Por Franklin Távora (1878)
Todos tinham os pés nus, e quase todos por cima do cós das ceroulas o longo cinto de fio, cofre portátil onde traziam o dinheiro, terminando em cordões com bolotas nas pontas, os quais serviam para dar muitas voltas em torno da cintura antes do laço final. Metida entre o cinto e o cós guardava cada um sua faca de ponta presa pela orelha da bainha. Da arma só aparecia o cabo, figurando a cabeça de uma serpente que tinha o restante do corpo oculto.
Já era noite, e dentro do rancho lançava crepuscular claridade o candeeiro de azeite, que pendia, por uma corda corrediça, de um dos caibros da coberta.
Alguns dos rancheiros estavam com as mangas arregaçadas como se foram prestes para entrar em pugilato de vida e morte.
E de feito não era de outro gênero o mister ou a luta que os ajuntara ali, uns de pé, outros inclinados sobre a barriga, todos com as vistas concentradas na superfície do fardo, onde uma taboa se pusera para servir de base a dois braços diferentes que nesse momento se alçaram e logo após se uniram pelas mãos, ficando firmes sobre os cotovelos. Um dos pegadores da queda-de-braço chamava-se Manoel Francisco; o outro era o Victorino. A queda-de-braço era já nesse tempo em grande uso entre os almocreves do norte.
Manoel Francisco era acaboclado, feio, baixo, grosso e reforçado; Victorino procedia de mulata e mameluco, era seco,, nervoso e de semblante bem assombrado.
- Sustenta o motivo, Mané Francisco, senão Victorino te lambe – disse um dos circunstantes, quando viu os braços inimigos se entesarem e ouviu o fardo ranger aos primeiros ensaios das duas forças que se experimentavam e mediam para uma grande luta, posto que dentro de acanhada arena.
- Este braço que estão vendo – respondeu Manoel Francisco – tem botado abaixo enquanto o inimigo esfrega um olho, muito curema rebingudo das ribeiras do Ceará e do Piauí.
- Agora é que havemos de ver ele para quanto presta, e se tudo isto o que você está dizendo não passa de uma história, retorquiu Victorino. Quando quiser cair, diga.
- Se você é homem, mostre agora o seu talento – replicou Manoel Francisco, retesando o braço, como quem queria entrar sem detença no momento decisivo. Pegaram-se definitivamente os dois atletas.
O braço de Manoel Francisco dava dois do de Victorino; mas a resistência que encontrou neste, fez que não passasse nem uma linha da posição em que de principio se colocara. Eram duas pirâmides pétreas, imóveis, inabaláveis, uma talhada para competir com a outra na rijeza e na resistência.
A queda-de-braço tem graça justamente quando os lutadores medem forças iguais. Dá-se então o que é natural de pleitos idênticos. Dividem-se as opiniões sobre a probabilidades da vitoria. Uns, levando em conta as condições físicas dos combatentes, não hesitam em decretar, para o que lhes parece mais favorecido de tais circunstancias, as honras da peleja; outros publicam que essas honras hão de caber, não a este mas àquele contendor, autorizados por precedentes ou por outros muitos elementos de indução e convicção. Fora da arena dos pelejadores reais, forma-se uma arena em que começam de porfiar os assistentes á pugna, discutindo, altercando, apostando cada qual pelo que supõe ter por se mais probabilidades para o vencimento.
Foi o que se deu no rancho logo depois de se terem colocado defronte um do outro, ficando o fardo de permeio, o Victorino e o Manoel Francisco.
Ao cabo de alguns minutos, que bastaram a trazer os contendores cobertos de suor pelo esforço despendido, e antes deste pelo brio empenhado no jogo de honra, disse um dos rancheiros:
- Já você está sabendo, Mané Francisco, que o Victorino não é quem você julgava.
Ora que tem isso? retrucou o que se achava mais próximo do que acabava de falar. Ha de cair como os outros; não há santos que o acudam.
- Deixe-se disso, Renovato, deixe-se disso. Você não vê que ambos eles são dois cabras de talento?
Sim, é verdade; mas você não dá o desconto. Olhe que Mané Francisco já tinha pegado com Damião e Thomaz, e a todos botou por terra.
- Ele me botou, é verdade – acudiu Thomaz despeitado; mas de outra feita talvez não tenha a mesma felicidade. Olhe como o braço já lhe está tremendo, batido por Victorino.
- Aquilo é um peneirado que ele sabe.
- Sustenta o motivo, Mané Francisco – gritou Damião ao que minutos antes o tinha derribado.
- A coisa está feia. O que cair para a aguardente.
- E o rancho. - Está dito.
Caiu, caiu, Mané Francisco! Gritaram neste ponto muitas vozes, formando uma algazarra imensa, que repercutiu fora do alpendre.
- Ainda não, ainda não – retorquiram outros no mesmo diapasão.
- Não foi mais do que uma negaça. Vejam lá como se levanta.
De feito o caboclo, depois de derreado quase inteiramente o braço, o levantara lentamente até á altura em que se achavam no começo da luta: mas dai não passou.
- Quem vence? perguntou um, logo que viu novamente restabelecidas a indecisão e a duvida.
Nenhum vence – respondeu Francisco. Está visto que Mané Francisco e Victorino têm as forças iguais.
- Não, senhor. É preciso ir até ao fim. Um deles há de poder com o outro.
- Não, não; disseram alguns da opinião de Francisco. Têm as forças iguais, está acabado.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.