Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)
Na Capitania de São Vicente sendo capitão Jorge Ferreira aconteceu darem os contrários em uma aldêa que estava não mui longe dos Portugueses e neste assalto matarem um filho do principal da mesma aldêa. E porque ele era benquisto e amado de todos não havia pessoa nela que não pranteasse, mostrando com lagrimas e palavras máguadas o sentimento de sua morte. Mas o Pai, como corrido e afrontado de não haver ainda neste caso tomado vingança, pediu a todos com eficácia que se o amavam dissimulassem a perda de seu filho, e que per nenhuma via o quisessem chorar. Passados tres ou quatro meses, depois da morte do filho, mandou aperceber sua gente como convinha, por lhe parecer aquele tempo mais favorável e acomodado a seu propósito, o que todos logo cozeram em efeito. E dali a poucos dias deram consigo na terra dos contrários, que seria distancia de tres jornadas pouco mais ou menos, onde fizeram suas ciladas junto da aldêa em parte que mais podessem ofender a seus inimigos; e tanto que anoiteceu o mesmo principal se apartou da companhia com dez ou doze frecheiros escolhidos de que ele mais se confiava, e com eles entrou na mesma aldêa dos inimigos, que o haviam ofendido, e deixando-os á parte, só, sem outra pessoa o seguir, começou de rodear uma casa e outra, espreitando com muita cautela, de maneira que não fosse sentido, e da pratica que eles tinham uns com outros veio a conhecer pela noticia do nome qual era, e onde estava o que havia morto seu filho, e para se acabar de satisfazer, chegou-se da banda de fora á sua estancia, e como foi bem certificado de ele ser aquele, deixou-se ali estar lançado em terra esperando que se aquietasse a gente, e tanto que viu horas acomodadas para fazer a sua, rompeu a palma mui mansamente de que a casa estava coberta, e entrando foi-se direito ao matador, ao qual cortou logo a cabeça em breve espaço com um cutelo, que para isso levava. Feito isto tomou-a nas mãos e saiu-se fora a seu salvo, os inimigos que neste tempo acordaram ao reboliço e estrondo do morto conhecendo serem contrários, começaram de os seguir. Mas como seus companheiros que ele havia deixado em guarda estavam prontos ao sair da casa, mataram muitos deles, e assim se foram defendendo até chegarem ás ciladas donde todos saíram com ímpeto contra os que os seguiam e aí mataram muitos mais. E com esta victoria se vieram recolhendo para sua terra com muito prazer e contentamento. E o principal que consigo trazia a cabeça do inimigo chegando á sua aldêa a primeira cousa que fez foi-se ao meio do terreiro da aldêa, e ali a fixou num pau á vista de todos dizendo estas palavras: agora, companheiros e amigos meus, que eu tenho vingado a morte de meu filho, e trazida a cabeça do que o matou diante vossos olhos, vos dou licença que o choreis muito embora, que dantes com mais razão me podereis a mi chorar, em quanto vos parecia que por algum descuido dilatava esta vingança, ou que por ventura esquecido de tão grande ofensa já não pretendia toma-la, sendo eu aquele a quem mais devia tocar o sentimento de sua morte. Dali por diante foi sempre este principal mui temido e ficou seu nome afamado por toda aquela terra.
Outro caso de não menos admiração aconteceu entre Porto-Seguro, e o Espírito Santo, naquelas guerras onde mataram Fernão deSá, filho de Men de Sá, que então era Governador geral destas partes. E foi que tendo os Portugueses rendida uma aldêa com favor dalguns Índios nossos amigos, que tinham de sua parte, chegaram a uma casa para fazerem presa aos inimigos, como já tinham feito em cada uma das outras. Mas eles deliberados a morrer, não consentiram que nenhum entrasse dentro: e os de fora vendo sua determinação, e que por nem uma via se queriam entregar, disseram-lhes que se logo á hora o não faziam, és haviam de pôr fogo á casa sem nenhuma remissão. E vendo os nossos que com eles não aproveitava este desengano, antes se punham de dentro em determinação de matar quantos podessem, és puseram fogo: e estando a casa assim ardendo o principal deles vendo que já não tinham nenhum remedio de salvação nem de vingança e que todos começavam de arder, remeteu de dentro com grande fúria a outro principal dos contrários, que passava por defronte da porta da banda de fora e de tal maneira o abarcou que sem se poder livrar de suas mãos, o meteu consigo em casa, e no mesmo instante se lançou com ele na fogueira, onde arderam ambos com os mais que lá estavam, sem escapar nenhum.
Neste mesmo tempo e lugar, deu um Português uma tão grande cutilada a um Índio, que quase o cortou pelo meio: o qual caindo no chão já como morto antes que acabasse de espirar lançou a mão a uma palha que achou diante de si, e a tirou com ela ao que o matara, como que dissera: recebe-me a vontade, que te não posso mais fazer que isto que te faço em sinal de vingança, donde verdadeiramente se pode inferir que outra nenhuma cousa os atormente mais na hora da sua morte que a mágoa que levam de se não poderem vingar de seus inimigos.
CAPÍTULO XII - Da morte que dão aos cativos e crueldades que suão com eles.
Uma das cousas em que estes Índios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens, é nas grandes e excessivas crueldades que executam em qualquer pessoa que podem haver ás mãos, como não seja de seu rebanho. Porque não tão somente lhe dam cruel morte em tempo que mais livres e desimpedidos estão de toda a paixão; mas ainda depois disso, por se acabarem de satisfazer lhe comem todos a carne usando nesta parte de cruezas tão diabólicas, que ainda nelas excedem aos brutos animais que não tem uso de razão nem foram nascidos para obrar clemência.
Primeiramente quando tomam algum contrario se logo naquele fragrante o não matam levam-no a suas terras para que mais a seu sabor se possam todos vingar dele. E tanto que a gente da aldêa tem noticia que eles trazem o tal cativo, daí lhe vão fazendo um caminho até obra de meia légua pouco mais ou menos onde o esperam. Ao qual em chegando recebem todos com grandes afrontas e vitupérios tangendo-lhe umas fraturas que costumam fazer das canas das pernas doutros contrários semelhantes que matam da mesma maneira E como entram na aldêa depois de assim andarem com ele triunfando de uma parte para outra lançam-lhe ao pescoço uma corda de algodão, que para isso tem feita, a qual é mui grossa, quanto naquela parte que o abrange, e tecida ou enlaçada de maneira que ninguém a pode abrir nem cerrar senão é o mesmo oficial que a faz. Esta corda tem duas pontas compridas per onde o tão de noite para não fugir. Dali o metem numa casa, e junto da estancia daquele que o cativou lhe armam uma rede, e tanto que nela se lança cessão todos os agravos sem haver mais pessoa que lhe faça nenhuma ofensa. E a primeira cousa que logo lhe apresentam é uma moça, a mais fermosa e honrada que ha na aldêa, a qual lhe dam por mulher: e daí por diante ela tem cargo de lhe dar de comer e de o guardar, e assim não vai nunca para parte que o não acompanhe.
(continua...)
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Lisboa: Oficina de António Gonçalves, 1576. Disponível em domínio público em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17411. Acesso em: 26 nov. 2025.