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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Era por momentos como um vasto lençol que amortalhava as ruínas do antigo edifício; logo depois afiguravam-se vultos de carmelitas cobertos da alva estamenha, a percorrer o claustro solitário, e a murmurar as sagradas litanias; alguma vez parecia-me ver passar diante de meus olhos uma dessas lâmias, de que a imaginação popular em outras eras povoou os templos abandonados.

Aí as recordações históricas, dormidas sobre este solo, em cada pedra que tombara das antigas construções, acordavam umas após outras no meu espírito, e me faziam reviver na memória os dous séculos que tinham volvido sobre as diversas gerações de homens e de casas, de que apenas restavam alguns nomes e alguns muros.

O mar a perder-se no horizonte lembrava-me a flotilha de Duarte Coelho, o donatário de Pernambuco, aportando aquela costa em 1535, e trazendo a seu bordo a colônia que nesse mesmo ano fundou a vila de Olinda, com o auxílio dos chefes índios, Miraubi, Itagipe e Itabira, e das suas tribos selvagens. Lembrava-me a grande armada holandesa comandada por Lecoq, que surgiu a 14 de fevereiro de 1631 diante da cidade, e em alguns dias assenhoreouse dela com fácil vitória, pelo terror que se apoderou dos habitantes, apesar dos esforços de Matias de Albuquerque.

Lembrava-me os combates navais das forças espanholas e portuguesas contra os holandeses, especialmente o de 12 de setembro de 1631 em que Pater, depois de sete horas de peleja, batido por Oquendo, abandonado da tripulação em sua nau presa das chamas, preferiu à salvação, que tinha por desonra, uma morte gloriosa, e, envolvendo-se na bandeira nacional, sepultou-se no oceano, único túmulo digno de um almirante batavo.

O istmo, os Fortes do Mar e de São Jorge, o antigo Colégio dos Jesuítas e o Convento de São Francisco, recordavam a resistência heróica dos poucos que não abandonaram o seu general na defesa da colônia, mas que afinal foram obrigados a ceder ao número.

Os edifícios em ruína ainda tinham gravados nos seus muros os vestígios do incêndio que em 1631 os holandeses lançaram à cidade, quando reconheceram a impossibilidade de conservá-la e a necessidade de concentrar-se no povoado do Recife. Além, a várzea que se estendia pela margem direita do Beberibe, semeada de quintas e de jardins, apresentava ainda o sítio desse Arraial do Bom Jesus, centro da resistência heróica, com que durante o espaço de cinco anos os pernambucanos fizeram esquecer por feitos e ações gloriosas, dignas da idade homérica, um momento de fraqueza e temor na rendição da colônia.

Enfim, aquela solidão e silêncio testemunhavam a decadência de Olinda, que a fundação da cidade Maurícia, mais do que o incêndio, apressara, sobretudo depois que a guerra civil dos Mascates roubou-lhe, para dar à sua rival, a primazia como capital de Pernambuco.

E quando todas essas recordações tinham voado e revoado por meu espírito, interrogava os muros do convento e os cômoros de pedras; como para arrancar-lhes o segredo de algum fato interessante de que se perdera a tradição, ou a palavra de algum drama desconhecido, que o coração naturalmente representara a par com acontecimentos políticos.

A guerra, o incêndio, a luta das raças, as revoluções, não passaram por ai sem o cortejo infalível das paixões humanas. Os feitos de armas, as ações de heroísmo, o morticínio, o crime e a virtude em suas enérgicas manifestações, deviam prender-se necessariamente por um fio misterioso a alguma história de amor, ou a algum episódio de vingança.

Era justamente essa crônica do coração, esquecida pelos analistas do tempo, que eu pedia àquelas rumas.

Quantas vezes não sondei esses destroços de alvenaria, essas paredes fluas, procurando, nem sei o que, uma memória, um nome, uma inscrição, uma frase que me revelasse algum mistério, que me dissesse o epílogo de alguma lenda que a imaginação completaria!

Mas o velho convento ficava mudo e impassível: os muros, levados pela chuva e pelo vento, estavam descarnados; as pedras já não conservavam os vestígios da mão do homem; e a eloqüência do silêncio, que plainava sobre o templo, dizia apenas a ruína.

Cansado, extenuado de corpo e espírito, partia-me depois de duas ou três horas de meditação e de investigações inúteis, trazendo ainda para a insônia as impressões várias, as reflexões profundas que despertava essa evocação do passado.

No dia seguinte voltava; não me podia resignar à idéia de que esse claustro não guardasse para mim alguma revelação poética; tinha um pressentimento, que mais tarde devia realizarse, de um modo inesperado.

Eis como.


II

Uma noite, seriam onze passadas, estava eu sentado no adro do convento. Fazia luar, porém o céu nublava-se; o ar era pesado, o mar sem ondulações arquejava como opresso; a chama fosforescente do relâmpago iluminava a fímbria das nuvens escuras. Uma grande tempestade estava iminente.

(continua...)

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