Por Martins Pena (1845)
Jeremias (à parte) — Não disse? São ingleses. Conheço um inglês a cem léguas; basta que diga: yes! Façamos conhecimento... (Chegando-se para os dois:) Good night.
Bolingbrok — Good night. (Continua a passear.)
Jeremias (seguindo-o) — Os senhores, pelo que vejo, são ingleses.
Bolingbrok — Yes. (Continua a passear.)
Jeremias — Eu os conheci logo por causa do yes; e o senhor... Mas que vejo?
John? Não me engano...
John, reparando nele — Jeremias!
Jeremias — Tu, no Rio de Janeiro, e em Paquetá, John? Quando chegaste?
John — Há quinze dias, e já te procurei em tua antiga casa, e disseram-me que tinhas casado e mudado de domicílio.
Jeremias — Disseram-te a verdade.
Bolingbrok — Quem é este?
John — Bolingbrok, apresento-te meu amigo Jeremias. Andamos no mesmo colégio aqui no Rio de Janeiro; fomos sempre amigos.
Bolingbrok — Muita honra, senhor. (Dá-lhe a mão e aperta com força e sacode.)
John — Jeremias, meu sócio, Mister Bolingbrok.
Jeremias (sacudindo a mão de Bolingbrok com violência) — Muita honra.
Bolingbrok — Oh, basta, basta!
Jeremias (para John) — Teu sócio fala português?
John — Muito mal.
Jeremias — Nesse caso, falarei eu inglês.
John — Sabes inglês.
Jeremias — De curiosidade... Tu vais ver. (Para Bolingbrok:) Good morning. How do you do? Very well! Give me some bread. I thank you. Gato come frango. I say...
Bolingbrok (com frieza) — Viva, senhor! (Dá-lhe as costas e passeia.)
John, rindo-se — Estás muito adiantado...
Jeremias — Não falo tal qual um inglês, mas arranjo meu bocado.
John — Está o mesmo Jeremias; sempre alegre e folgazão.
Jeremias — Alegre, John? Não. Já te não lembras que estou casado?
John — E isto te entristece?
Jeremias — Como não imaginas.
John — Onde está tua mulher?
Jeremias — Eu sei lá?
John — Oh, excelente marido!
Jeremias — Soube ontem que hoje era festa de São Roque. De manhã muito cedo meti-me na barca e safei-me sem dizer nada. Que queres? Não posso resistir a uma festa.
John — E deixaste tua mulher só?
Jeremias — Tomara eu também que ela me deixasse só. O que eu estou a temer é que ela arrebente por aqui mais minutos, menos minutos... É muito capaz disso!
John, Deus te livre de uma mulher como a minha.
Bolingbrok (correndo para John) — John, John,! Vem ela, vem ela!
Jeremias (assustando-se) — Minha mulher?
Bolingbrok — Olha, John, olha! God! Mim contente!
CENA IV
Entram pela direita Virgínia e Clarisse.
John — São elas!
Jeremias — Que susto tive eu! Pensei que era minha mulher.
John — Virgínia!
Bolingbrok — My Clarice!
Virgínia — John!
Clarice — Bolimbroque!
Bolingbrok — By God!
Jeremias (à parte) — Ué! As filhas do Narciso... Bravo!
Virgínia — O senhor Jeremias!
Clarice — Ah!
Jeremias — Minhas senhoras, bravíssimo!
John (para Jeremias) — Conheces estas senhoras?
Jeremias — Se as conheço! São minhas vizinhas.
John — Jeremias, espero que tu não nos trairás. Estas meninas devem ser nossas esposas... E como o pai não consente em nosso casamento, aqui estamos para roubá-las, e as roubaremos.
Jeremias — Olá! Isto vai à inglesa... Dito e feito...
John — Podemos contar com a tua cooperação?
Jeremias — Vocês casar-se-ão com elas?
John — Juramos!
Bolingbrok — Yes! Jura!
Jeremias — Conta comigo. Tenho cá minhas quizílias particulares com o pai, e boa é a ocasião para vingar-me. Que queres de mim?
John — Vai-te pôr de vigia para que ele não nos surpreenda.
Jeremias — Pronto! Dona Virgínia, Dona Clarice, adeusinho. (À parte.) Ah, meu velhinho, tu agora me pagarás o nome de extravagante que sempre me dás... (Sai pela direita.)
CENA V
Clarice — Nós os procurávamos.
Bolingbrok — Yes! Nós está aqui.
John — Há meia hora que desembarcamos, e não sabíamos para onde dirigirmonos a fim de encontrar-vos.
Virgínia — Estávamos passeando bem perto daqui e os vimos passar por diante desta barraca. Metemo-nos por entre o povo, fizemo-nos de perdidas e corremos ao vosso encontro. O velho, a estas horas, estará a nossa procura.
Bolingbrok – Está muito contente, Miss, de fala a vós. Muito contente, Miss, muito satisfeita.
Clarice — Creia que também de minha parte.
Bolingbrok — Yes! Minha parte muito satisfeita! Goddam!
John — Minha querida Virgínia, quanto sofro longe de ti.
Bolingbrok — My dear Clarice, eu fica doente longe de ti.
John — Não há para mim satisfação sem a tua companhia.
Virgínia — Sei quanto me ama.
Bolingbrok — Eu está triste como uma burro sem tua companhia.
Clarice — Conheço o quanto me estima.
John — O sono foge de meus olhos, e se alguns instantes durmo, contigo sonho.
Bolingbrok — Mim não dorme mais... Leva toda a noite espirrando.
Clarice — Espirrando?
Bolingbrok — No, no, suspirando. Yes, suspirando.
John — Quando me lembro que talvez viva sem ti, quase enlouqueço... desespero.
Bolingbrok — Quando mim lembra vive sem ti... Oh goddam, mim fica danada. By
God! Yes, fica muito... muito... Yes.
Virgínia — Meu caro John, não duvido um instante de vosso amor.
John — Querida Virgínia!
Clarice — Certa de vosso amor, com amor vos pago.
Bolingbrok — My Clarice, my Clarice!
John — Mas isto assim não pode durar.
Bolingbrok — No,
no, non pode dura.
(continua...)
PENA, Martins. As Casadas Solteiras. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17001 . Acesso em: 28 jan. 2026.