Por Fernando Fidelix Nunes (2026)
Também me parece que algo do meu modo de trabalhar as palavras ressoa com autores da psicanálise com os quais me identifico. São autores que ressaltam o que se cria entre, a dessaturação da linguagem, um estado de receptividade ativa e presença, assim como o cultivo do espanto, partindo do não-saber. Penso que eles conversam profundamente com a poesia e aparecem em mim, tanto na posição de psicanalista quanto de poeta. Inclusive, noto que a noção de “cesura” dentro da psicanálise atravessa a escrita dos poemas no livro. Enquanto conceito psicanalítico, a cesura aponta para uma espécie de fissura, um espaço com funções de separação e de contato, zona de travessia que implica em mudanças e transformações. Assim, essa concepção de cesura estava dentro de mim na escrita dos poemas. Ela participou de suas construções, seja como tema, seja como busca por operar melodias que abrissem para essa sensação de ruptura e continuidade em concomitância, assim como de fazer brotar leituras e possibilidades polifônicas dentro dos versos – novos nascimentos.
Fernando Fidelix Nunes: O conjunto de poemas que constituem “povoemas” (páginas 97 a 111), que ganha destaque no título da obra, constrói metáforas potentes a partir do ovo sobre a vida e o ato de produzir poesia, inclusive com alguns poemas em forma de aforismos (“o ovo é a véspera da forma”, “o ovo é a névoa do tempo”, “o ovo é o dom da perda” e “o ovo é a partida”). Como você acha que o ato de escrever se mistura com o ato de viver?
Nadja Rodrigues de Oliveira: Me parece que a escrita acontece porque há a vida, essa experiência que, ao mesmo tempo, nos excede e também não basta. Estamos a todo instante sendo afetados pelo ambiente, pelo corpo, pelas nossas fantasias, pelas pulsões, pelo nosso desejo de criar o mundo e pelas castrações que o mundo opera em nós. Lembro da Cecília Meireles quando diz que “a vida só é possível reinventada”. Acredito que escrever é um modo de criar e recriar a vida. De abrir outras possibilidades de suportá-la e de construir novos suportes para ela acontecer. Narrar uma experiência é transformá-la. É produzir um desdobramento onde os acontecimentos podem ganhar novos modos de caber e também dar possibilidades àquilo que não parece caber na vida. A palavra encadeia a vida à própria vida, ou talvez abra as tantas vidas latentes na própria vida. O gesto da escrita, ao ter o mundo de fora como destinatário, traz ainda mais questões. Escrever me parece ser um campo onde a criatividade se articula à frustração, assim como onde a palavra ganha de fato vida própria. O texto é um terceiro, fruto do encontro entre quem escreve e (no mínimo) um suporte externo, que fixa e dá corpo a uma nova existência. Também acho que escrever é uma espécie de sacrifício em nome do plantio. Requer saber perder como aposta em seguir, deixar algo de si cair para semear outras possibilidades. E isso tudo me parece ser o trabalho da vida. A vida e a escrita são, em grande medida, trabalhos de luto.
Fernando Fidelix Nunes: O seu livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos de 2025. Você percebeu algum aumento na repercussão da sua obra? Acredita que essa indicação pode impulsionar as suas futuras produções artísticas?
Nadja Rodrigues de Oliveira: A indicação do livro como semifinalista do Oceanos foi uma surpresa muito bonita, um acontecimento que ainda me abisma. Guardo essa experiência como um presente comovente que o livro ganhou. Ao mesmo tempo, não notei um aumento na repercussão dele de modo rápido ou volumoso. Me chamou a atenção, por exemplo, como outros estados noticiaram seus autores contemplados na semifinal do Oceanos, mas não o DF – ainda que eu tenha enviado um release aos principais veículos da cidade. Contudo, venho notando que, ao longo desses meses subsequentes ao prêmio, o livro vem alcançando alguns novos leitores, o que me parece efeito da sua classificação no Oceanos. Além disso, tivemos a alegria de realizar um evento literário aqui em Brasília com outras poetas que foram semifinalistas, dentre elas a Ana Maria Vasconcelos, que veio a ganhar o prêmio. O evento ocorreu na Platô a partir do convite das sócias da livraria, as parceiras Mariana Andersen e Marília Santos, o que foi um gesto bonito de apoio e valorização desse feito. Foi um encontro muito especial e fértil, uma bela repercussão da classificação no Oceanos. Sobre o fato do livro ter sido semifinalista impulsionar produções futuras, acho difícil dizer. Contudo, acredito que ter esse reconhecimento do livro favoreça um pouco mais o acesso a possibilidades de publicação de novas obras. Espero descobrir em breve.
Fernando Fidelix Nunes: Quais são os seus próximos projetos artísticos que quebrarão a casca do ovo?
(continua...)