Por José de Alencar (1861)
Alves — Enfim, tratarei de seguir o teu conselho, Augusto.
Miranda — Já nos deixas?... Nem por serem tão raras as tuas visitas?...
Alves — Esta é de despedida. Por isso desculpa.
Miranda — Como assim?...
Alves — Vou a S. Paulo e de lá a Minas. (Entra Clarinha)
Miranda — D. Clarinha, prima de minha mulher. O Sr. Alves, meu amigo. (Cumprimentos)
Alves — Talvez possa te ser útil nesta viagem. Tenho amigos que não duvidarão interessar-se pela tua candidatura.
Miranda — Quando partes?
Alves — Nestes dois dias.
Miranda — Bem; havemos de nos ver ainda. Eu te procurarei. Pretendes demorar-te até o tempo das eleições? (Clarinha e Isabel conversam)
Alves — Talvez seja obrigado a ficar por lá um ano.
Miranda — Que resolução tão repentina foi esta?
Alves — Eu te digo. Os meus negócios não andam bem; tenho-me visto em sérios embaraços. Se não conseguir até o fim do ano próximo realizar o nosso ativo, não sei o que sucederá. Por isso resolvi deixar a casa sob a direção de meu sócio; e ir eu mesmo fazer essas cobranças.
Miranda — Sinto que estejas em dificuldades. Lembra-te que nessas ocasiões é que servem os amigos. O meu casamento trouxe-me alguma fortuna. Far-me-ás obséquio dispondo dela.
Alves — Obrigado, Augusto, obrigado. Não será necessário; tenho fé nos meus devedores. Até amanhã. Minhas senhoras!
Isabel — Boa viagem, senhor Alves! Dizem que as paulistas são bonitas; é natural que o convertam.
Alves — Não creia. minha senhora! Quem resistiu às fluminenses, é um herege que já não tem salvação.
CENA III
Isabel e Clarinha
(Isabel sentada, Clarinha em pé)
Clarinha — Verás que ele ainda não vem esta noite.
Isabel — Quem?
Clarinha — Onde estás com a cabeça, Bela? de quem falávamos nós?
Isabel — Ah! De Henrique?
Clarinha — Dele mesmo.
Isabel — E dizias que ele não virá esta noite?
Clarinha — É o mais certo. Com o pretexto da chuva... Tu não quiseste mandá-lo chamar para que nos acompanhasse ao teatro... Era o único meio de fazê-lo passar a noite conosco.
Isabel — Sabes que eu não gosto de sair sem Augusto!
Clarinha— Se formos a esperar por ele, não sairemos nunca! Então agora que lhe meteram na cabeça ser deputado! O verdadeiro é ires te habituando. Quem nos acompanhava quando estivemos em Petrópolis, não era Henrique?
Isabel — Sim... mas hoje não estava com disposição de sair, Clarinha.
Clarinha — Quem te obrigava a sair? Ele vinha... Dava-se uma desculpa...
Isabel — Ele virá independente disso.
Clarinha — O que perdes?
Isabel — O quê?... Perco o teu vestido de noiva.
Clarinha — Deveras, minha senhora?... Também quer zombar de mim? (Beijando-a) Ah! Se a dificuldade estivesse no vestido!
Isabel — Não há dificuldade alguma.
Clarinha — Ah! para ti é como se estivesse feito.
Isabel — E há de fazer-se, Clarinha, eu te prometo.
Clarinha — Ora! Se ele não quiser, menos eu.
Isabel — Ele quer; não te tenho dito tantas vezes!
Clarinha — Tu, muitas; mas Henrique nem uma só.
Isabel — Se foges dele!
Clarinha — Então eu é que lhe hei de fazer a corte?
Isabel — Fazer, não; mas aceitar, Clarinha.
Clarinha — Ora, Bela, o tal sonso do senhor Henrique bem sabe que uma moça quando se esquiva é para ser perseguida.
Isabel — Nem sempre. (Joaquim traz luzes)
Clarinha — Eu falo das moças; não falo das senhoras casadas. (Olhando a pêndula) Mais de oito horas!
Isabel — Não é tarde.
Clarinha — Querem ver que foi ao teatro?
Isabel — Estás impaciente.
Clarinha — Não sabes a razão?... É que hoje isso se decide.
Isabel — Com toda essa pressa!
Clarinha — Pois hei de estar gastando à toa o meu coração? Que contas darei depois a meu marido? Eu só pretendo querer bem uma vez... Mas essa há de valer por todas.
Isabel — Se não encontrares a indiferença e o abandono!...
Clarinha — Asseguro-te que não hei de sofrê-lo por muito tempo.
Isabel — Será ele?
Clarinha — Ah! (Afastando-se)
Isabel — Que é isso? Em que ficou a resolução de há pouco?
Clarinha (Gesto de silêncio) — Queres que ele suspeite que o estava esperando?
(Folheia as músicas no piano)
CENA IV
As mesmas e Henrique
Henrique — Boa noite, Clarinha!
Clarinha — Ah! que susto que eu tive! Não o vi entrar. (Aperta-lhe a mão)
Henrique — Bela!
Isabel — Adeus, Henrique! (Clarinha na janela)
Henrique (Meia voz) — Incomodo?
Isabel — Clarinha
Clarinha — O que é?
Isabel — Vem conversar!
Clarinha — Quem me quer, me procura, minha senhora.
Isabel (a Henrique) — Sabe com quem é aquilo.
Henrique — Clarinha gosta dos girassóis. (A Isabel, baixo) Desejo falar-lhe.
Clarinha — Tenho esse mau gosto.
Henrique — Pois eu prefiro as saudades. (Olha Isabel)
Isabel (meia voz) — Não!
Clarinha — Já sabia disso.
Henrique (a meia voz) — Pela última vez!...
Isabel (idem) — Lembre-se do seu tio!
Henrique (idem) — Espere-me nesta sala!
Isabel (idem) — Que loucura é esta?
Clarinha — Se é de mim, podem falar alto.
Henrique — Estávamos tão longe daqui!
Clarinha — No mundo da lua talvez.
Henrique — Tem razão, Clarinha. Eu sou um louco. (Ergue-se)
Isabel — Henrique!
Clarinha — Zangou-se por um gracejo!
Isabel — Está
hoje triste; vê se o consolas.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.