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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  De seu lado estremecera o rapaz ao dar com os olhos no homem da camisola, e tal foi a comoção produzida pelo encontro, que derramou-lhe no semblante a expressão de um asco misto de horror, arrancando-lhe involuntariamente dos lábios esta exclamação: 

- Jão Fera!... 

  Não se abalou o mal encarado sujeito; e Miguel, corrido do primeiro assomo de terror, que lhe embotava os brios de valente e galhardo, reagia com uma travessura de rapaz. 

Levou ao rosto a espingarda fingindo armá-la, e apontou para o outro. 

- Atire! disse aquele com a voz arrastada e indolente. 

  E promovendo um passo, apresentou com desgarro o peito à mira da espingarda de Miguel, que já arrependido do gracejo, abaixava a arma. 

- Pois olhe! tornou o homem da camisola com a mesma voz de arrasto: fazia um bem a mim... e a outros! 

- Por que, Jão? 

  Fora da menina esta pergunta. Colocada além de Miguel não vira a menção do tiro, feita de brinquedo por este, e só voltou-se e compreendeu o que passara, ao ouvir as últimas palavras. 

- Esta vida me cansa! respondeu Jão com arquejo. 

- Estás com saudade da forca? retorquiu Miguel com chasco de desprezo.  

Ouviu-se um fungar, como o das narinas da onça quando bufa, e arrepia ao mais bravo caçador, que sente lhe estar ela tomando faro ao sangue tépido. De um pulo achou-se o facínora a rosto com o rapaz, que armara intrepidamente a espingarda, preparado a morrer com dênodo. 

 

II 

Na tronqueira 

 

  Atalhou a menina o ímpeto a Jão, arrojando-se em frente, e cobrindo com o talhe delgado o corpo de Miguel. Seu olhar cintilante trespassou o olhar fero do capanga como a lâmina de um estilete cravando uma couraça. 

- Vai embora! disse ela com império; e a voz parecia ranger-lhe nos lábios pálidos. 

  Foi a pupila inflamada e sanguinária do assassino a que abateu-se. 

  Recolhendo o passo, quedou-se um instante perplexo, absorto por uma luta  que se renhia dentro, procela a subverter o pélago insondável dessa consciência.  

Rompeu-lhe do seio uma sublevação contra o poder misterioso e incompreensível, que lhe agrilhoava com um fio de cabelo as pujanças terríveis do coração, até aí indomável e sedento como a sanha do tigre. 

  Levantou os olhos carregados de cólera. 

- Já! impôs-lhe a menina, que pressentira a reação, e como da primeira vez, a retalhava com o gume do seu olhar. 

  Ainda hesitou o facínora; mas afinal, vencido por ignoto poder, curvou a cabeça, e de um arranco visível afastou-se vagarosamente com um passo tão pesado que lhe custava a arrancar do chão a palma do pé. Duas ou três vezes, antes de encobrir-se na alta capoeira, voltou a cabeça; mas encontrava os olhos cintilantes da menina; e, apesar do grande esforço, vergava ante a inflexível repulsa. 

- Foi-se! disse Miguel. 

  O rapaz assistira imóvel à rápida cena, partido entre o pensamento da defesa e a admiração pela coragem da linda companheira, que afrontava-se com o terrível facínora.  

Vendo este sumir-se no mato, escapara-lhe dos lábios aquela exclamação de surpresa, e acompanhou-a logo de um gesto que não era de vã ameaça, mas de firme resolução. 

- Algum dia nos havemos de encontrar! 

- Que lhe fez ele? perguntou a menina a rir. 

Em seu lindo semblante já não restavam traços da comoção que nela produzira a cena anterior. Como a onda cristalina, que turva um instante a asa negra da borrasca e logo após reflete a bonança do céu, era seu olhar sereno e meigo. 

  Ninguém diria que nesse corpo mimoso dormia a alma que se revelara poucos momentos antes e parecia espedaçar o frágil e delicado invólucro; ninfa celeste a romper a argila de sua formosa crisálida. 

- Que me fez, Inhá? repetiu Miguel surpreso da pergunta. 

- Foi você quem buliu com ele, que ia seu caminho descansado. 

- Para a tocaia! 

- De quem? interrogou a menina assustada. 

- Sei lá! Quando o bugre sai da furna, é mau sinal: vem ao faro do sangue como a onça. Não foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz gabo disso! 

- Então você cuida que ele anda atrás de alguém? 

- Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jão Fera, ou houve morte ou não tarda. 

  Estremeceu Inhá com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa. 

- Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou à casa de Zana, e não apareceu nenhuma desgraça. 

- É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe na cola. 

- Coitado! Se o prendem! 

- Ora qual. Dançará um bocadinho na corda! 

- Você não tem pena? 

- De um malvado, Inhá! 

- Pois eu tenho! 

- Mas por que é que este demônio que não faz caso de ninguém, e até mata as crianças, sofre tudo de Inhá, como ainda há pouco? Por que é? 

- Não sei, Miguel! disse a menina com ingenuidade. 

(continua...)

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