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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Entretanto, quem observasse a vida íntima dessa moça, conheceria o fundo de sensibilidade e ternura que havia sob aquela aparência frívola e risonha. Não só tinha amor extremoso à família e dedicação pelas amigos, mas em certos momentos, como se a afogasse uma exuberância do coração, cobria a mãe de carinhos.

Alguma vez, nas horas de repouso, quando a imaginação vagueia pelo azul, ela fazia também como todas as moças o seu romance; com a diferença, porém, que o das outras era esperança de futuro, ardente aspiração d´ alma; enquanto o seu não passava de sonho fugace, ou simples devaneio do espírito.

Um traço singular destas cismas é que elas faziam contraste ao modo habitual da moça, ao seu gênio. Essa natureza alegre e expansiva, esse coração incrédulo e desdenhoso, quando fantasiava os seus idílios, reservava sempre para si a melancolia, a abnegação e o obscuro martírio de uma paixão infeliz.

Seria um pressentimento? Creio eu que não era senão uma antítese natural da imaginação com o espírito. É muito freqüente encontrarem-se caracteres joviais que têm o sentimento elegíaco, e ao contrário, misantropos com uma veia cômica inexaurível.

Capítulo 2

Na chácara contígua à do Sr. Veiga, pelo lado esquerdo, morava um desses homens que o povo designa com o nome de esquisitos.

Os amigos o chamavam Carlos; os estranhos tratavam-no por Sr. Hermano; ele, porém, costumava assinar-se H. de Aguiar.

Para merecer do vulgo a qualificação de esquisito, basta às vezes sair da trilha batida; mas o Sr. Hermano tinha com efeito hábitos e ações que excitavam o reparo e lhe davam certo cunho de originalidade.

Não se lhe conhecia profissão; sabia-se entretanto que era abastado, pois além da chácara de sua residência, possuía apólices e prédios na cidade.

Sua casa vivia constantemente fechada na frente, e tinha o aspecto de uma morada em vacância pela ausência do dono. Quem olhava pela grade do portão, sempre trancado, não descobria outro indício de habitação a não ser o fumo da chaminé.

Todavia nas raras vezes em que soava a grossa campa da entrada, aparecia logo um velho criado, todo vestido de preto, que introduzia a visita com uma cortesia respeitosa, mas fria e taciturna.

O dono da casa costumava ir à cidade três vezes na semana, para tratar de seus negócios, ou talvez para não se isolar totalmente do mundo, de que já vivia tão apartado. Também saía de passeio, a pé ou a cavalo, pelos arrabaldes.

Certas ocasiões mostrava-se afável, polido, atencioso e expansivo, retribuindo os cumprimentos que recebia, e dirigindo-os às pessoas de seu conhecimento. Era então um modelo do homem de boa sociedade e fina educação.

Outros dias estava de tal modo concentrado que passava pelas ruas como um incógnito; não falava a ninguém; não fazia caso das pessoas de maior consideração e a quem acatava. Se algum amigo vinha-lhe ao encontro, recebia-o sem parar com a máscara muda e impassível da abstração, e logo o despachava com um aperto de mão automático.

Estas alternativas sucediam-se por fases; duravam semanas e meses. A fisionomia denunciava logo a conjunção desse espírito com o mundo. Havia nele, como em todos nós, dois homens, o íntimo e o social; a diferença é que nele as duas faces revezam-se, enquanto que nos outros elas de ordinário são fixas e formam o direito e o avesso do indivíduo.

Ainda mesmo nos seus dias de misantropia o semblante do Sr. Hermano era tão modesto e sereno que ninguém via na sua desatenção orgulho ou falta de civilidade.

Atribuíam estas desigualdades de caráter ao gênio e não se ofendiam com elas. Em geral os vizinhos e conhecidos o saudavam sempre cordialmente, embora ele passasse sem olhá-los.

Do que poucos sabiam, e só alguns amigos se lembravam, era da primeira mocidade de Hermano, quando ele passava por um dos mais brilhantes cavalheiros dos salões fluminenses. Sua graça natural, o primor de suas maneiras, e as seduções do seu espírito, o distinguiam entre todos como um tipo de elegância.

Eram os arrebóis dessa esplêndida mocidade que ele ainda mostrava nos seus momentos de expansão, quando desprendia-se da constante preocupação.

Um dia, no meio de seus triunfos, quando a sua estrela mais brilhava, correu a noticia de que Hermano estava para casar-se, o que não devia surpreender em sua idade. Foi, porém, geral a admiração quando se soube que D. Julieta, a moça por quem se apaixonara a ponto de sacrificar-lhe a liberdade. não era rica nem bonita.

Ninguém esperava que ele, nas condições de pretender as filhas dos primeiros capitalistas e de escolher, entre as mais aristocráticas belezas da Corte, fizesse um casamento tão desvantajoso.

D. Julieta não freqüentava a alta sociedade; mas algumas pessoas da creme a tinham encontrado por vezes em partidas familiares; e essas compreenderam a repentina paixão que ela tinha inspirado ao noivo.

Como estátua a moça era um esboço imperfeito, ainda mesmo com as correções que aplica o molde de um traje elegante, ou a feliz disposição dos enfeites.

Imagine-se que um cinzel inspirado idealizava esse esboço e dava às linhas do perfil a harmonia que lhes negara a natureza. Tal seria, não o retrato de Julieta, mas o tipo que sua pessoa refletiria na imaginação do artista a quem servisse de modelo.

(continua...)

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