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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- E então? Como é que sinhazinha há de ir sem sua negra? Quem é que há de lhe lavar e engomar os vestidos, pentear seu cabelo, e fazer o mais preciso? Sinhazinha cuida que há de perder festa; só se me amarrarem. . . já estou velha: é preciso aproveitar o meu tempo.

- Hás de ir, Joana, não tenhas cuidado, não posso passar sem ti. . . A festa dizem que vai ser muito arrojada; temos de lá ficar uns oito dias. Há cavalhadas, Joana.

- Cavalhadas! Ainda mais isso! Que bom! E eu que sou doida por cavalhadas! Não pode haver brinquedo mais bonito. Há quanto tempo não há disso por aqui! Esta terra já não é o que era dantes. No meu tempo, ah! Sinhazinha! Se Vmcê visse! Que bonitas cavalhadas não se corriam aqui e no Araxá! Era um gosto! Hoje isto já não presta para nada. Que é dos corredores de fama que então havia? Já morreu tudo. Agora isso há de ser alguma coisa à-toa.

- Estás enganada, Joana, estas vão ser muito boas. Aquele moço que aqui passou outro dia, não te lembras? Aquele moço alto, de cabelo preto e anelado. . .

- Ah! Já sei. . . O Sr Elias, aquele moço de Uberaba. . .

- Isso mesmo, Joana; ele também vai correr, e pediu a meu pai o cavalo rosilho.

- Oh! Aquele sim, que bonito cavaleiro não há de ser! É um mocetão sacudido e muito bem parecido.

- Não achas, Joana, que é um moço bem bonito? Eu também gostei muito dele.

- É um figurão, e parece ser muito boa pessoa. É pena ser tão pobre.

- Quem te disse que ele é pobre? Você o conhece?

- Eu não; mas está se vendo, sinhazinha; nem um pajem, nem um camarada. . . ele só com seu cachorro, sua espingarda e sua mala na garupa. . . então gente rica anda assim?

- Ora, isso não quer dizer nada; há muita gente rica que anda assim por gosto.

- Não creia nisso, minha sinhá; está-se vendo que ele é mesmo pobre. Quem sabe se mesmo o cavalo em que anda não é emprestado!

- Arre lá! Joana – replicou a moça com um sorriso que não disfarçava o seu enfado. -também que nos importa que ele seja pobre ou rico; entretanto eu duvido que nessas cavalhadas apareça um cavaleiro mais bem feito e mais bonito.

- Ah! Sinhazinha! Está me parecendo que Vmcê. Ficou. . . não quero falar. . . não; Deus me defenda.

- Ficou o quê? . . . Joana; fala. . .

- Sinhazinha, não fica zangada com sua negra?

- Não, podes falar sem susto.

- Ficou mordida. . .

-mordida! Não entendo.

- Pois se não entende, melhor; e calo minha boca!

A escrava com quem Lúcia entretinha esta conversação era uma crioula algum tanto idosa, mas esperta, viva e palradeira: boa e fiel escrava, muito estimada de seus senhores e especialmente de Lúcia, a quem na infância tinha amamentado. As últimas palavras que dirigiu à moça foram proferidas com certa intenção, ao mesmo tempo que fitava nela um olhar malicioso. A moça compreendeu, corou e sorriu levemente, e tratou de desviar a conversa daquele assunto.

-mas, Joana, eu tenho muita costura que fazer de amanhã em Dante, tu e a Paula hão de me ajudar, se é que querem ir à festa.

A estas palavras, as quatro ou cinco raparigas que ali se achavam também ocupadas na lavagem de roupa, acudiram a um tempo, a garrular como uma chusma de periquitos.

- E eu também estou aí, sinhazinha. Paula não é capaz de engomar melhor do que eu; sinhazinha há de me levar, não é assim?

- E a mim também, sinhazinha, há que tempos que eu não vou à vila.

- Cala-te; você ainda outro dia foi a desobriga, e eu fiquei; agora é que eu devo ir, sinhazinha.

- E eu então? Vocês todas têm ido à vila este ano, e eu, pobre de mim, ainda nem para ouvir uma missa.

Lúcia via-se zonza no meio daquela algazarra de pedidos importunos que choviam sobre ela a um tempo a atordoarlhe os ouvidos, como um bando de maritatacas.

- Pelo que vejo, vai a não ficar ninguém em casa! Hão de ir aquelas que for possível. Havemos de ver isso depois. Por agora tratem de seu serviço e não estejam a me aborrecer.

Estas palavras, a que Lúcia então procurava dar um tom severo, não produziram senão um efeito passageiro. A tagarelagem e as importunações continuaram na mesma, daí a pouco, e não teriam fim, se o sol que se ia escondendo atrás das colinas não viesse avisar que era tempo de se recolherem.

As negras trataram de arrumar a roupa em gamelas e balaios, que puseram na cabeça; Lúcia tomou em um dos braços seu balainho de costura, deu a mão à sua irmãzinha, e todo aquele alegre e interessante grupo a um de fundo foi desaparecendo por entre o laranjal.

Daí a pouco ouvia-se a sineta da casa chamando a família e os escravos para a reza da Ave-maria, e ao som dessa reza, dos últimos cantos do galo e dos gorjeios do sabiá, enviando à tarde um derradeiro adeus, a paz e a benção do céu desciam nas asas cinzentas do crepúsculo sobre aquelas tranqüilas solidões.

Lúcia tinha dezoito anos; seus cabelos eram da cor do jacarandá brunido, seus olhos também eram assim, castanhos bem escuros. Este tipo, que não é muito comum, dá uma graça e suavidade indefinível à fisionomia.

Sua tez era o meio termo entre o alvo e o moreno, que é a meu ver, a mais amável de todas as cores. Suas feições, ainda que não eram de irrepreensível regularidade, eram indicadas por linhas suaves e harmoniosas. Era bem feita, e de alta e garbosa estatura.

(continua...)

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