Por Martins Pena (1845)
Florência — Já ontem comprei-lhe o hábito com que andará vestido daqui em diante.
Ambrósio — Assim não estranhará quando chegar à idade de entrar no convento; será frade feliz. ( À parte:) E a legítima também ficará em casa.
Florência — Que sacrifícios não farei eu para a ventura dos meus filhos!
CENA III
Entra Juca, vestido de frade, com chapéu desabado, tocando um assobio.
Florência — Anda cá, filhinho. Como estais galante com esse hábito!
Ambrósio — Juquinha, gostas desta roupa?
Juca — Não , não me deixa correr, é preciso levantar assim... (Arregaça o hábito)
Ambrósio — Logo te acostumarás.
Florência — Filhinho, hás-de ser um fradinho muito bonito.
Juca, chorando — Não quero ser frade!
Florência — Então, o que é isso?
Juca — Hi, hi, hi... Não quero ser frade!
Florência — Menino!
Ambrósio — Pois não te darei o carrinho que te prometi, todo bordado de prata, com cvalos de ouro.
Juca, rindo-se — Onde está o carrinho?
Ambrósio — Já o encomendei; é cousa muito bonita: os arreios todos enfeitados de fitas e veludo.
Juca — Os cavalos são de ouro?
Ambrósio — Pois não, de ouro com olhos de brilhantes.
Juca — E andam sózinhos?
Ambrósio — Se andam! De marcha e passo.
Juca — Andam, mamãe?
Florência — Correm, filhinho.
Juca, saltando de contente — Como é bonito! E o carrinho tem rodas, capim para os cavalos, uma moça bem enfeitada?
Ambrósio — Não lhe falta nada.
Juca — E quando vem?
Ambrósio — Assim que estiver pronto.
Juca, saltando e cantando, — Eu quero ser frade, eu quero ser frade... (Etc.)
Ambrósio, para Florência — Assim o iremos acostumando
Florência — Coitadinho, é preciso comprar-lhe o carrinho!
Ambrósio, rindo-se — Com cavalos de ouro?
Florência — Não.
Ambrósio — Basta que se compre uma caixinha com soldadinhos de chumbo.
Juca, saltando pela sala — Eu quero ser frade!
Florência — Está bom, Juquinha, serás frade, mas não grites tanto. Vai lá para dentro.
Juca sai cantando — Eu quero ser frade... (etc.)
Florência — Estas crianças...
Ambrósio — Este levaremos com facilidade... De pequenino se torce o pepino...
Cuidado me dá o teu sobrinho Carlos.
Florência — Já vai para seis meses que ele entrou como noviço no convento.
Ambrósio — E queira Deus que decorra o ano inteiro para professar, que só assim ficaremos tranqüilos.
Florência — E se fugir do convento?
Ambrósio — Lá isso não temo eu... Está bem recomendado. É preciso empregarmos toda nossa autoridade para obrigá-lo a professar. O motivo, bem o sabes...
Florência — Mas olha que Carlos é da pele, é endiabrado.
Ambrósio — Outros tenho eu domado... Vão sendo horas de sairmos, vou me vestir
(Sai pela esquerda.)
CENA IV
Florência — Se não fosse este homem com quem casei-me segunda vez, não teria agora quem zelasse com tanto desinteresse a minha fortuna. É uma bela pessoa... Rodeia-me de cuidados e carinhos. Ora, digam lá que uma mulher não deve casarse segunda vez... Se eu soubesse que havia de ser sempre tão feliz, casar-me-ia cinqüenta.
CENA V
Entrou Emília, vestida de preto, como querendo atravessar a sala.
Florência — Emília, vem cá.
Emília — Senhora?
Florência — Chega aqui. Ó menina, não deixarás este ar triste e lagrimoso em que andas?
Emília — Minha mãe, eu não estou triste. (Limpa os olhos com o lenço.)
Florência — Aí tem! Não digo? A chorar. De que chora?
Emília — De nada, não senhora.
Florência — Ora, isto é insuportável! Mata-se e amofina-se uma mãe extremosa para fazer a felicidade da sua filha, e como agradece esta? Arrepelando-se e chorando. Ora, sejam lá mãe e tenham filhos desobedientes...
Emília — Não sou desobediente. Far-lhe-ei a vontade; mas não posso deixar de chorar e sentir. (Aqui aparece à porta por onde saiu, Ambrósio, em mangas de camisa, para observar)
Florência — E por que tanto chora a menina, por quê?
Emília — Minha mãe...
Florência — O que tem de mau a vida de freira?
Emília — Será muito boa, mas é que não tenho inclinação nenhuma para ela.
Florência — Inclinação, inclinação! O que quer dizer inclinação? Terás, sem dúvida, por algum francelho freqüentador de bailes e passeios, jogador do écarté e dançador de polca? Essas inclinações é que perdem muitas meninas. esta cabecinha ainda está muito leve; eu é que sei o que me convém: serás freira.
Emília — Serei freira, minha mãe, serei! Assim como estou certa que hei-de ser desgraçada.
Florência — Histórias! Sabes tu o que é o mundo? O mundo é... é... (À parte:) Já não me recordo o que me disse o Sr. Ambrósio o que era o mundo. (Alto:) O mundo
é... um... é... (À parte:) E esta? (Vendo AMBRÓSIO junto da porta:) Ah, Ambrósio, dize aqui a esta estonteada o que é o mundo.
Ambrósio, adiantando-se — O mundo é um pélago de enganos e traições, um escolho em que naufragam as felicidades e as doces ilusões da vida... E o convento é porto de salvação e ventura, único abrigo da inocência e da verdadeira felicidade...
Onde está minha casaca?
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.