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#Comédias#Literatura Brasileira

O Juiz de Paz da Roça

Por Martins Pena (1838)

Aninha − Abenção, meu pai.

Manuel João − Adeus, rapariga. Aonde está tua mãe?

Aninha − Está lá dentro preparando a jacuba.

Manuel João − Vai dizer que traga, pois estou com muito calor. (ANINHA sai. M. JOÃO, para o negro:) Olá, Agostinho, leva estas enxadas lá para dentro e vai botar este café no sol. (O preto sai. MANUEL JOÃO senta-se.) Estou que não posso comigo; tenho trabalhado como um burro!

CENA V

Entra Maria Rosa com uma tigela na mão, e Aninha a acompanha.

Manuel João − Adeus, senhora Maria Rosa.

Maria Rosa − Adeus, meu amigo. Estás muito cansado?

Manuel João − Muito. Dá-me cá isso?

Maria Rosa − Pensando que você viria muito cansado, fiz a tigela cheia.

Manuel João − Obrigado. (Bebendo:) Hoje trabalhei como gente... Limpei o mandiocal, que etava muito sujo... Fiz uma derrubada do lado de Francisco

Antônio... Limpei a vala de Maria do Rosário, que estava muito suja e encharcada, e logo pretendo colher café. Aninha?

Aninha − Meu pai?

Manuel João − Quando acabares de jantar, pega em um samborá e vai colher o café que está à roda da casa.

Aninha − Sim senhor.

Manuel João − Senhora, a janta está pronta?

Maria Rosa − Há muito tempo.

Manuel João − Pois traga.

Maria Rosa − Aninha, vai buscar a janta de teu pai. (ANINHA sai.)

Manuel João − Senhora, sabe que mais? É preciso casarmos esta rapariga.

Maria Rosa − Eu já tenho pensado nisto; mas nós somos pobres, e quem é pobre não casa.

Manuel João − Sim senhora, mas uma pessoa já me deu a entender que logo que puder abocar três ou quatro meias-caras destes que se dão, me havia de falar nisso... Com mais vagar trataremos deste negócio. (Entra ANINHA com dous pratos e os deixa em cima da mesa.)

Aninha − Minha mãe, a carne-seca acabou-se.

Manuel João − Já?!

Maria Rosa − A última vez veio só meia arroba.

Manuel João − Carne boa não faz conta, voa. Assentem-se e jantem. (Assentam-se todos e comem com as mãos. O jantar consta de carne-seca, feijão e laranjas.) Não há carne-seca para o negro?

Aninha − Não senhor.

Manuel João − Pois coma laranja com farinha, que não é melhor do que eu. Esta carne está dura como um couro. Irra! Um dia destes eu... Diabo de carne!... hei-de fazer uma plantação... Lá se vão os dentes!... Deviam ter botado esta carne de molho no corgo... que diabo de laranjas tão azedas! (Batem à porta.) Quem é? (Logo que MANUEL JOÃO ouve bater na porta, esconde os pratos na gaveta e lambe os dedos.)

Escrivão, dentro − Dá licença, Senhor Manuel João?

Manuel João − Entre quem é.

Escrivão, entrando − Deus esteja nesta casa.

Maria Rosa e Manuel João − Amém.

Escrivão − Um criado da Senhora Dona e da Senhora Doninha.

Maria Rosa e Aninha − Uma sua criada. (Cumprimentam.)

Manuel João − O senhor por aqui a estas horas é novidade.

Escrivão − Venho da parte do senhor Juiz de paz intimá-lo para levar um recruta à cidade.

Manuel João − Ó homem, não há mais ninguém que sirva para isto?

Escrivão − Todos se recusam do mesmo modo, e o serviço no entando há de se fazer.

Manuel João − Sim, os pobres é que o pagam.

Escrivão − Meu amigo, isto é falta de patriotismo. Vós bem sabeis que é preciso mandar gente para o Rio Grande; quando não, perdemos esta província.

Manuel João − E que me importa eu com isso? Quem as armou que as desarme.

Escrivão − Mas, meu amigo, os rebeldes têm feito por lá horrores!

Manuel João − E que quer o senhor que se lhe faça? Ora é boa!

Escrivão − Não diga isto, Senhor Manuel João, a rebelião...

Manuel João, gritando − E que me importa eu com isso?... E o senhor a dar-lhe...

Escrivão, zangado − O senhor Juiz manda dizer-lhe que se não for, irá preso.

Manuel João − Pois diga com todos os diabos ao senhor Juiz que lá irei.

Escrivão, à parte − Em boa hora o digas. Apre! custou-me achar um guarda... Às vossas ordens.

Manuel João − Um seu criado.

Escrivão − Sentido nos seus cães.

Manuel João − Não mordem.

Escrivão − Senhora Dona, passe muito bem. (Sai o ESCRIVÃO.)

Manuel João − Mulher, arranja esta saia, enquanto me vou fardar. (Sai M. JOÃO.)

CENA VI

Maria Rosa − Pobre homem! Ir à cidade somente para levar um preso! Perder assim um dia de trabalho...

Aninha − Minha mãe, pra que é que mandam a gente presa para a cidade?

Maria Rosa − Pra irem à guerra.

Aninha − Coitados!

Maria Rosa − Não se dá maior injustiça! Manoel João está todos os dias vestindo a farda. Ora pra levar presos, ora pra dar nos quilombos... É um nunca acabar.

Aninha − Mas meu pai pra que vai?

Maria Rosa − Porque o Juiz de paz o obriga.

Aninha − Ora, ele podia ficar em casa; e se o Juiz de paz cá viesse buscá-lo, não tinha mais que iscar a Jibóia e a Boca-Negra.

Maria Rosa − És uma tolinha! E a cadeia ao depois?

Aninha − Ah, eu não sabia.

CENA VII

Entra Manuel João com a mesma calça e jaqueta de chita, tamancos, barretina da Guarda Nacional, cinturão com baioneta e um grande pau na mão.

Manuel João, entrando − Estou fardado. Adeus, senhora, até amanhã. (Dá um abraço.)

Aninha − Abenção, meu pai.

Manuel João − Adeus, menina.

(continua...)

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