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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Com o pé direito, entrou Ângelo novamente no Recife, porque dentro de pouco tempo teve clientes, e entreviu no futuro castelos esplêndidos. Nos primeiros meses, depois de sua chegada, ganhou uma causa importante, de cuja defesa o incumbira a generosidade de um colega. Ângelo, mostrando as notas do Banco, que recebera em pagamento, dizia à D. Rosalina estas palavras:

— Matei o dragão, minha tia! Vou agora tomar conta do pomar das Hespérides.

Tal era Ângelo no começo desta história.

Morava também na estrada, para lá da Conceiçãozinha (nome com que designam a capela os habitantes dos arredores), um moço que fora colega de Ângelo nos preparatórios. Circunstâncias particulares tinham apartado Martins da carreira das letras. Casara-se, indo morar naquele canto, onde uma pequena indústria, que exercia, lhe dera meios para viver com sua mulher e filhos. Mas, como os hábitos que se casam com as vocações naturais dificilmente se perdem, Martins, com ser agora pai de família e homem de negócios, não esquecia as musas, que quando estudante cultivara com freqüência e fervor. Não podendo tratar de letras e versos todos os dias, instituíra, para trazer sempre alentado o fogo do antigo culto, uma espécie de retiro literário aos domingos em sua casa. Os suaves momentos que se passavam na aprazível estrada; as distintas prendas que, com o engenho poético, Martins tivera em dote de natureza e a educação aumentara e polira; as graças, as virtudes, o gênio essencialmente serviçal e hospitaleiro de D. Eugênia, sua mulher; a convivência íntima, nas condições de respeitosa, mas franca e fraternal cordialidade, que constituíam a base principal do retiro literário dava a esta diversão semanal tão particulares atrativos que dos escolhidos para tomarem parte nele, raros eram os que se poderiam acusar de inobservantes do primeiro precito da comunhão - a pontualidade.

Sem as donzelas das vizinhanças, elegantes criaturas que são os gênios protetores daquele encantado ermo, que sorte teria o retiro literário, com ser atrativo por outras muitas circunstâncias? A mesma que entre nós tem dado sepultura a inumeráveis associações depois e alguns meses de fundadas. Aquela inspiração, porém, preveniu a ruína da companhia. Não era esta numerosa, mas distinta. Durante a reunião, serviam-se frutas da estação, que abundavam no sítio; raras vezes se davam a beber bebidas espirituosas. Depois das discussões, sempre em família, ou das leituras, ou das frutas, tocava-se piano; algumas vezes, cantava-se. Quase sempre o ajuntamento acabava em passeios que se prolongavam até as estradas de João Fernandes, Vieira e de Belém, as quais em seus mimos naturais se aproximavam da de João de Barros.

CAPÍTULO II

Um domingo em que a estrada como se adivinhasse a importância especial do dia amanhecera arreada com suas mais belas e frescas louçanias, recebeu Ângelo, ainda na cama, um bilhete de Martins:

Eis o que escrevera este:

“Não há hoje retiro, mas peço-te que não faltes por cosa nenhuma. Temos mangabas excelentes, mangas insignes, e para o jantar feijoada sem rival.

Melhor será que venhas passar o dia conosco, principiando pelo almoço.

Não quero ocultar-te uma circunstância que talvez ignores. Eugênia faz anos.”

A casa de Martins nunca oferecera aos que costumavam freqüentá-la tão grata hospitalidade.

Nesse dia, a casa oferecia ainda melhores aconchegos e comodidades do que nos outros, sem contudo ostentar custosas galas. Havia profusão de flores e frutos pelas mesas. O piano surgia dentre moitas de alecrim, habilmente formadas e entrelaçadas com ramos de pitangueira e resedá. Grinaldas de madressilva, em que se entremeavam rosas, pendiam das janelas e das portas. Um salgueiro que ficava na entrada da casa, e junto do qual era costume reunir-se ao anoitecer, nos dias de reunião, a alegre companhia, este mostrava-se enastrado, em todo o diâmetro da copa, de saudades, malmequeres e malva-rosa. Tudo isto era obra das mãos de Martins, para ser agradável à sua mulher, providência daquele remediado e feliz lar.

Mas não era nos arranjos quase gratuitos da mesa que primava, no feliz aniversário de D. Eugênia, a encantadora vivenda da estrada; a sua primazia estava na sociedade que, sem ser numerosa, brilhava aí, mais do que nunca, pelo talento, pelas graças e pela suave elegância, compatível com o campo.

Entre as gentis senhoras que eram presentes, quando Ângelo entrou na sala, apontavam-se D. Maurícia e sua filha D. Virgínia, as quais tinham chegado de Caxangá. D. Maurícia era irmã mais moça de D. Eugênia, e tão querida desta que, divertimento em que a caçula não entrasse, não tinha sabor para a primogênita, por mais alto que estivesse ele na ordem de tais manjares. Procedendo deste modo, D. Eugênia não era senão justa, porque na irmã se encontraram reunidos superiores dotes cuja descrição, pelo menor, demandaria largas páginas.

De há muito desejava Ângelo conhecer de perto este portento, que ele de longe admirava. Todavia nunca o seu desejo pudera ser satisfeito, pelas circunstâncias da vida de D. Maurícia, das quais informaremos o leitor, pelo maior, oportunamente.

Martins apressou-se a apresentar o amigo à cunhada.

(continua...)

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