Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
A Moreninha, estréia em livro, de Macedo, saiu dos prelos em 1844, e O Moço Loiro no ano seguinte, 1845, e em ambos a ação é sempre “atual”, isto é, decorre no próprio tempo em que eles se publicaram. De modo idêntico, a ação de Os Quatro Pontos Cardeais e de A Misteriosa se passa na mesma época da sua publicação em 1871. O material que vamos examinar se refere, por conseguinte, ao período compreendido mais ou menos entre 1840 e 1870. Esta discriminação de datas tem importância, evidentemente, porque nos permite acompanhar as transformações operadas em certos hábitos e aspectos da cidade, e bem assim a repercussão de certos acontecimentos sobre a sociedade fluminense de então. Naturalmente, o Rio de Janeiro de 1870 já não é o mesmo de 1840, como este já não é também o Rio de antes da Independência, aquele pandemônio de acampamento assinalado por Spix e Martius. A capital do Império é um centro político, econômico e intelectual em pleno desenvolvimento, e a sua fisionomia social vai se transformando paralelamente.
A rica D. Maria do Sargento de Milícias andava de “ca
deirinha”; já os personagens de O Moço Loiro andam de “ônibus”,
democraticamente; e logo no início d’A Misteriosa vemos a Sílfide saltar de um
“bonde” na rua Gonçalves Dias, ainda mais democraticamente. No tempo de A
Moreninha, os sinos davam ainda o sinal de recolher às 10 horas da noite, coisa
incompreensível no tempo de A Misteriosa, com a cidade iluminada a gás.
Comparem-se as modas femininas; Macedo é sempre muito minucioso neste
particular. Uma das moças que aparecem na A Moreninha quase nem podia
sentar-se, tão atrapalhada se achava com a “coleção de saias, saiotes, vestidos
de baixo, e enorme variedade de enchimentos”, que lhe cobriam o corpo. A jovem
Honorina, de O Moço Loiro, comparece a um baile, e os seus requintes de
elegância deslumbram o romancista, que a observa dos pés à cabeça: “dois largos
bandós de lindos cabelos negros desciam até dois dedos abaixo das orelhas e
para trás se voltavam, indo suas extremidades perder-se por entre longas tranças
de perfeitíssimo trabalho, que se enroscavam terminando em cesta; uma grinalda
de flores brancas salteadas de pequeninos botões de rosa se entretecia nesse
belo tecido de madeixas; duas rosetas de brilhantes pendiam de suas orelhas;
nenhum enfeite, nenhum adorno ousara cair sobre seu colo que, nu, alvejava,
arredondado, virginal e puro; um vestido de finíssimo blonde, que deixava
transparecer o branco cetim que cobria o corpinho todo talhado em estreitas
pregas, que desenhavam elegantes formas, era debruado por uma longa fila de
flores semelhantes às dos cabelos, as quais ainda se deixavam de novo ver
formando uma cercadura em que acabavam as mangas curtas, justas, e singelas;
esse vestido cruelmente comprido para esconder dois pequenos pés calçando
sapatinhos de cetim, se terminava por uma simples barra bordada de branco; no
braço esquerdo da moça fulgia um bracelete de riquíssimos brilhantes; e enfim
suas mãos calçavam luvas de pelica branca, guarnecidas de arminho e com borlas
de seda frouxa.” Legítima descrição de crônica... Agora, a desconhecida de A
Misteriosa, em passeio pela cidade: “A Sílfide trazia à cabeça, pela frente, a
quarta parte de um chapelinho azul claro do qual vinham quase beijar-lhe a
fronte meia dúzia de margaridas, tão pendentes que pareciam estar dizendo
‘colhe-nos ou caímos!’ – e por detrás, uma enchente de anéis de ouro, uma cauda
de fios de ouro encaraco lados, que lhe descia pelas espáduas brancas a fazer
lembrar pó de arroz.” O vestido da misteriosa dama era muito complicado, afirma
o romancista, e acrescenta: “tenho-o impresso na imaginação a perseguir-me como
fantasma sinistro; mas não me é possível explicar de modo claro aquele
labirinto ornamentoso, em que me perdi; sei que havia vestido de caxemira
duplo, e cada qual de sua cor, e túnica ainda de outra cor, primeira saia com
folhos e franzidos de canudos, segunda saia de apanhados com cordões e borlas,
e além disso, vieses aqui, franjas ali, cabeças de passamanes acolá, o azul, o
encarnado, o preto, a misturarem-se... e um maldito corpinho afogado e as
mangas compridas a me esconderem o que eu desejava ver...” Remate do vestido:
“cinto de fita grossa com fivela grande, de aço.” E é precisamente sobre a moda
feminina reinante em 1871 que o novelista borda umas considerações
moralizantes, em que aponta a “escola filosófica do sensualismo” como
responsável pelos vestidos de saia arregaçada mostrando o pé, e prevê coisas
muito piores, pois a exibição dos pés até o tornozelo é ainda uma incompleta
vitória da filosofia sensualista, “que firmará o seu triunfo absoluto, quando
as senhoras, obedecendo ao império de nova moda, se mostrarem com o rosto sem
véu, e as pernas à mostra ao menos até à altura dos joelhos”. Vemos hoje que a
negra revisão do romancista se realizou de maneira cabal, com o mais absoluto
triunfo daquela escola filosófica.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.