Por José de Alencar (1860)
ELISA - Ah! Agora compreendo!... Esse nome de mãe te lembra a perda que sofreste!... Perdoa, Joana.
JOANA - Não tem de que, iaiá. Mas Joana lhe pede... Se não quer ver ela triste, não fale mais nisto.
ELISA - Eu te prometo.
JOANA - Obrigada, iaiá. (Pausa.)
ELISA - Devem ser perto de nove horas... O Sr. Jorge não tarda.
JOANA - É mesmo!... Ele que vem sempre à hora certa.
ELISA - Nem tenho vontade de estudar.
JOANA - Estão batendo.
CENA III
ELISA, JOANA e PFIXOTO
PEIXOTO - Viva, minha senhora! O Sr. Gomes?
ELISA - Há pouco saiu.
PEIXOTO - Já saiu! Tão cedo!... Ainda não são nove horas.
JOANA - Meu senhor, ele teve que fazer.
PEIXOTO - Nem de propósito! Sempre que o procuro, o Sr. Gomes não está em casa.
ELISA - O senhor não quer sentar-se?
PEIXOTO - Obrigado; tenho pressa.
ELISA - Por que não o procura na repartição?
PEIXOTO - Não estou para isso. Queria dizer-lhe que o Peixoto aqui veio e voltará dentro de meia hora.
ELISA - Sim, senhor.
PEIXOTO - Sem mais!
CENA IV
JOANA e ELISA
JOANA - Cruzes!... Que homem grosseiro, minha Virgem Santíssima!... Um senhor assim era um purgatório.
ELISA - Coitado! A culpa não é dele!
JOANA - De quem é então?
ELISA - Dos pais, que não lhe souberam dar educação.
JOANA - Que bom coração tem iaiá!... Desculpa tudo.
ELISA - Para que me desculpem também os meus defeitos, Joana.
JOANA - É o que iaiá não tem. Oh! Joana sabe conhecer gente! E então iaiá que está mesmo mostrando o que é, nesse rostinho de prata!
ELISA - Deixa-te disso, Joana.
JOANA - Ah! se iaiá soubesse como eu lhe quero bem!...
ELISA - Assim te pudesse eu agradecer como desejava!
JOANA - Inda mais, iaiá?
ELISA - Estás brincando!... Nunca te dei nada.
JOANA - Então iaiá!... Cuida que é pouco ver meu nhonhô feliz?
ELISA - Joana!...
JOANA - Não se zangue, não, iaiá, com sua mulata velha.
ELISA - Para que falas dessas coisas? Não gosto.
JOANA - Está bom! Eu calo a boca. Então ele não merece?
ELISA - Merece muito mais; porém...
JOANA - Ora, iaiá!... Não disfarce!...
ELISA - Outra vez?
JOANA - Eu só peço uma coisa. Nosso Senhor não me mate sem que eu veja isso. Há de ser uma festa!..
ELISA - Queres que eu me agaste deveras, hein?
JOANA - Não, iaiá, não! Mas que noivo bonito, e a noiva, hi!... Feitinhos um para o outro!
ELISA - Eu te peço, Joana...
JOANA - Nesse dia... Olhe, iaiá! Hei de pôr meu cabeção novo, como as mulatinhas da Bahia... Que pensa! Não faça pouco na sua escrava, iaiá! Joana também já foi moça... sabia riçar o pixaim e bater com o tacão da chinelinha na calçada; só - taco, taco, tataco! Oh! hei de me lembrar do meu tempo... Se eu já estou chorando de contente!... E meu nhonhô como não há de ficar alegre!
ELISA - Não gosto destas graças, já te disse.
JOANA - Que mal faz? É uma coisa que há de acontecer.
ELISA - Estás bem livre!
JOANA - Se iaiá não pagasse a meu nhonhô todo o bem que lhe quer...
ELISA - Que farias?
JOANA - Eu, iaiá?... Nada! Que pode fazer uma escrava?... Mas iaiá era ingrata!
ELISA Pois serei.
JOANA - Iaiá jura?... Não é capaz!... Nem que esse coração não estivesse aí saltando!
ELISA - Se continuas... Vou-me embora! (Batem.)
JOANA - Querem ver que é nhonhô!
ELISA - Bico!... Ouviste?
JOANA - Joana sabe guardar um segredo, iaiá.
CENA V
As mesmas e JORGE
JORGE - Como passou, D. Elisa?... Ah! Joana está lhe fazendo companhia!
ELISA - Veio conversar comigo.
JORGE - Quando precise de mandar por ela fazer alguma coisa, não tenha acanhamento, D. Elisa.
ELISA - Já lhe sou tão obrigada, Sr. Jorge!
JOANA - Eu não lhe disse, iaiá?
JORGE - O quê?
JOANA - Não vê, nhonhô, que estes dias, desde que o escravo do Sr. Gomes foi doente para a Misericórdia, eu venho fazer algum serviço, pouco...
JORGE - Tu és sempre boa, Joana!
JOANA - Não digas isso, nhonhô!
JORGE - Digo, sim! - D. Elisa, creio que minha mãe, a quem não conheci, não me teria mais amor do que esta segunda mãe, que me criou.
JOANA - Hô gente, nhonhô! Isso são modos de tratar sua escrava.
ELISA - O Sr. tem razão, Sr. Jorge.
JOANA - Não tem! Não tem!
ELISA - Basta ouvi-la falar do senhor.
JORGE - Ah! Ela falou-lhe de mim?... Que disse?...
JOANA - Nada, nhonhô.
ELISA - Em outras palavras, o que o senhor acaba de repetir.
JOANA - Iaiá... Eu disse que queria bem a meu senhor, como uma escrava pode querer... só!
JORGE - Como uma escrava!... Sentes ser cativa, não é?
JOANA - Eu!... Não, nhonhô! Joana é mais feliz em servir seu senhor, do que se estivesse forra.
JORGE - Bem sabes! Hoje é o dia de meus anos. Tenho um presente para ti.
JOANA - Nhonhô já me deu um este mês.
JORGE - Não faz mal. Pudesse eu dar-te quantos desejo. - Vamos à nossa lição, D. Elisa?
ELISA - Quando o senhor quiser.
JOANA - E eu vou cuidar da minha cozinha.
CENA VI
JORGE e ELISA
JORGE - Acho-a triste hoje.
ELISA - É engano seu. Nunca fui alegre.
JORGE - Perdão! Quando a conheci, a senhora tinha mais vivacidade do que tem hoje. Também não se diverte, não passeia.
ELISA - Sou pouco amiga de passear.
JORGE - Mas é necessário ter uma distração.
ELISA - Tinha uma de que muito gostava.
JORGE - Qual?
ELISA - A música, mas...
JORGE - Mas também enfastia. Não é?
ELISA - A mim, nunca.
JORGE - Pois está em suas mãos cultivá-la.
ELISA - Se estivesse!...
(continua...)
ALENCAR, José de. Mãe. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7546 . Acesso em: 21 jan. 2026.