Por José de Alencar (1857)
Ernesto (a Braga) — Deste gênero ainda não tinha encontrado! É pior do que os tais cambistas de loterias. (Passeia)
Augusto — Então que decide? Ernesto — Nada, Sr. Acha pouco? Tenho mais baratas; porém para concluir dou-lhe seis e quinhentos... Sete pagando a corretagem.
Ernesto (contrariado) — Pelo que, Sr.?... Disse-lhe que desejava vender alguma coisa para que o Sr. esteja a maçar-me há meia hora, oferecendo-me preços?
Augusto — Não me disse; mas eu adivinhei. Nós cá, homens habilitados ao negócio, não precisamos que nos digam as coisas. Apenas o ví, descobri logo que era acionista...
Ernesto — O quê? Acionista?.
Augusto — Sim; que tinha sido contemplado na distribuição das ações da Estrada de Ferro, na qualidade de lavrador naturalmente; por isso ofereço-lhe os meus serviços.
Ernesto — E o que é o Sr.?
Augusto — Corretor de fundos e mercadorias; incumbo-me de todas as transações de crédito e câmbio, como saques, descontos.
Ernesto — Pois, meu Sr., sinto dizer-lhe que nem sou acionista, nem fui contemplado em distribuição de coisa alguma.
Augusto — Deveras?
Ernesto — Dou-lhe minha palavra.
Augusto — Basta; às suas ordens. (A Braga) Levei um logro! uma transação magnífica! Também não sei onde estava com a cabeça! Devia ver logo que este sujeitinho não tem a cara respeitável de um acionista! (Vai sair pelo fundo).
Ernesto (a Braga) — Que diabo de profissão é a que exerce este buscapé vestido de paletó?
Braga — Creio que é um corretor.
Ernesto — Fico-o conhecendo.
(Augusto saindo, encontra Custódio que entra)
CENA IV
Os mesmos, Custódio
Custódio (cumprimentando Augusto) — Passou bem, Sr. Augusto? Que há de novo?...
Augusto (rápido) — Câmbio 27 ½; juros 9 e 10%; cotação oficial. Ações — vendas animadas; Estradas de Ferro, dez, bastante procuradas. Tem Estrada de Ferro?...
Custódio — Dizem que o ministério não está seguro?...
Augusto (rápido) — Seguro monstro — estacionário. Banco do Brasil — 102; Hipotecário 205 — mercado regular, poucas vendas. Mangaratiba — frouxo;
Paquetes e Gás — oscilam; Rua do Cano — baixa completa, desconto.
Custódio — Então não diz nada a respeito da política?
Augusto — Digo que tome o meu conselho; Estrada de Ferro, Estrada de Ferro, e largue o mais. Adeus; vou concluir uma operação importante. (Sai)
Ernesto (a Braga) — Eis como se diverte um homem aqui na corte, olhando para o tempo e sofrendo as maçadas de todos estes importunos! Oh! Os Srs. folhetinistas com os seus contos de mil e uma noites são os culpados do que me acontece! Quem os lê e quem vê a realidade!
(Custódio dá um passeio pela loja e dirige-se a Ernesto; Braga vai ao fundo)
CENA V Ernesto, Custódio
Custódio — Muito bom dia? (Apertam as mãos).
Ernesto — Viva, senhor! (A Braga) Eis um sujeito que me conhece, mas que naturalmente nunca me viu.
Custódio — Que há de novo?
Ernesto — E esta? O senhor não leu os jornais?
Custódio — Passei apenas os olhos... (Senta-se)
Ernesto — Pois eu nem isto. (A Braga) Pensa este senhor que sou algum almanaque de notícias? Achou-me com cara de boletim?
Custódio — Que calor que está fazendo. Creio que teremos mudança de tempo. O senhor não acha?
Ernesto — Vou ver, depois lhe direi.
(Vai sair, encontra-se com Henrique que entra)
CENA VI
Os mesmos, Henrique
Henrique — Ernesto! Oh! Quando chegaste?
Ernesto — Adeus; como vais, Henrique?
Henrique — Perfeitamente, e tu? Alegro-me muito em ver-te por aqui.
Ernesto — Não esperava ter o prazer de te encontrar.
Henrique — Desembarcaste hoje mesmo?
Ernesto — Não; há oito dias.
Henrique — Como deixaste São Paulo?
Ernesto — No mesmo estado.
Henrique — É verdade; aproveito a ocasião para pedir-te um pequeno obséquio.
Ernesto — Estou às tuas ordens.
Henrique — Chegaste há pouco, e naturalmente deves ter curiosidade de ver os nossos teatros; aceita este bilhete, é do benefício de um hábil artista.
Ernesto (com ironia) — Ora, meu amigo, és tu que me fazes o obséquio:obrigadíssimo.
Henrique — Onde estás morando?
Ernesto — No Hotel de Botafogo.
Henrique — Sei; adeus. Havemos de nos ver.
Ernesto — Sim; quando quiseres.
Henrique (saindo, passa por Custódio) — Tem passado bem, Sr. Custódio?
Custódio (levanta-se) — Bem, obrigado. Que há de novo?
Henrique — Quer ficar com um bilhete do benefício de...
Custódio — Nada. Há vinte anos não freqüento os espetáculos; no meu tempo... Henrique (rindo-se) — Freqüentava o teatrinho de bonecos! (Sai) Custódio — Criançola!
CENA VII
Ernesto, Custódio
Ernesto (mostrando o cartão) — Mais uma bucha!
Custódio — Pois caiu?
Ernesto — Está me parecendo que esta gente não faz outra coisa desde o princípio até o fim do ano senão beneficiar se mutuamente; mas beneficiar-se desta maneira! Proudhomme que definiu a propriedade um roubo legitimado pela lei se viesse ao Rio de Janeiro, não podia deixar de definir o benefício um estelionato legitimado pela sociedade. A pretexto de teatro e de baile um amigo abusa da nossa confiança e nos toma cinco ou dez mil-réis contra a nossa vontade.
Custódio — Pensa muito bem! O governo é o culpado...
Ernesto — Dos benefícios?
Custódio — De tudo!
(Entram Henrique e Pereira)
CENA VIII
(continua...)
ALENCAR, José de. Verso e Reverso. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16680 . Acesso em: 28 jan. 2026.