Por José de Alencar (1853)
Assim, apezar de seus trinta e tres annos, que são puericia para uma villa, quanto mais para uma cidade, já ostentava o Rio de Janeiro o luxo e os vicios que sómente se encontram nas velhas cidades, cortezãs eméritas.
Eram numerosas as casas de tavolagem; e n'ellas, como hoje em dia nos alcaçares, tripudiava a mocidade perdularia, que esbanjava o patrimonio da família ao correr dos dados, ou com festas e banquetes a que presidia a deusa de Cythera.
Entre essa mocidade estouvada, primava pelas extravagancias, como pela galhardia de cavalheiro, um mancebo de dezoito annos, Ayres de Lucena.
Filho de um sargento-mór de batalha, de quem herdára dois annos antes abastados haveres, se atirára á vida de dissipação, dando de mão á profissão de maritimo, a que o destinára o pai e o adextrára desde criança em sua fragata.
Nos dois annos decorridos foi Ayres heróe de todas as aventuras da cidade de S. Sebastião.
Ao jogo os maiores pareos eram sempre os seus; e ganhava-os ou perdia-os com igual serenidade, para não dizer indiferença.
Amores, ninguem os tinha mais arrojados, mais ardentes, e tambem mais voluveis e inconstantes; dizia-se d'elle que não amava a mesma mulher tres dias seguidos, embora viesse no decurso de muito tempo a amal-a aquelle numero de vezes.
Ao cabo dos dois annos achava-se o cavalheiro arruinado, na bolsa e na alma ; tinha-as ambas vazias : estava pobre e gasto.
Uma noite metteu na algibeira um punhado de joias e pedrarias que lhe restavam de melhores tempos, e foi-se á casa de um usurario. Apenas escapou a cadeia de ouro, que tinha ao pescoço e de que não se apercebeu.
Com o dinheiro que obteve do judeu se dirigiu á tavolagem resolvido a decidir de seu des tino. Ou ganharia para refazer a perdida abastança, ou empenharia na ultima cartada os destroços de um patrimonio e uma vida malbarateados.
Perdeu.
Toda a noite passára-a na febre do jogo; ao arraiar da alvorada, sabia da espelunca e caminhando á tôa foi ter á Ribeira do Carmo.
Levava-o ali o desejo de beber a fresca viração do mar, e tambem a vaga esperança de encontrar um meio de acabar com a existencia.
N'aquelle tempo não se usavam os estupidos suicidios que estão hoje em voga : ninguém se matava com morphina ou massa de phosphoro, nem descarregava em si um revólver.
Puxava-seum desafio ou entrava-se em alguma empreza arriscada, com o firme proposito de dar cabo de si; e morria-se combatendo como era timbre de cavalheiro.
III
A BALANDRA
Embora expulsos das terras da Guanabara, e destruida a nascente colonia, não desistiram os francezes do intento de se assenhorearem de novo da magnifica bahia, onde outrora campeára o forte Coligny.
Esperando azo de tentar a empreza, continuavam no trafego do páu-brasil, que vinham carregar em Cabo-Frio, onde o trocavam com os Índios por avellorios, utensís de ferro e mantas listradas.
Havia n'aquella paragem uma especie de feitoria dos francezes, que facilitava esse contrabando, e mantinha a antiga alliança dos tamoyos com os guaraciabas, ou guerreiros de cabellos do sol.
A metropole incommodava-se com a audacia d'esses corsarios, que chegaram algumas vezes a penetrar pela bahia a dentro e bombardear o coração da cidade.
Bem longe porém de prover de um modo efficaz á defensão de suas colonias, tinha por systema deixar-lhes esse encargo, apezar de estar constantemente a sugar-lhe o melhor da seiva em subsidios e fintas de toda a casta.
Baldos de meios para expurgarem a costa da cafila de piratas, os governadores do Rio de Janeiro, de tempos em tempos, quandp crescia a audacia dos pichelingues a ponto de ameaçarem os estabelecimentos portuguezes, arranjavam com os minguados recursos da terra alguma expedição, que sahia a desalojar os francezes.
Mas estes voltavam, trazidos pela cubiça, e apoz elles os flamengos e os inglezes, que tambem queriam seu quinhão e o tomavam sem a menor ceremonia, arrebatando a presa ao que não tinha forças para disputal-a.
Felizmente a necessidade da defeza e o incentivo do ganho tinham despertado tambem o genio aventureiro dos colonos. Muitos maritimos armaram-se para o corso, e empregaram-se por conta propria no cruzeiro da costa.
Fazendo presa nos navios estrangeiros, sobre-tudo quando tomavam para Europa, os corsarios portuguezes lucravam não sómente a carregação do páu-brasil, que vendiam no Rio de Janeiro ou Bahia, mas além d'isso vingavam os brios luzitanos, adquirindo nenome pelas façanhas que obravam.
Precisamente ao tempo d'esta chronica, andavam os mares do Rio de Janeiro muito infestados pelos piratas; e havia na ribeira de S. Sebastião a maior actividade em se armarem navios para o corso, e municiarem os que já estavam n'esse mister.
Uma lembrança vaga d'esta circumstancia fluctuava no espirito de Ayres, embotado pela noite de insomnia.
Afagava-o a esperança de achar algum navio a sahir mar em
fóra contra os piratas; e estava resolvido a embarcar-se n'elle para morrer
dignamente, como filho que era de um sargento-mór de batalha.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.