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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Irmãos das Almas

Por Martins Pena (1848)

JORGE – A colheita hoje é boa. É preciso esvaziar a salva. (Faz o que diz.) Guarda metade deste dinheiro antes que minha mulher o veja, que tudo é pouco para ela; e faze-me destes ovos uma fritada e dá estas bananas ao macaco. 

LUÍSA – Tenho tanta repugnância de servir-me deste dinheiro... 

JORGE – Por quê? 

LUÍSA – Dinheiro de esmolas que pedes para as almas... 

JORGE – E então o que tem isso? É verdade que peço para as almas, mas nós também não temos alma? Negar que a temos é ir contra a religião, e além disso, já lá deixei dois cruzados para se dizer missas para as outras almas. É bem que todas se salvem. 

LUÍSA – Duvido que assim a tua se salve. 

JORGE – Deixa-te de asneiras! Pois pensas que por alguns miseráveis dois vinténs, que já foram quatro, (pega em uma moeda de dois vinténs:) – olha, aqui está o carimbo... – um pai de família vá para o inferno? Ora! Supõe que amanhã afincam outro carimbo deste lado. Não desaparecem os dois vinténs e eu também não fico logrado? Nada, antes que me logrem, logro eu. E demais, tirar esmolas para almas e para os santos é um dos melhores e mais cômodos ofícios que eu conheço. Os santos sempre são credores que não falam... Tenho seis opas para os seis dias da semana; aqui as tenho. (Vai ao armário e tira seis opas.) No domingo descanso. Preferi tê-las minhas – é mais seguro; não dou satisfação a tesoureiro nenhum. Às segundas-feiras visto esta verde que tenho no corpo; às terças, esta roxa; às quartas, esta branca; às quintas, esta encarnada; às sextas, esta roxa e branca e aos sábados esta azul. 

LUÍSA – E não entregas dinheiro nenhum para os santos? 

JORGE – Nada, o santo destas opas sou eu. Não tenho descanso, mas também o lucro não é mau. 

LUISA – O lucro... Aquele pobre velho que morava defronte do paredão da Glória também pedia esmolas para os santos, e morreu à míngua. 

JORGE – Minha rica, o fazer as coisas não é nada; o sabê-las fazer é que é tudo. O carola experiente deve conhecer as ruas por que anda, as casas em que entra e as portas a que bate. Ruas há em que se não pilha um real – essas são as da gente rica, civilizada e de bom-tom, que, ou nos conhecem, ou pouco se lhe dá que os santos se alumiem com velas de cera ou de sebo, ou mesmo que estejam às escuras. Enfim, pessoas que pensam que quando se tem dinheiro não se precisa de religião. Por essas ruas não passo eu. Falem-me dos becos aonde vive a gente pobre, das casas de rótulas, das quitandeiras; aí sim, é que a pipineira é grossa! (Vai guardar as opas.) Tenho aprendido à minha custa! 

LUÍSA, sorrindo-se – À custa dos tolos, deves dizer. 

JORGE – E quem os manda serem tolos? Mas, ah, neste mundo nem tudo são rosas. Eu vivia tão bem e tão feliz, e por desconto dos meus pecados dei a mais reverente das cabeçadas! 

LUÍSA – Qual cabeçada? 

JORGE – O casar-me. Ah, minha filha, o casamento é uma cabeçada que deixa o homem atordoado por toda a vida, se o não mata. Se eu soubesse... 

LUÍSA – Agora é tarde o arrependimento; queixa-te de ti. 

JORGE – Que queres? Um dia mete-se o diabo nas tripas de um homem e ei-lo casado. Ainda alguns são felizes, mas eu fui mesmo desgraçadíssimo! Esbarrei-me de focinhos! Encontrei com uma mulher linguaruda, preguiçosa, desavergonhada e atrevida... E para maior infelicidade, vim viver com minha sogra, que é um demônio; leva todo o dia a atiçar a filha contra mim. Vivo num tormento. 

LUÍSA – Eu bem o vejo. 

JORGE – Quando a roda principia a desandar, é assim. Dois meses depois de eu estar casado, morreu nossa mãe e tu te vistes obrigada a vires para minha companhia, para aturares estas duas víboras. Ah, suportar uma mulher é um castigo, mas aturar também uma sogra é... nem eu sei o que seja!... É uma injustiça que Deus nos faz. E quando elas têm um conselheiro e compadre da laia do nosso vizinho Sousa... Isso... 

(Dá estalos com os dedos.) 

LUÍSA – Dizes bem, Jorge, esse nosso vizinho é uma das causas do estado desgraçado em que vives com tua mulher, pelos conselhos que lhe dá. 

JORGE – Velho infernal, mexeriqueiro baboso! Não te poder eu correr com um pau pela porta fora! Mas ainda isto não é o maior infortúnio... Olha, Luísa, há coisas que um marido, por mais prudente que seja, não pode tragar. Tens visto aqui nesta casa o Felisberto? 

LUÍSA – Tenho sim. 

JORGE – Pois esse patife, que ninguém sabe do que vive, que não tem oficio nem benefício, que está todo o santo dia no Largo do Rocio, metido na súcia dos meirinhos, com o pretexto de ser primo de minha mulher entra por esta casa a dentro com toda a sem-cerimônia, sem dizer tir-te, nem guar-te; anda de um quarto para outro com toda a frescura, conversa-se em segredo com minha mulher e cala-se quando eu chego. 

LUÍSA – E por que o sofre, mano? Não é você o homem desta casa? Até quando há de ter medo de sua mulher? 

JORGE – Medo? Pois eu tenho medo dela? (Com riso forçado:) É o que me faltava! O que eu tenho é prudência; não quero desbaratar... 

LUÍSA, à parte – Coitado! 

JORGE – Ele já veio hoje? 

LUÍSA – Ainda não. 

JORGE – Admira-me! 

 

CENA IV

FELISBERTO e os mesmos. 

 

FELISBERTO, entrando – Vivório! 

JORGE, à parte – Já tardava! 

FELISBERTO, para Luísa, sem dar atenção a Jorge – Adeus, minha bela Luisinha. A prima Eufrásia está lá dentro? 

(continua...)

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