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#Comédias#Literatura Brasileira

O Namorador ou a Noite de São João

Por Martins Pena (1845)

CLEMENTINA – É que os extremos se tocam. Não tens ouvido cantar aquele lundu: Eu que sigo o meu bem? Mas também o que é verdade é que eu às vezes muito de propósito o faço desesperar.

RITINHA – Isso é maldade. (Clementina vê Júlio, que a este tempo está atrás dela.)

CLEMENTINA, à parte, para Ritinha – Olha! E ele comigo! Não te dizia que me acompanha por toda a parte?

RITINHA, rindo-se – Adeus. (Sai correndo.)


CLEMENTINA, querendo retê-la – Espera! (Quer segui-la.)


JÚLIO, seguindo-a – Um momento! (Clementina volta-se para Júlio.)


CLEMENTINA – O que quer? (Caminha para frente.)


JÚLIO – Eu... (Fica enleado. Alguns momentos de silêncio.)


CLEMENTINA, à parte – E então?



JÚLIO – Eu... (O mesmo jogo.)

CLEMENTINA, à parte – E ficamos nisto!

JÚLIO – Se me permitisse... (Mesmo jogo.)

CLEMENTINA – O senhor está tão ansiado. Tem alguma dor?

JÚLIO – Tenho sim, ingrata, mas é no coração.

CLEMENTINA – Ah, desembuchou?

JÚLIO – Supunha passar hoje uma noite alegre e devertida, e só encontrei tormentos e desenganos.

CLEMENTINA – Ah, encontrou desenganos, coitado! Então quem foi que teve a barbaridade de o desenganar?

JÚLIO – Uma cruel, que zomba de mim e de minha vida, que ainda será causa de algum desatino.

CLEMENTINA – Ora vejam só que crueldade!

JÚLIO, desesperado – Oh, isto assim não pode durar muito. (Com ternura, pegando-lhe na mão:) Clementina, por que hás-de ser tão má comigo? Que te fiz eu para ser assim maltratado? Eu, que tanto bem te quero!

CLEMENTINA – Ontem despedimo-nos em paz. Quais são hoje as queixas?

JÚLIO – Teu primo Luís.

CLEMENTINA – Ainda ciúme?

JÚLIO – Ama-o, que ele me vingará. Não encontrarás outro coração como o meu.

CLEMENTINA – Acabou? Uma sua criada. Vou comer batatas.

JÚLIO, retendo-a – Oh, não, não!

CLEMENTINA, voltando – Com que então queria que eu estivesse toda a noute a olhar para o senhor, com a boca aberta, ham? Feito uma pateta! Que não conversasse mais com minhas amigas, que estivesse amuada em um canto da sala, eu defronte e vós à vista, assim em ar de dois toiros que se querem investir? Sabe que mais? Isto já me vai aborrecendo.

JÚLIO – Perdoa-me.

CLEMENTINA – Por mais de uma vez já lhe tenho manifestado os sentimentos que me animam a seu respeito e dado prova da preferência em que eu o tenho. Quando um dia perguntou-me se eu queria ser sua mulher, respondi-lhe com franqueza que sim, mas que previa obstáculos da parte de meu pai.

JÚLIO – Tudo isto é verdade.

CLEMENTINA – E ajuntei mais: que esse temor, porém, não esfriasse o nosso amor, que paciência e tempo tudo conseguem, e que minha mãe era por nós. E ter-me-ia esquecido a esse ponto de minha posição e pejo, se não o amasse? (Aqui entra pela esquerda, por detrás da casinha do ilhéu, Luís, com uma carta de bichos acesa, pendurada de uma varinha. Corre para Clementina, gritando.)

LUÍS – Viva S. João! Viva S. João! (Clementina foge.)

CLEMENTINA – Primo Luís, primo Luís! (Luís vai atrás dela gritando sempre, até que ela sai pelo fundo.)

CENA II

Enquanto Luís corre após Clementina, Júlio fica a olhar para ela.



JÚLIO – E veio interromper-nos na melhor ocasião! Isto foi muito de propósito! Não é sem razão que eu desconfio dela; ama ao primo. (Neste tempo, Luís, que volta para cena, está junto dele.)

LUÍS – Ó Júlio, que bela patuscada, hem?

JÚLIO, à parte – Vem mangar comigo.

LUÍS – Não há melhor! Foguetes para atacar, música para dançar, e sobretudo moças para namorar. O tio João festeja o nome de seu santo com grandeza. Tu não tens foguetes?

JÚLIO, com mau modo – Não.

LUÍS – Nem namorada?

JÚLIO, ao mesmo – Não.

LUÍS – Ó alma de cântaro, marreco de gesso! Não tens namorada, quando aquela sala está cheia de meninas tão encantadoras? Não tens namorada? Então que viste fazer?

JÚLIO – Obsequiar à pessoa que me convidou, portando-me com decência.

(continua...)

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