha mulher! Riem-se... não me importa: eu não posso dizer de outro modo.
Sempre com sua imagem na minha alma, com seu engraçado sorriso diante de meus olhos, com suas sonoras palavras soando a meus ouvidos, passei cinco anos pensando nela de dia, e com ela sonhando de noite; era uma loucura, mas que havia eu de fazer?... Cheguei assim aos meus dezoito anos.
Eu já era, pois, mancebo. Meus pais nada poupavam para me educar convenientemente, e eu aprendia quanto me vinha à cabeça; diziam que a minha voz era sonora, e por tal convidavam-me para cantar em elegantes sociedades; julgavam que eu dançava com graça e lá ia eu para os bailes; finalmente, como cheguei a fazer algumas quadras, pediam-me recitar sonetos em dias de anos, e assim introduziram-me em mil reuniões, onde as belezas formigavam e os amores eram dardejados por brilhantes olhos de todas as cores.
Além disto freqüentava as casas de meus companheiros de estudos e os ouvia contar proezas de paixões, triunfos e derrotas amorosas. Meu amor-próprio se despertou, e tive vontade de amar e ser amado.
Julguei esta minha determinação ainda mais justa, pois tendo ido passar certas férias na roça, e falando mil vezes no meu breve e em minha mulher, ouvi minha mãe dizer uma vez, cru que me julgava longe:
— Temo que esse breve tire o juízo àquele menino; talvez que nos seja preciso casá-lo cedo.
Portanto, para não ouvir somente, mas também para contar alguma vitória de amor, para não endoidecer por causa do breve e, finalmente, para não ser necessário à minha mãe casar-me cedo, determinei-me a amar.
— Esqueceu-se, por conseqüência, de sua mulher e do seu breve! perguntou a sra. d. Ana, interrompendo Augusto.
— Ao contrário, minha senhora, tornou este; foi essa minha resolução que me tornou mais firme e mais amante de minha mulher.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.